Vivi no Brasil e conheço os brasileiros suficientemente para entender que a sua eliminação, logo nesta fase do Mundial de futebol nos Estados Unidos, constitui um imenso desapontamento, se bem que as dúvidas sobre a real força deste grupo já tivessem surgido há muito na imprensa. O futebol é muito importante para o imaginário brasileiro, é a “pátria em chuteiras”, como escreveu Nelson Rodrigues. Mais do que os clubes, a seleção — o “escrete” — tem um significado profundo numa brasilidade partilhada com fervor por quase todos. O Brasil tem uma história gloriosa no futebol mundial, e o presente contrasta, com frequente nostalgia, com esses dias gloriosos. O país provou, contudo, ser possuidor de um arsenal histórico de esperança, mesmo quando as razões para essa esperança foram ténues. Por isso, embora desiludido e em lágrimas, o Brasil vai reinventar-se. Não seria o Brasil se assim não fosse.
Vivi na Noruega e julgo conhecer suficientemente os noruegueses para poder dizer que esta vitória sobre o Brasil — a Noruega não ganhou o Mundial, mas o Brasil perdeu-o — é uma alegria extraordinária e quase inesperada. Ainda assim, essa alegria não se compara, do “outro lado” do espelho, à intensidade da derrota brasileira. Os noruegueses estão felizes por esta saborosa vitória, mas, se, por acaso, tivessem perdido, não se atirariam do alto dos fiordes. O futebol é, na Noruega, um desporto popular, mas apenas uma das componentes em que se espelha o orgulho de ser norueguês. Perder com o Brasil não seria “morte de homem”, como se diria entre nós. Ganhar vai ser um ótimo pretexto para celebrar com cerveja, aquavit e boa disposição.
Em tempo: É em dias como este que, através das redes sociais, vamos ter uma excelente oportunidade de medir o estado da xenofobia anti-brasileira atualmente instalada em Portugal.


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