sábado, julho 11, 2026

O autocarro soviético


Éramos cerca de trinta pessoas numa excursão à União Soviética, em julho de 1981, ida da Noruega. Tirando nós os dois, todos os restantes participantes eram noruegueses.

A maioria eram casais reformados, gente de província, com um aspeto rural. Percebia-se, sem esforço, uma certa simpatia pela União Soviética — memória ainda viva do papel do Exército Vermelho na libertação do norte da Noruega.

Nós estávamos ali por razões mais prosaicas: curiosidade e preço. Duas semanas entre Leninegrado, Moscovo e alguns dias de praia em Ialta por uma verba quase inacreditável. Só mais tarde soubemos que a agência organizadora tinha ligações ao pequeno Partido Comunista Norueguês. Já pouco importava.

Além de nós, da guia e de um discreto funcionário público de Oslo, ninguém falava outra língua que não fosse norueguês. Do nosso lado, o vocabulário norueguês resumia-se a meia dúzia de palavras.

Durante dias, quase sempre juntos com a guia e com o norueguês que se exprimia em inglês, limitámo-nos a sorrisos e cumprimentos aos restantes viajantes. O facto de sermos portugueses — e de eu exercer funções diplomáticas — parecia criar com eles uma distância respeitosa, difícil de vencer.

Saídos de Leninegrado, voámos para Simferopol, na Crimeia. Dali seguiríamos de autocarro para Ialta, por uma estrada de montanha. O voo atrasou-se. Quando partimos, já era noite cerrada. O autocarro era velho, com um roncar metálico pouco tranquilizador. Subia devagar, em esforço. Ao fim de meia hora, parou. O motor calou-se. Ficou apenas o silêncio da estrada escura.

Sem trânsito, sem luz, muito antes dos telemóveis, a situação não prometia.

A guia trocou algumas palavras com o motorista e voltou com a solução: era preciso empurrar o autocarro. Todos os homens teriam de ajudar. Sendo, de longe, o mais novo do grupo, fui dos primeiros a sair. O ar era fresco, com cheiro a óleo e a metal quente. Encostei as mãos à traseira do veículo. Ao meu lado, alinharam-se os outros. À primeira tentativa, nada. À segunda, apenas um rangido. À terceira, o motor pegou, numa explosão de fumo e ruído, arrancando um suspiro coletivo de alívio.

Quando regressámos aos lugares, algo tinha mudado. Talvez tenha sido o ridículo da cena — uma dúzia e meia de homens, que supostamente deviam estar numas férias descansadas, a empurrar um autocarro soviético no meio da noite — que desfez, de repente, o gelo de dias. 

O certo é que, dali até Ialta, o ambiente se transformou. Os noruegueses começaram a cantar canções populares. Nós acompanhávamos como podíamos, imitando sons, mimando refrões, provocando gargalhadas. A barreira desaparecera.

Nos dias seguintes, a convivência tornou-se fácil, quase natural. Em Ialta, num jantar animado, um dos noruegueses ergueu um brinde “à noite do autocarro”, entre risos e copos de vodka. Entendíamo-nos mais por gestos do que por palavras — e isso bastava.

Quando regressámos a Oslo, despedimo-nos com abraços e beijos, como velhos conhecidos. Nunca mais voltámos a ver nenhum deles.

Mantivemos apenas contacto com a guia e com o discreto funcionário público que falava algum inglês. Algum tempo depois, num jantar em nossa casa, confessou-nos que era membro dos serviços de informação noruegueses e que integrara a excursão nessa qualidade, observando discretamente o grupo durante toda a viagem. Nesse tempo de Guerra Fria, o espião norueguês fora o nosso mais próximo companheiro de viagem.

Passaram entretanto quarenta e cinco anos. A União Soviética desapareceu. A Crimeia tornou-se território disputado e voltou ao centro da guerra.

Hoje, quando oiço falar ou falo da Crimeia, além de mapas e conflitos, vem-me muitas vezes à memória um decrépito autocarro soviético, parado no escuro numa estrada de montanha, e um grupo improvável de noruegueses e dois portugueses que, depois de o empurrarem juntos, deixaram de ser estranhos entre si.

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