terça-feira, setembro 21, 2021

O que dou

Há pouco, num encontro casual na Estufa Fria, dei um abraço, muito sincero, ao meu amigo Carlos Moedas, um homem de bem, que foi um excelente comissário europeu.

No domingo, nas eleições, vou dar o meu voto, também muito sincero e com todo o empenho cívico, ao meu amigo e correligionário (gosto imenso da palavra) Fernando Medina, que tem sido e vai continuar a ser um excelente presidente do município de Lisboa.

Cada um dá o que quer e a quem quiser.

Notícias da terra

A Covid anda por aí a matar em barda, o Afeganistão está no estado em que está, no Médio Oriente as coisas estão empatadas mas sempre à bica de poderem explodir, na Ucrânia vive-se a paz podre de há muito, os islamistas desestabilizam o Sahel e espalham-se como azeite por outra África, a Europa política, depois do Brexit, está dividida e num coma de projeto disfarçado pela retórica auto-congratulatória e pelos lucros do euro, Putin ganhou com fraudes e Bolsonaro e outros Maduros do género autocrático lá vão andando, os EUA e os seus amigos assustados do Oriente “fazem peito” e desafiam agora uma China cada vez mais deslumbrada com o seu poderio, a ONU, coitada, faz o que pode e, infelizmente, pode pouco e queixa-se muito. Também sei que as desigualdades globais, em matéria de riqueza, não se atenuaram ou até se agravaram, que há muita fome no mundo dito em desenvolvimento e uma crescente exclusão nos países mais ricos, que há muitos e cada vez mais refugiados à procura de abrigo e milhões de deslocados internos pelo mundo, que continua a morrer gente a atravessar o Mediterrâneo, que os extremismos atiçam cada vez mais ódios e potenciam os medos, levando a um alheamento cívico preocupante. Sei tudo isso, mas gostava de dar uma “novidade”: nunca tanta gente viveu tão bem em todo o mundo e raramente se atravessou um período de paz e redução de luta armada aberta como aquele que vivemos. Sei que isto “não dá jeito” e vai a contraciclo do sentimento prevalecente na maioria, que parece viver confortavelmente deprimida, num discurso catastrofista e tremendista, acossada por alguns receios concretos mas em geral difusos, para quem os factos são, afinal, um pormenor que não pode abalar as convicções que já têm adquiridas como verdade. Repito: pode parecer o contrário, mas é assim mesmo. Pensem nisto!

Uma pega de uma gralha

Os franceses, para quem não saiba, usam a expressão “nom d’oiseaux” para significarem um insulto. Esta deriva ornitológica surgiu-me agora à ideia. Num texto que alinhavei por aqui, cometi, há dias, uma gralha. Sim, uma gralha! Imaginem que escrevi “precalço” em lugar de grafar “percalço”. E logo um periódico, ladino, feroz, de lápis azul afiado, fez notar o erro crasso, embora de forma sibilina. Já estou a ver o leitor a exclamar, indignado: “O quê! Um embaixador, que representou o país pelo mundo, que deve trazer a língua portuguesa ao peito, comete um erro desse calibre?!” Imagino mesmo o meu amigo Albano Bessa Monteiro, daqui a dias, por via postal, a zurzir-me, em papel timbrado do seu escritório de advogado: “Então tu, aluno do meu pai em Português (bem sei que nunca passaste de 14, mas mesmo assim!), caíste nessa coisa miserável de trocar a posição do “e” com a do “r”, pensando talvez que ias safar-te com o alibi de alguma dislexia de velhice? Valha-nos a imprensa, atenta, alerta, à cata desses imperdoáveis deslizes. No final de contas, tu és é um imenso ignorante! O meu velho pai e teu professor, se soubesse desta tua calinada, do tamanho de um andor da Senhora da Pena, teria um imenso e justificado desgosto. Digo-te mais, Francisco, eu já tinha notado a fragilidade que te abala a escrita, logo a ti, que há dias cometeste um livreco: aqui há uns anos, insensatamente, escreveste “insenso” em lugar de “incenso”. O que diria o padre Henrique! E, noutra ocasião (nunca to disse, por pudor), escreveste “idiossincrasia” só com um “s”! Calei então a minha indignação, mas digo-to agora, revelando o quão chocado fiquei. Como compreenderás, a partir deste momento, as nossas relações nunca mais poderão ser as mesmas.” É assim a vida! Ornitológica e graficamente, em “nom d’oiseaux”, quase que se podia dizer que foi uma pega de uma gralha.

segunda-feira, setembro 20, 2021

A utilidade marginal das imagens


Em 2017, fiz ver por escrito à CMTV que era uma desnecessária e preguiçosa atitude, sempre que aquele canal fazia uma peça sobre reformas ou pessoas idosas, apresentar umas imagens captadas no Jardim da Estrela, em que surgia Rui Mário Gonçalves à conversa com José-Augusto França. Creio não ter tido o menor êxito.

