Há poucos anos, numa deslocação profissional a Luanda, entrei no Hotel Trópico, uma das unidades hoteleiras mais históricas da cidade. Avancei por ali dentro com ar decidido, de quem segue rumo certo e não admite perguntas — assim evitava que porteiros ou fâmulos fardados se atrevessem a indagar por que diabo eu andava a deambular por aqueles corredores. E era exactamente isso: queria espiolhar todos os espaços acessíveis, das zonas comuns às salas de refeições e ao bar. Porquê? Porque me apeteceu ir à procura da memória.
Em junho de 1982, o Ministério dos Negócios Estrangeiros decidira proporcionar-me uma experiência radical: de uma Oslo ultra-pacífica, onde me tinham colocado sem me perguntarem nada, veio a guia de marcha também imperativa — quatro anos, para uma Luanda em plena guerra civil. Era uma cidade sitiada, sem restaurantes nem comércio, com serviços de saúde de meter medo e lixo por todo o lado. E hotéis quase todos decrépitos. Com uma vantagem, é certo: uma bela praia ao fim de semana. A vida de diplomata é isto mesmo. E tempos melhores haveriam de vir.
Como a minha bagagem só chegaria meses depois, por via marítima, a embaixada hospedara-me no Hotel Trópico, sem me dar outra opção — que, em boa verdade, não havia. Por ali fiquei quatro meses. Poupo-os à descrição da precariedade do conforto, das refeições medíocres, da limpeza descuidada, dos elevadores em avaria frequente. Nesse tempo, o Trópico era povoado por um bando heteróclito e cíclico de expatriados que, depois de negócios ou afazeres de várias naturezas, numa cidade com bem poucos lugares para entreter os ócios nocturnos, se espojavam, após o jantar, pelos escassos espaços que o hotel oferecia.
Por essa altura, viviam-se os dias do Mundial. A Televisão Popular de Angola retransmitia alguns jogos. Numa das salas do Trópico, com cadeiras em número bem inferior ao dos potenciais interessados, uma multidão de desportistas de bancada juntava-se diante de um pequeno aparelho vermelho de baquelite, de imagem naturalmente a preto e branco e granulado, como se a emissão viesse de Marte.
Nesses primeiros dias, com muito poucos conhecimentos em Luanda, eu vivia entre o Trópico e o meu gabinete na embaixada, não muito distante. Trabalhava, lia, escrevia, ouvia a BBC World Service no meu Sony “9 waves” e ansiava pela montanha de jornais e revistas que me chegava, semanalmente, pela mala diplomática. À noite, com os conhecidos que ia fazendo no hotel, assistir ao Mundial era a ocupação possível.
Regresso ao início deste texto. Aquela minha arrogante incursão pelo novo Trópico, há poucos anos, acabaria por não ter grande efeito. O hotel sofrera amplas obras e, como dizia Amália a propósito da casa da Mariquinhas, por ali “não vi nada, nada, nada” que me fizesse recordar o espaço daqueles tempos — já lá vão 44 anos! Mas, pensando bem, só por nostalgia masoquista é que eu poderia ter desejado revisitar aqueloutro Trópico. Que o Mundial que aí anda me recordou.

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