Na minha infância, havia muitas coleções de cromos, uns que vinham com revistas, outros com chocolates ou rebuçados, outros em pequenos envelopes que se adquiriam nas tabacarias. Comprava-se as cadernetas e iam-se colando, desde os jogadores de futebol às raças humanas, passando por detetives e escritores de ficção policial, entre muitos outros. Quando as coleções se aproximavam do fim, as coisas fiavam mais fino. A probabilidade de nos surgirem os cromos em falta ia diminuindo e entrava-se então nas trocas com os que sobravam aos outros, às vezes tendo de mercadear um "custoso" por vários exemplares que tínhamos repetidos. Não sei onde param as minhas cadernetas de infância, mas as bolandas das casas em que os meus pais viveram faz-me pensar que devem ter ido desta para melhor.
Porque é que me lembro disto agora? Porque, ao ler na net um jornal lisboeta de hoje, verifico que, finalmente, um certo cromo, dos que me faltava na minha galeria de adversários políticos, finalmente me arremessa uma farpa, num seu artigo semanal. Já tinha quase todos na minha "coleção" particular (se o leitor deteta algum gozo no que ora escrevo, tem alguma razão para isso) mas este nunca mais aparecia. Pronto, quebrou-se hoje o enguiço, ufh!
Por que fui atacado? Aparentemente por eu ter lançado, noutro espaço informático, a ideia (pelos vistos tenebrosa e atentatória das liberdades) de que deveria acabar-se em absoluto com o anonimato na internet. Essa proposta "radical" de propor que quem faz uma afirmação ponha o seu nome real por baixo, sem refúgio em pseudónimos ou iniciais equívocas, é, pelos vistos, altamente sinistra. Cá para mim, quem não deve não teme - embora imagine que seja muito "corajoso" e cómodo insultar e caluniar os outros, sem mostrar a cara.
Vá lá que o cromo assina todos os artigos, o que só lhe fica bem.