Dado que o primeiro tinha morrido uns anos antes, parecia-me indelicado, para a respetiva família, que essas imagens se repetissem, tanto mais que o nome dos “figurantes” não vinha sequer ao assunto. O “cameraman” terá filmado aqueles ”velhotes” como podia ter filmado outros quaisquer. E, no entanto, ali estavam duas figuras importantes da escrita sobre a arte portuguesa, por mera obra do acaso.

Ora bem! Com a morte de José-Augusto França, surge agora uma bela ocasião para aquelas imagens da CMTV saírem do arquivo. Procurem pela palavra ”reformados” ou “idosos” ou “velhos”. Vão ver que encontram.

domingo, setembro 19, 2021

A conterrânea de Steinbroken



Devo ter ainda numa estante qualquer, já nem sei onde, "A Musa Irregular", de Fernando Assis Pacheco. Há muito tempo.

Há minutos, na "Travessa" (nunca devemos perder a esperança no futuro de um país onde há livrarias que estão abertas ao domingo), vi uma edição do livro de 2019, da "Tinta da China". Compro? Não compro? Dizia na capab"edição aumentada", o que foi um alibi para desculpar a aquisição.

Quando vale em euros uma hora de belo pousio, nesta tarde de sol estupenda (a palavra já se usa pouco, mas tem uma sonoridade que me agrada), ali no Príncipe Real? Mas será que há lugares nos bancos de jardim ou a chusma de franceses que por aí anda e as holandesas de perna ao léu já terão ocupado tudo? Mas vale, com certeza, o preço deste livro de um poeta que me deu sempre muito gozo ler e que tenho a sensação de que escrevia com um prazer imenso. 

Comprei e fui lendo - em voz alta, porque gosto da poesia falada, mas em tom suficiente baixo para não parecer maluquinho diante de quem passava. E não é que, na página 243, dei com um poema a uma "pen pal" finlandesa?! 

É que eu, ao tempo da minha juventude mais jovem, também troquei cartas (julgo já ter contado isso por aqui) com uma loirita gordaça da terra de Steinbroken, da qual, ao contrário de Assis Pacheco, nem por sombras me apaixonei. Não era com certeza a mesma, porque me recordo que finlandesas à procura de correspondentes latinos era "mato", à época. E logo a nós, que, por essa altura, só sonhávamos com suecas! 

Aqui fica a inveja assumida a quem fez os "versinhos".

sábado, setembro 18, 2021

José-Augusto França


Há coincidências do diabo! Há dois dias, depois do jantar, saído do Grémio Literário, depois de charlar com um amigo para umas dezenas de pessoas, sobre o diplomata que Eça de Queirós também foi, veio-me à memória, de repente, José-Augusto França. Que seria feito dele? Sabia que estava doente, há já bastante tempo, algures em França, onde vivia.

Acabo de saber que morreu, aos 99 anos.

É que tinha sido precisamente no Grémio Literário que eu tinha sido apresentado a José-Augusto França, nem sei bem em que contexto. Fiquei então satisfeito por lhe poder dizer que, além de conhecer muita da sua obra, ainda antes do 25 de Abril lia, com grande interesse, crónicas que ele publicava, creio que no “Diário de Lisboa”, sobre questões de património e arte.

Lembrava-me, aliás, de que fora ele quem, numa delas, dera o alerta para o facto da antiga igreja, junto à Praça do Município, onde hoje está o Museu do Dinheiro, e que era à época uma garagem do Banco de Portugal, ter surgido com as respetivas pedras numeradas. Isso significava que estava prestes a ser demolida e transportada, ao que julgo, para a zona de Benfica.

