domingo, julho 19, 2026

O lado certo da droga


Há horas, passou na televisão "The Living Daylights", um Bond — dos dois feitos por Timothy Dalton — com cenas passadas numa base soviética no Afeganistão, ao tempo ocupado por Moscovo. 

Na história, os "mujaedins" surgem a traficar ópio com alguns militares ocupantes. Como o filme foi feito em plena Guerra Fria, os rebeldes aparecem como os "bons", porque estavam então do "lado certo" para o ocidente. 

O realismo estratégico tem, aliás, no Afeganistão um dos seus palcos mais cínicos: os aliados libertadores de ontem transformam-se facilmente nos terroristas de hoje, consoante as conveniências do momento. Ou vice-versa, como está agora a acontecer na Síria. 

Depois de ver o filme (fracote, há que dizer), lembrei-me de ir à procura de uma fotografia tirada há 22 anos. E encontrei-a. 

Foi tirada em 2004 na base militar russa de Kharbmaidon, no Tajiquistão, junto à fronteira com o Afeganistão. O senhor cujo retrato se vê encaixilhado sobre as nossas cabeças é mesmo quem estão a pensar, e já então ocupava o Kremlin.

Na imagem estão os três colegas embaixadores junto da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) com quem fui desde Viena, numa viagem de trabalho às cinco repúblicas da Ásia Central: ao meu lado, a canadiana Evelyn Puxley, o esloveno Janez Lenarčič, a norueguesa Mette Kongshem e, do lado de cá da mesa, o belga Bertrand de Crombrugghe. 

À época, uma das principais missões da base russa seria procurar travar o tradicional tráfico de ópio com origem no Afeganistão — uma das fontes de riqueza mais importantes, em diversos ciclos políticos. Para o Tajiquistão, essa presença militar russa ajudava a credibilizar o empenhamento do país na luta contra as acusações da sua cumplicidade com os circuitos internacionais da droga.

A nossa missão à Ásia Central era centrada nas questões dos Direitos Humanos, da liberdade dos media e no reforço da ordem democrática. Meses depois, como saldo dessa visita, publiquei na revista da OSCE um artigo que não terá agradado muito a alguns dos países que visitámos — "Central Asia: Not always a Silk Road to Democracy. The View Beyond the Hofburg".

Como o tráfico de droga não fazia parte da nossa agenda de trabalho nessa viagem, já não recordo bem a razão que justificou essa visita à instalação militar russa. 

Durante a conversa com o respetivo comandante, ele referiu ter poucos meses na tarefa e, ao que depois percebemos, os seus antecessores também não tinham estado muito tempo no posto. 

Na viagem de regresso, o delegado da OSCE no Tajiquistão deu uma possível justificação para essa grande rotatividade. Aparentemente, a generalidade dos militares russos enviados para a base eram facilmente seduzidos pelo tráfico de droga que lhe competia combater. A hierarquia russa optava assim por substutuí-los com maior frequência. 

Lembro-me de ter comentado, provocando umas boas gargalhadas no nosso simpático grupo: "Temos de ver as coisas pela positiva: não será por uma mera questão de equidade, para também dar oportunidade a outros?"

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