Ouvi então o meu pai pedir "água de Melgaço". E acordei para o facto dessa bebida ser o parente pobre do triângulo que dava o nome à empresa: "Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas".
Estávamos habituados a pedir Pedras ou Vidago, mas nunca tinha bebido água de Melgaço! Provei-a. Gostei. Hoje, confesso, seria incapaz de a distinguir das outras águas gasocarbónicas — o meu paladar nunca ascendeu a esse grau de refinamento hidrogeológico —, mas na altura pareceu-me excelente, talvez por efeito do contexto, ou do entusiasmo da descoberta.
Tendo a minha mãe nascido nas Pedras Salgadas, onde a água gasosa era qualificada como a "água da companhia", a que os habitantes, em outros tempos, tinham direito de fornecimento domiciliário sem custos, em nossa casa só entrava "água das Pedras". Fiquei um fã eterno de Pedras.
Ainda assim, a experiência de Melgaço deixou-me curioso. De regresso a Lisboa, telefonei para a empresa a perguntar como poderia adquirir Água de Melgaço. Do outro lado da linha, instalou-se um silêncio que não augurava grande procura. Após alguma insistência, lá aceitaram vender-me duas grades.
Fiquei à espera.
Dias depois, ao sair de casa, deparei com uma camioneta da VMPS estacionada na rua, naquele inconfundível verde e branco que anunciava águas com história. Um empregado consultava uma papelada com ar ligeiramente perplexo. Tive um pressentimento.
— Veio fazer alguma entrega?
— Tenho aqui um nome, mas o número da porta deve estar errado. Nunca aqui vim. Venho entregar uma água que ninguém pede…
Era para mim.
Lá estavam as duas grades de pequenas garrafas de Água de Melgaço. As tampas — as caricas, como se diz em lisboês — já apresentavam alguma ferrugem, e o gás, esse, tinha desertado há muito. Mas pouco importava. Aquilo já não era água: era uma prova material de obstinação.
Dizem-me que, desde então, a Água de Melgaço tem tido um destino comercial mais glorioso.

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