França escreveu então um artigo a insurgir-se contra o que achava ser um atentado ao património. O que hoje é coisa banal na nossa imprensa - alertar para uma decisão passível de contestação - era então, não apenas coisa rara, mas algo de corajoso. A verdade é que o assunto foi travado e o edifício ficou por lá. Muito graças ao alerta de José-Augusto França.

Nessa minha conversa, que julgo que teve lugar durante um jantar, aproveitei para lhe contar um episódio que ele desconhecia. Uma cena que eu tinha testemunhado, numa noite de 1970 ou 1971, no Centro Nacional de Cultura.

Francisco Salgado Zenha, advogado de renome, oposicionista à ditadura e que, em democracia, foi depois “número dois” do PS e candidato presidencial, intervinha num ciclo de palestras. O regime não iria deixar durar muito essa iniciativa do Centro.

Já não recordo qual era o tema da palestra de Zenha, mas lembro-me bem de que, a certa altura, ele citou, com ironia, uma frase que ouvira a José Augusto França, segundo a qual os portugueses viviam divididos entre “dois santos”: São Bento, para quem era atraído pelo poder, e Santa Apolónia, para os que viviam na permanente miragem de Paris.

Nessa altura, ouviu-se, do fundo da sala, a voz forte, quase de tribuno, do advogado, jornalista e político Francisco Sousa Tavares, que também ali estava, ao lado da sua mulher, a escritora Sophia de Mello Breyner, a interromper o orador: "O José-Augusto disse isso? Essa agora!? Logo ele, que nunca usa o comboio, que vai sempre de avião para Paris!" A sala desatou em gargalhadas. 

Divertidíssimo, França confirmou-me que, de facto, contava, às vezes, essa graça. Mas estava longe de supor que Sousa Tavares o citara.

José-Augusto França era um homem fascinante. Historiador de arte, mas também memorialista e ficcionista, teve um papel muito ativo no nosso panorama cultural, tendo chefiado o Centro Gulbenkian em Paris. É um nome grande que se vai.

“Observare”


O trio costumeiro - Luís Tomé, Carlos Gaspar e eu -, desta vez sob a moderação de Pedro Belo Moraes, regressou, nesta ”rentrée”, ao “Observare”.

Falámos de vários temas, comigo a abordar a saída de Ângela Merkel e as próximas eleições na Alemanha, as decorrências do regresso ao poder dos Talibãs no Afeganistão, os rumos do Brasil na espécie de “fuga em frente” de Bolsonaro e o regresso de José Eduardo dos Santos a Angola.

Pode ver o programa clicando aqui: 

Sobre o imenso perigo das dicas

                    

"Não fales de coisas boas e baratas para comer! Espalhas as dicas e, depois, enchem aquilo tudo e não há lugares!"

Há dias, alguém me dizia isto, num jantar no "Raposo", perto do Jardim Constantino, um pouso culinário a que, por tempos, me esqueço de ir e que vivamente recomendo. 

Lembrei-me hoje deste recado na "Imperial de Campo de Ourique", também conhecida pela "Tasca do João", um lugar onde, sempre que posso, aos almoços de sábado, vou comer o "bacalhau à minhota" da dona Adelaide.

Pedi uma mesa à porta, com o fresco da rua, e por ali estive, de babete no peito, para evitar pingos de azeite sobre a camisa. 

Um destes dias, irei contar por aqui as histórias de vida do João, um homem de Ponte da Barca que, há muito, fez de Campo de Ourique o seu mundo. Que ali foi feliz (vai ser avô, de novo, em breve), cuidando da felicidade gustativa dos outros.

Deixo-os, por ora, com a fotografia do petisco de hoje e de sempre.

Das Ordens


O Presidente da República e Grão-Mestre das Ordens Honoríficas Portuguesas conferiu posse, em cerimónia realizada no Palácio de Belém, aos vogais dos três Conselhos das Ordens, nomeadamente Conselho das Antigas Ordens Militares, Conselho das Ordens Nacionais e Conselho das Ordens de Mérito Civil.

Ler aqui:

sexta-feira, setembro 17, 2021

Acabou-se o papel


Não se assustem com o título deste texto!

Num dia de 2013, recebi um convite do diretor do “Diário Económico”, António Costa, para escrever uma coluna no seu jornal. Iniciei aí uma interessante atividade regular, a que decidi pôr termo, dois anos mais tarde, por razões pessoais. Já não me recordo se a minha coluna tinha algum nome.

