Há minutos, ao ler a biografia de Pamela Harriman — agora publicada em Portugal — deparei-me com um episódio delicioso.
Num jantar em casa de Averell Harriman, milionário e político americano, as senhoras foram convidadas, no final da refeição, a separar-se dos maridos e a passar para outra sala, deixando os homens entregues à conversa. A mulher de Ben Bradlee, diretor do Washington Post e também ela jornalista, recusou-se terminantemente a alinhar no ritual: interessava-lhe muito mais acompanhar a conversa dos homens do que participar numa tertúlia feminina. Harriman insistiu, praticamente expulsando-a da sala, e ela chegou a ameaçar abandonar a casa. O livro não esclarece como terminou o incidente.
O episódio trouxe-me de imediato à memória uma cena que vivi — creio que em 1981 — na embaixada de Portugal na Noruega.
Tratava-se de uma pequena missão diplomática, com apenas dois diplomatas: o embaixador e eu. Numa noite, Cabrita Matias — assim se chamava o chefe da missão — organizou um jantar na residência oficial de Portugal, na Drammensveien, em Oslo. O traje era de smoking para os cavalheiros e vestido comprido para as senhoras. Seríamos vinte e poucas pessoas. Eu e a minha mulher estávamos entre os convidados.
Cabrita Matias era um embaixador da velha escola. Cultivava escrupulosamente os rituais do protocolo e tinha escassa tolerância para modernices. Numa sociedade já então aberta e igualitária como era a norueguesa — sem aristocracia nem grande apreço por formalismos excessivos — imagino que muitos dos convidados locais, misturados com os chers collègues do corpo diplomático, assistissem àqueles rituais como a um curioso espetáculo. Ainda assim, suspeito que com algum prazer por participarem numa coreografia elegante.
O jantar destinava-se a retribuir, com genuína cortesia, a hospitalidade com que várias personalidades norueguesas tinham acolhido o novo embaixador, desde a sua chegada ao país no ano anterior.
Tudo decorrera na perfeição. Cabrita Matias era um excelente anfitrião. O ambiente era descontraído e animado. Já fora servida a primeira ronda de cafés.
Foi então que o embaixador, apoiado em práticas adquiridas em países anglo-saxónicos, deu início a um pretendido ritual:
— Minhas senhoras, convido-as a passarem ao living. And the powder room is over there — acrescentou, indicando o caminho que conduzia à casa de banho de visitas.
Inveterado solteiro, Cabrita Matias tivera o cuidado de equipar o espaço com escovas, perfumes e outros pequenos apetrechos que imaginava úteis para que as senhoras pudessem retocar a aparência após o jantar, enquanto aguardariam que os cavalheiros terminassem a sua conversa.
Antes da refeição, o embaixador pedira à minha mulher que, chegado esse momento, se levantasse e conduzisse as restantes senhoras para fora da sala.
Só que a realidade se impôs ao desejo do dono da casa: ouvido o "convite" do embaixador, a maioria das convidadas deixou de imediato claro que não tinha a menor intenção de abandonar os respetivos companheiros, todos envolvidos numa conversa animada. Algumas ainda fizeram menção de se levantar — mais por delicadeza do que por convicção —, mas acabaram por permanecer sentadas.
Uma delas respondeu de forma absolutamente desarmante:
— Nem pensar. Eu fico por aqui. E, se o senhor embaixador não se importa, vou mesmo beber um cognac.
Outra comentou que, pensando melhor, lhe apetecia um charuto, cuja caixa o Domingos já circulava à volta da mesa, acompanhado de um bom scotch. Uma terceira, que vivera alguns anos em Portugal, pediu um cálice de vinho do Porto.
A sala inteira sorriu. E ali ficou.
Naquele instante, Cabrita Matias talvez tivesse percebido que entrara num mundo diferente — e, sobretudo, num tempo diferente, em que homens e mulheres já se relacionavam socialmente de forma muito mais igualitária.
Tenho a impressão de que esse foi o último jantar, naquela residência de Oslo, em que as senhoras foram convidadas, no final da refeição, a retirar-se sozinhas para o living, passando pelo powder room, claro.

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