O PSD/CDS mantém uma acentuada crispação política por ter sido afastado do poder. É natural e, até certo ponto, compreensível. O partido ganhou as eleições e a sua expetativa era poder governar. Só que não manteve a maioria absoluta de que dispunha nos últimos quatro anos, perdendo mesmo 700 mil eleitores.
Em 2011, com essa maioria absoluta, Passos Coelho recusou a proposta que o PS lhe fez para partilhar o governo, para implementar o "memorando de entendimento" com a Troika. Desta vez, para governar, a coligação precisava de obter, pelo menos, a abstenção do PS. O PS considerou que os seus eleitores não queriam que apoiasse, ou sequer tolerasse, uma política da qual o partido discordava em absoluto e contra a qual se tinha batido durante quatro anos. Aliás, António Costa tinha dito claramente, durante a campanha, que não daria o seu apoio a um governo de direita. Como tal, o PS recusou-se a dar esse "nil obstat". Não pode ter sido surpresa para ninguém.
O PS sabia que, para poder ter o gesto que teve, tinha de apresentar uma alternativa, sem o que deixaria o país sem governo. Pode não se gostar desssa alternativa e, em especial, pode desconfiar-se se ela terá condições de sobrevivência e se o modo como ela está construída tem a solidez e a coerência para garantir uma governabilidade estável. Como já disse em diversas ocasiões, partilho fortemente essas dúvidas. E ao ver a CGTP à volta de S. Bento, ao ouvir Jerónimo de Sousa interrogar-se sobre a racionalidade da regra do limite do défice em 3% do PIB e Catarina Martins a contrariar, com imperdoável ligeireza, as sensatas palavras de Mário Centeno ao "Financial Times" sobre a dívida, só encontro motivos para manter a minha preocupação.
Sei que isto não é popular no PS, mas eu falo apenas pela minha cabeça e espero para ver: não confio em que o PCP e o Bloco se mantenham num apoio leal a um eventual governo do PS. Se e quando eu tiver razão - e gostava muito de estar errado - o eleitorado ajuizará em conformidade. A democracia tem as eleições como terapêutica para as crises.
Mas há uma preocupação que eu não tenho. É com António Costa, com o PS e com o seu compromisso para com as metas europeias. Tenho total confiança no líder do PS - até agora só tenho ouvido dizer que perderam essa confiança pessoas que não votaram nele -, um político com provas dadas, com quase quatro décadas de empenhamento democrático, que foi um excelente ministro, um magnífico presidente da Câmara de Lisboa. Além disso a Europa conhece-o: foi vice-presidente do Parlamento Europeu e presidiu a conselhos de ministros da União Europeia. Não lhe falta experiência e nunca ninguém o viu, alguma vez, falhar no seu empenhamento em procurar garantir o prestígio para Portugal na Europa.
Se o PS for governo sê-lo-á pelo facto de, não tendo uma determinada solução minoritária conseguido garantir apoio parlamentar, o presidente da República se ter visto obrigado a recorrer à segunda solução minoritária que lhe foi apresentada. Pode compreender-se que Cavaco Silva não goste de ver a sua década de Belém "coroada" com um governo de esquerda no poder. Mas, enfim, e para a História, sempre se poderá dizer que terminou do mesmo modo que Mário Soares e Jorge Sampaio...