“Transferi-me”, em 2016, para o “Jornal de Negócios”, acolhido pela então diretora, Helena Garrido, órgão onde me tenho mantido, até hoje, com a coluna a que dei o nome pouco original de “Duas ou Três Coisas”, dado ser essa a designação do blogue que escrevia desde 2009.

Entretanto, ainda em 2015, quando dirigia o “Jornal de Notícias”, Afonso Camões tinha-me proposto escrever também uma coluna semanal. Chamei-lhe “Uma Segunda Opinião”. Trezentos e tal artigos depois, já no início deste ano, essa coluna chegou ao fim, como tudo na vida.

Já mais recentemente, em 2018, o semanário “Jornal Económico”, através do seu diretor, Filipe Alves, convidou-me para passar a escrever aí uma coluna, a que chamei “Antes que me esqueça”. E por aí também fiquei, até hoje.

No dia de hoje, publiquei no “Jornal de Negócios” e no “Jornal Económico” dois artigos que tomei a decisão que iriam ser os últimos. 

Porquê esta paragem? José Gomes Ferreira (não, não é esse, é o poeta) dizia que “viver sempre também cansa”; eu acho que escrever sempre também me estava a cansar. A obrigação ritual de ter de preencher, em datas certas, uns milhares de carateres, começou a dar-me menos prazer do que a angústia das “deadlines” me estava a criar. 

Informei disso, hoje mesmo, os diretores dos dois jornais - Diana Ramos no “Negócios” e Filipe Alves no “Económico”. A ambos e às suas equipas, fico imensamente grato pelo acolhimento e, em particular, pela extrema simpatia e elevado profissionalismo com que, em ambas as “casas”, sempre fui tratado. 

Decidi assim fazer uma pausa na escrita, em termos regulares, em papel. Mas, como dizia o outro, “vou andar por aí”, escrevinhando de quando em vez, se me quiserem aturar.

Ah! E, claro, também vou ficando por estas plataformas luminosas em que agora me estão a ler, enquanto me apetecer.

As lições de Cabul


O que se passou em Cabul, com a atabalhoada saída dos americanos e o colapso, praticamente sem resistência, de uma administração local apoiada por umas forças armadas que se presumia já capazes de suster uma guerrilha, maculou seriamente a imagem dos EUA no mundo.

Observar aquela que é, a grande distância, a maior potência mundial, a cair num erro de cálculo daquela dimensão, induz uma inevitável sensação de fragilidade, quase de “naïveté”, que contrasta muito com o retrato que os americanos sempre se dedicaram a projetar de si próprios.

O temor ao poderio das grandes potências foi sempre uma das mais relevantes componentes da dissuasão. Mostrar “pés-de-barro”, sob os holofotes, não é nada prestigiante.

Gostaria, no entanto, de deixar aqui uma nota de prudência. O saldo do Afeganistão para os americanos, sendo indiscutivelmente penoso, tem leituras algo diferentes dentro e fora da América.

Muito em especial depois da aventura iraquiana, a tendência dominante, na opinião pública americana, vai no sentido de favorecer um recuo da afirmação militar do país pelo mundo, em especial no modelo “boots-on-the-ground”.

A eleição de George W. Bush em 2000 já havia sido, aliás, uma resposta àquilo que muitos consideravam ser o excessivo envolvimento externo que, em parte dos seus oito anos, Clinton tinha protagonizado na Casa Branca.

O Iraque era uma espinha encravada na memória da família Bush, mas convem lembrar que o adversário favorito dos “falcões” que acompanhavam o débil presidente - Cheyney, Rumsfeld e os teóricos “neocon” - já era então a China. Foi o 11 de setembro que inverteu conjunturalmente as prioridades.

O recuo desta deriva começa a ser feito por Obama, um presidente que demonstrou uma patética incapacidade para ler os sinais do tempo internacional, deixando a América, pelo mundo, num estado bem pior do que aquele em que a encontrou. É verdade que a emergência de Trump como que veio “absolver” quase tudo, mas há que ser fiel a essa verdade.

Obama, depois Trump e, agora, Biden, ao prosseguirem uma linha de recuo no envolvimento militar, respondem a um sentimento profundo que prepondera na opinião pública americana: “bring our boys back”.

