Há já uma boa década, entrei numa câmara municipal, algures no país, para assistir à homenagem a um amigo. Estranhei ver o presidente do município, de fato escuro, calçado com sapatilhas brancas — de ténis, como agora se diz. Admiti, na altura, tratar-se de um episódico deslize de gosto. Registei o detalhe e segui adiante, com a indulgência que se reserva às excentricidades locais.
Com o tempo, vim a perceber que o equívoco era meu. Eu é que estava desfasado da nova ortodoxia: as sapatilhas brancas, além do "upgrading" vocabular para ténis, tinham ascendido, sem aviso prévio, à respeitabilidade protocolar. Um melhor conhecedor dessas matérias confirmou-mo, com uma resignação mal disfarçada: não só eram admissíveis, como algumas ostentavam marcas de luxo, com preços capazes de ombrear com os meus prezados Church’s — e até de humilhar os meus honestos Sebago.
A realidade encarregou-se de dissipar as minhas últimas dúvidas: na recente cimeira da NATO, um chefe de Estado apresentou-se de sapatilhas brancas e, ainda ontem, na tribuna e nos rituais protocolares do Mundial de futebol, o inenarrável presidente da FIFA exibia o mesmo zelo estilístico. A informalidade tornou-se, pelos vistos, a nova farda da distinção.
O tempo passa por nós e, sem cerimónia, deixa-nos para trás. No meu caso, sem apelo. Usei sapatilhas brancas no liceu, nas aulas de ginástica do dr. Viana ou do professor Carvalhais. Eram, creio, Sanjo — herdeiras dignas da indústria de São João da Madeira. Em Vila Real, compravam-se na sapataria do Julinho ou do senhor Carlos. Quando a brancura cedia ao uso, restauravam-se com alvaiade (palavra que ressuscito após mais de seis décadas), devolvendo-lhes uma respeitabilidade tão artificial quanto eficaz.
Agora, um aviso à navegação. Se alguma vez me virem numa cerimónia com sapatilhas brancas, não se precipitem a concluir que me adaptei aos tempos: assumam, com a franqueza que a situação exige, que ensandeci e que ninguém, até ao momento, teve a caridade de me tirar da circulação.

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