Estava-se em outubro de 1995. O Partido Socialista ia constituir um governo minoritário, chefiado por António Guterres. O Palácio das Necessidades fervilhava de agitação. Quem seria o ministro? Quem seriam os secretários de Estado? Que mudanças iriam ocorrer? Alguns postos seriam "mexidos", fruto da nova onda política? Haveria "saneamentos", depois de uma década de cavaquismo?
Era não conhecer o PS, era não entender que a história da gestão da máquina diplomática pelos socialistas, desde os tempos de Mário Soares em 1974, se pautou sempre pelo privilégio do mérito profissional, nunca optou por práticas sectárias de promoção e benefício da "sua gente". As opções ideológicas de cada um, legítimas e naturais (os diplomatas não são eunucos políticos, como eu repito há anos), não são levadas em conta na generalidade das colocações. Nesse ano, e nos seguintes, Jaime Gama daria aliás prova concreta do rigor dessa orientação. Como seu secretário de Estado por cerca de cinco anos e meio, fui disso testemunha privilegiada.
Um determinado diplomata, de categoria profissional média, homem conservador, que tinha gozado de uma boa carreira no consulado cavaquista, andava contudo ansioso por se colar ao novo poder, convencido que disso poderia vir beneficiar no futuro. O medo leva ao oportunismo e este é um espelho do caráter.
Poucos dias depois dessas eleições de 1 de outubro de 1995, numa escada do palácio das Necessidades, o tal diplomata encontra um colega que era conhecido como socialista, creio mesmo que militante do PS. Com a cordialidade que era habitual entre eles, mas com uma pretendida "camaradagem", o diplomata lança, ao ouvido do colega socialista, esta pérola, em linguarejar que ele achava adequadamente popularucho: "Os gajos estão à rasca com a nossa vitória!" O diplomata socialista fez uma cara de espanto, sem saber o que dizer, mas o outro lá partiu, feliz e contente, "mensagem" transmitida. E, vá lá!, não lhe correu mal a vida...