Volto ao que atrás escrevi. O mundo interpretou o que se passou no Afeganistão como uma imensa humilhação para os americanos - com tristeza para os amigos e aliados da América, para quem Washington é um chapéu de proteção e com quem há sempre algum grau de sintonia, mesmo nos piores dias, mas com um “esfregar-de-mãos” de satisfação por parte de quantos, ainda que deste lado do mundo, têm a americanofobia como a sua doença infantil de estimação.

Mas não nos enganemos: mesmo que Biden tenha descido nas sondagens depois do fiasco de Cabul, o sentimento interno americano sobre esse desaire teve um impacto substancialmente menor do que aquele que se projetou pelo mundo. Repito: os americanos, em geral, gostaram de ver os EUA fora do Afeganistão, naturalmente tendo preferido que isso tivesse ocorrido de outra maneira. Mas o essencial, para a opinião pública americana, era que as suas tropas saíssem.

Agora, no quadro das reflexões dos “think tanks” americanos, mais democráticos ou mais republicanos, vamos assistir a exercícios de “lessons learned”, que não deixarão de ter consequências na reformulação da própria doutrina operativa futura das forças armadas e da “intelligence” dos EUA.

As lições de Cabul, contudo, vão ser apreciadas, com grande atenção, em outras geografias, já não num registo analítico frio, mas num quadro de alguma angústia.

Se pensarmos que os EUA têm hoje previstos movimentos de “desengajamento” de tropas, embora parcial e faseada, de vários teatros geopolíticos (Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita), onde a sua presença funciona como um conforto de segurança para aliados, que se consideram sob riscos que não se atenuaram e, em alguns casos, até se agravaram pela leitura receosa que fazem da nova assertividade da China e das tensões com o Irão, teremos de concluir que a quase complacência americana com o regresso dos talibãs vai fazer soar algumas campainha de alarme. Desde logo, muito em especial, em Taiwan.

“A Arte da Guerra”


As eleições legislativas na Alemanha, o surgimento de uma candidatura da esquerda francesa para as as presidenciais do próximo ano e a situação político-militar no norte de Moçambique ocupam o “A Arte da Guerra” desta semana, na conversa habitual com António Freitas de Sousa.

Pode ver aqui: https://fb.watch/84fivWNeTe/

Não foi assim


Em 31 de agosto último, uma cerimónia serena, congratulatória, teve lugar no aeroporto Hamid Karzai. As últimas tropas americanas abandonavam o Afeganistão.

Não obstante alguns focos localizados de insurgência talibã, o governo de Cabul, apoiado pelo seu formidável aparelho militar, de centenas de milhares de homens, equipado, treinado e municiado pelos Estados Unidos, ao longo de uma vintena de anos, conseguiu instaurar segurança numa grande parte do país.

Com todas as suas insuficiências, a democracia foi fazendo o seu caminho na sociedade afegã, as mulheres afirmaram os seus direitos, o ensino passou a abranger, sem limitações, ambos os sexos e até a luta contra a corrupção, um cancro eterno no país, começou a impor-se.

Não foi fácil a vida em Cabul e no resto do Afeganistão, ao longo destes 20 anos. Mas valeu a pena o esforço. A Al Qaeda, que os talibãs protegiam, foi desmantelada por ali, não obstante ter gerado “metástases” noutros locais, em especial fruto do erro na abordagem ao caso iraquiano.

Bin Laden desapareceu de cena e os “splinter groups” têm, apesar de tudo, um potencial de desregulação violenta muito diferente daquele que produziu o 11 de Setembro.

O regime afegão vai respeitando, “tant bien que mal”, a separação de poderes e compromete-se cada vez mais a um esforço acrescido em termos de Direitos Humanos, sob o olhar dos países e instituições doadoras, que observam regras de condicionalidade da ajuda.

Com a promessa de um substancial apoio internacional, que o inigualável peso político americano irá favorecer pela sua influência nas instâncias multilaterais, a economia afegã vai ser estimulada em diversos setores, com a luta contra a exportação ilegal de droga a começar a fazer doutrina na vida do país.

O Paquistão, pressionado fortemente pelos Estados Unidos, irá quebrando o apoio de back-up com que os seus serviços secretos estimulam a insurgência talibã.

A Rússia, recetora de lições antigas, tem vindo a reforçar o apoio ao governo do Tajiquistão, para quebrar circuitos de réditos que as papoilas garantiam à guerrilha. Ainda há muito a fazer, mas está tudo bem encaminhado.

Joe Biden pode dizer finalmente aos americanos que fez regressar “our boys”, tal como a sociedade estado-unidense exigia, deixando ali a prova provada de que, afinal, um trabalho paciente pode levar a um “nation building” eficaz, num modelo democrático, com cada caso a revelar as suas caraterísticas, reeditando exemplos de sucesso como, no longínquo passado, haviam sido o Japão ou a Coreia do Sul, ou mesmo a Alemanha.

A ideia de que, com persistência, a “exportação” da democracia se podia fazer, não era um mito. Os aliados dos Estados Unidos, por seu lado, podem também dizer às suas opiniões públicas que a operação afegã não foi um mero seguidismo a Washington, mas representou um compromisso com uma agenda de projeção da paz, digna dos melhores princípios.

Vistas bem as coisas, o trabalho das operações militares, levadas a cabo à distância, por forças armadas empenhadas em objetivos que a comunidade internacional tinha como finalidades “do bem”, não foi um trabalho em vão. Valeu a pena.

Mas não foi assim.

quinta-feira, setembro 16, 2021

Religião

Há mais de quinze anos, quando conheci pessoalmente o então presidente Lula, ainda antes de lhe apresentar credenciais como novo embaixador português no Brasil, a primeira pergunta que me colocou foi saber qual era o meu clube, em Portugal: “o Benfica ou o Porto?”

Expliquei-lhe que não era nenhum dos dois e estranhou quando lhe respondi que era adepto de “um clube essencialmente católico, porque que só ganha quando Deus quiser”. E acrescentei, para ele perceber melhor: “Um pouco como o seu Corinthians…”

Ontem à noite, lembrei-me bem daquela conversa com Lula.

A síndroma de Corvelo

Foi há umas horas. Tinha acabado de jantar no restaurante da Casa Fernando Pessoa, convidado por um grupo de antigos Auditores de Defesa Nacional, que pretenderam ouvir-me e conversar sobre os equilíbrios geopolíticos contemporâneos. Foi uma agradável ocasião, com gente sabedora e interessada.

Saí pela noite de Campo de Ourique e decidi ir apanhar um táxi no Jardim da Parada. Podia ter regressado a casa a pé, a distância não era muita, mas ainda conservava uma memória, menos confortável, do que, há 48 horas, se tinha passado comigo no Porto. “Lessons learned”, como também se diz em linguagem militar.

Passei junto à esquina da Livraria Ler, olhei lá para dentro e reparei na mesa com livros. Lá estavam quatro exemplares, bem à vista, do meu livro “A Cidade Imaginária”, que a Biblioteca Municipal de Vila Real há dias publicou. Senti, no instante, uma espécie de “déjà vu”, mas não percebi bem o que era. 

Fui caminhando para o táxi e, logo que entrado nele, saiu-me um sorriso que, creio, o motorista, no banco da frente, não terá notado. Eu estava a rir para mim mesmo, quase a rir-me de mim mesmo. De quê? De repente, lembrei-me do “flash” na minha paragem em frente à montra da Ler: era o Artur Corvelo!

Quem é o Artur Corvelo? É a figura central do romance “A Capital”, de Eça de Queiroz, em que há uma cena em que ele vai a uma livraria onde tinha colocado o seu livro de poemas “Esmaltes e Jóias”, folheia um exemplar, decide comprá-lo e pergunta, “com ar distraído”: “Tem-se vendido muito disto?”, para ouvir o empregado, indiferente, a responder: “É o primeiro”. 

O Eça sempre surge nas esquinas da minha memória e da minha vida. Neste caso, justificadamente: esta quinta-feira, 16, antes de um jantar no Grémio Literário, eu e o meu colega Luís Filipe Castro Mendes vamos falar do nosso também antigo colega José Maria Eça de Queiroz, um homem grande na memória daquela casa. Ele tratará do diplomata que Eça de Queiroz foi, eu direi alguma coisa sobre o modo como escritor observa, na sua obra, os diplomatas e a diplomacia. 

O Grémio fica situado numa rua paralela à da Livraria Férin. Depois do jantar, pode bem ser que passe por lá, para olhar a montra. Mas não, o meu livro não foi posto ali à venda. Nem sequer irei encontrar lá o “Esmaltes e Jóias”, uma obra bem conhecida mas que, curiosamente, nunca foi publicada. 

Que mundo! Isto já não é o que era, essa é que é Eça! 

quarta-feira, setembro 15, 2021

A descentralização e a demagogia

A colocação em cidades fora de Lisboa de organismos que foram originalmente criados na capital, onde quem lá trabalha organizou a sua vida e da sua família no pressuposto de que ali era o seu destino de vida, é algo que tem muito de artificial e demagógico. Isso é válido para o Infarmed como o é para o Tribunal Constitucional.

Pense-se nessa possibilidade quando houver novas entidades a criar.

terça-feira, setembro 14, 2021

Pela noite do Porto



Quem conhece bem o Porto deve ficar espantado: sair de um jantar, perto da rotunda da Boavista, bem depois das onze da noite, e ter a insana ideia de ir a pé até um hotel perto da estação de Campanhã é, de facto, “to fish for trouble”. E quase foi, mas lá iremos.

Há dias, um amigo estava a jantar, por aqui, na esplanada do “Wish”, na Foz, e, pelo telefone, para Lisboa, disse-me que estava a aproveitar uma das “cinco noites únicas” que o Porto tem por ano. Há pouco, pareceu-me que só restavam três outras: aquela também era uma noite magnífica, a não perder.

Eu saía de um agradabilíssimo jantar com um velho amigo, depois do bife na frigideira do “Convívio”, ali em frente ao Tuela, que o Alberto, palavra segura da casa, me tinha prometido de uma carne memorável (e era). Deu-me então na ideia ir andando pela avenida da Boavista, em direção ao “Campo”, depois de ter passado a curva do Brasília.

(Alguns “soit-disant” conhecedores do Porto dirão: está enganado! Isso já é Rua da Boavista, dado que a Avenida da Boavista é a artéria que parte da rotunda para o Castelo do Queijo. Pois está equivocado quem assim pensa: a parte mais larga, em frente ao antigo hospital militar, ainda (ou já) é Avenida da Boavista. Aprendam, porque eu não duro sempre!)

Fui então andando até à esquina do Café Diu (ainda terá, lá dentro, como acontecia no Estrela d’Ouro, na Rua da Fábrica, o marco do correio embutido na parede? Não deu para ver). Virei para Cedofeita, ainda andei por ali à procura da antiga Adega da Figueiroa, mas já não encontrei qualquer referência. (Era notável a voz anasalada do dono da tasca, óculos de fundo de garrafa, a clamar, regularmente: “Chamam ao telefone o doutor Camelo!” E lá se aproximava do telefone no balcão um cavalheiro que nunca tirei a limpo se era familiar de um pouso e mesa homónimos e bem estimáveis em Seia).

Olhei depois a subida da Álvares Cabral, onde tanto namorei, e, para o fundo, com a igreja de Cedofeita à vista, a descida da Sacadura Cabral (outro erro de alguns portuenses: a parte de baixo da rua, até Aníbal Cunha, tem outro nome). 

Iria mesmo até ao hotel, a pé? Se e quando me apetecesse, chamava um Uber (já tinha apanhado dois, nesse dia que acabava, sempre conduzidos por mulheres!) Até ver, ia andando.

Cedofeita, essa, estava quase deserta. O alfarrabista desapareceu, o espaço do Café Bissau está irreconhecível. Ninguém andava na “minha” Torrinha, idem nos Bragas, o mesmo no Breyner e na “minha” Miguel Bombarda (digo “minhas” porque vivi nas duas). Admirável era ver que passavam mulheres jovens, sozinhas, àquela hora. 

Carlos Alberto mantinha grande animação e soava um “restolho” saudável dos lados do Piolho. Passei pela porta do Progresso, de onde parece que já saiu o nome. Meti por Sá de Noronha e desci os Clérigos até à Praça, observando, no caminho, a Galeria de Paris já cheia de gente. A vibrante noite do Porto está a regressar, e ainda bem! Maldita pandemia!

Deu-me coragem para subir a Rua 31 de Janeiro (intimamente, sempre lhe chamei Santo António, embora sabendo que foi a ditadura que a crismou com o nome do santo lisboeta, tentando apagar a memória dos heróis de 1891). O declive não ajudava, mas o meu “novo” joelho sim! Irreconhecível, por ali, está a antiga Bertrand. Intocado, felizmente, o belíssimo edifício da Caixa Geral de Depósitos. Mas já não consegui descortinar o Morgado (a cuja porta passei horas, à espera de compras de moda feminina) e o Mercado Filatélico (quando isso me interessava imenso).

(Uma nota, para que não restem equívocos: que não se presuma por aqui a menor nostalgia! O Porto está muito diferente do que o conheci, mas para bem melhor! Era uma cidade cinzenta, fechada, paroquial. Hoje é uma urbe viva, cosmopolita, com muito mais graça. Recordar o passado é apenas uma forma de sublinhar o que a cidade mudou, para diferente, felizmente).

Na Batalha, olhei, como sempre me não canso, a belíssima igreja de Santo Ildefonso, bem iluminada. Segui pela rua com o mesmo nome até aos Poveiros, pelas traseiras do clássico Café Santiago, até à zona onde ficava o Transmontano (onde, em tempos, acabei muitas noites, mas cujo edifício já não identifiquei). Passei depois a São Lázaro (onde foi um “clássico” geracional observar a saída das “pequenas” do Esperança) e segui pela Rodrigues de Freitas até ao início da Rua do Heroísmo, onde fica o Museu Militar e consta que vai haver um Museu da Resistência (espero bem que ainda antes do museu ao ditadorzeco de Santa Comba).

Logo no dia em que a máscara deixou de ser obrigatória, achei estranho encontrar com ela, uma de cada lado da rua, duas figuras, cosidas com as paredes, prestando-me “guarda de honra”, no início do Heroísmo. O meu hotel estava a 100 metros, mas esses iam ser, afinal, os 100 metros essenciais do meu percurso…

Displicente e propositadamente, parei e dei-me ao luxo de fotografar, com calma, o Museu Militar, ouvindo então de um deles: “Não se pode fotografar isso, é militar!” 

Avancei, com assumida “autoridade”, respondendo, sem os olhar: “Eu posso! Sou inspetor da Judiciária!” E fui andando, rua adiante, sem trânsito, sempre pelo meio da via. No instante (obrigado, Francisco José Viegas) tinha-me valido a memória de saber que, muito perto dali, na Rua do Barão de Nova Sintra, “vivia” Jaime Ramos, o “inspetor da Judite”, dos policiais da Invicta. Meu “colega”, está bem de ver! Isso fez-me ganhar uns preciosos segundos. O hotel estava já quase ali, mas eu sabia que ainda ia ser necessário tocar à campainha e esperar. Um pouco adiante, havia uma esquadra da PSP, mas podia estar “fechada”, sei lá! Um dos figurões, pelo passeio, ia-me acompanhando, mandando umas bocas. Parei, enfrentei-o e, a alguma distância, fotografei-o com o iPhone e disse, alto: “O 112 já vem aí”. O tipo estacou, ter-se-á assustado e, num tom apressado, caminhou de volta para o início da rua. Aproveitei para entrar no hotel, onde vim beber uma cerveja, no final da qual estou a relatar-lhes isto.

Boa noite! 

segunda-feira, setembro 13, 2021

Protocolo


Parece fácil, mas não é. Quase quatro décadas de vida diplomática ensinaram-me a “ler” melhor estas coisas. Montar, coordenar e dirigir, durante vários dias, a cerimónia das exéquias de uma figura de Estado é um trabalho que exige extrema sensibilidade, rigor e muito bom senso. Se alguma coisa tivesse falhado, se houvesse algum incidente ou um percalço inesperado, teria sido um “aqui d’el-rei”. Como tudo se passou exemplarmente, não é “notícia”.

O modo como o Protocolo de Estado, sedeado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, sempre se tem comportado nestas ocasiões, que só por equívoco se pode pensar serem iguais umas às outras, quanto mais não seja pelo modo diferenciado como as famílias da pessoa a homenagear legitimamente pretendem influenciar a “liturgia” dos atos, é um atestado de imenso profissionalismo.

Quero deixar aqui, publicamente, uma palavra de grande respeito e gratidão, como português, à embaixadora Clara Nunes dos Santos, chefe do Protocolo de Estado, e a toda a sua equipa.

Silêncio!



Por que diabo temos de ouvir conversas das outras pessoas no comboio? Será que ninguém diz a esta gente que é uma falta de respeito pelos outros estar a incomodar quem trabalha ou quer descansar? Em países com consciência coletiva mais cívica chega a ser obrigatório desligar os aparelhos. Por cá, é o que se vê!

Começa a semana

 


Não vão ser tantos...

... os que hoje levo para a praia, mas não anda muito longe disto.