Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, secretário de Estado dos Assuntos Europeus, alto representante da União Europeia para a Bósnia-Herzegovina, deputado europeu. Chefiou o grupo que viria a ficar conhecido pelo seu nome — o “grupo Westendorp” —, criado em 1995 para preparar propostas de alteração ao Tratado de Maastricht. Foi também embaixador de Espanha em Washington e junto das instituições europeias. Uma carreira cheia e prestigiada.
Conheci-o precisamente nesta última função, quando chefiava a representação permanente espanhola em Bruxelas. Mais tarde, voltámos a trabalhar lado a lado no “grupo Westendorp” e coincidimos, por algum tempo, como secretários de Estado. Dessa proximidade repetida nasceu uma excelente relação pessoal.
É desse período em Bruxelas que data o episódio que aqui deixo registado — não tanto pela sua importância diplomática, que não foi nenhuma, mas pelo que ele revela sobre a fragilidade da compostura humana perante um imbróglio de línguas.
Estávamos reunidos no Luxemburgo, no final de outubro de 1989, num Conselho de Ministros dedicado à Cooperação para o Desenvolvimento.
O dia fora longo e estava a prolongar-se pela madrugada dentro — essas horas que Bruxelas reserva para as decisões que o cansaço, mais do que a convicção, acaba por ditar. Discutia-se um pacote de concessões agrícolas a favor de países terceiros menos desenvolvidos. Era uma matéria sensível como poucas, porque o peso do lóbi agrícola em vários Estados-membros estreita drasticamente a margem de manobra dos governos. Ora é precisamente nesse setor que a abertura do mercado europeu mais interessa aos países beneficiários. O que estava em causa, no caso concreto, era aquilo a que em Portugal chamamos produtos hortícolas.
A Espanha era o Estado-membro com mais reservas quanto aos termos propostos pela Comissão. Para eles, o momento não podia ser pior: com eleições gerais marcadas para três dias depois, o governo de Madrid temia que qualquer cedência agrícola fosse lida pela oposição interna como configurando uma atitude de fraqueza. Por isso nenhum membro do governo se deslocara a Bruxelas — prudência política que, em termos práticos, deixava Carlos Westendorp, simples embaixador, a ter de segurar sozinho uma posição que nenhum político queria subscrever com o próprio nome.
O embaixador estava, literalmente, de mãos atadas. Por um lado, todos os restantes onze Estados já tinham dado luz verde ao pacote, o que aumentava a pressão sobre Madrid. Por outro, associar-se ao consenso naquele preciso momento equivaleria, para a delegação espanhola, a um imenso desastre. E Westendorp não tinha mandato para cometer esse suicídio diplomático.
A reunião decorria sob presidência francesa. Roland Dumas, ministro dos Negócios Estrangeiros e advogado de formação, empregou toda a sua arte oratória para colocar os espanhóis perante a responsabilidade de bloquearem sozinhos uma decisão ansiosamente esperada pelos países beneficiários, sublinhando o dano que esse isolamento causaria à imagem de Espanha.
Portugal tinha acompanhado a posição espanhola até onde tinha sido possível. Porém, a certa altura, a Comissão aceitou — após contactos bilaterais — retirar da lista alguns dos produtos que mais nos preocupavam, pelo que a importância do acordo para o conjunto das nossas relações africanas acabou por esvaziar-nos os argumentos para continuar a resistir. A meio da tarde pediram-me que explicasse a evolução da nossa posição aos espanhóis. Recordo-me de que a compreenderam — o que, convenhamos, não lhes tornou a solidão menos incómoda.
A Espanha ficou, assim, isolada por completo. Dumas fez um último apelo à sua flexibilidade e cedeu a palavra a Westendorp. Instalou-se na sala um silêncio quase teatral. Onze das doze delegações — eram ainda os tempos da Europa “a doze” — aguardavam, com a paciência de quem só quer regressar ao hotel, uma cedência de última hora.
Westendorp falava em espanhol, como as regras do Conselho aconselham. Para a delegação portuguesa, dispensava-se qualquer auricular: entendíamos tudo, e foi essa proximidade da língua que nos haveria de trair.
A Espanha não cedeu, como seria de esperar. Pelo contrário: invocou, com a gravidade de quem discursa perante a pequena História, a posição difícil do seu governo. E disse, mais ou menos, isto: “Les pido que entiendan que, para España, la cuestión de las hortalizas reviste una importancia estratégica. Puede decirse que es una cuestión de Estado.”
Fez então uma pausa — calculada, suponho, para deixar a interpretação simultânea da declaração alcançar as restantes delegações. Foi precisamente nesse silêncio solene, que a bancada portuguesa desatou, em bloco e sem aviso prévio, num coro surdo de riso e de gargalhadas pouco contidas. Juntaram-se-lhe de imediato meia dúzia de funcionários lusófonos da Comissão e do Secretariado-Geral do Conselho. A sala inteira voltou-se então para nós, incrédula: onze delegações a testemunhar o espetáculo insólito de uma delegação desfeita em riso perante uma alegada “questão de Estado”.
O problema é que não havia forma de explicar aquela nossa reação a ninguém. Para ouvidos portugueses, “hortalizas” — mero equivalente espanhol para “produtos hortícolas” — casada com a solenidade de “questão de Estado” produzia um efeito cómico instantâneo e absolutamente incontrolável, que se agravava exatamente na proporção em que se tentava contê-lo. Pior: o nosso descontrolo estava a ser lido como troça deliberada perante a posição espanhola — a começar pelos próprios espanhóis, que nos fuzilavam com olhares carregados de indignação ibérica. As restantes delegações, para quem a expressão traduzida não continha absolutamente nenhuma graça, olhavam-nos como se tivéssemos enlouquecido em conjunto. Recompusemo-nos com muito esforço.
Aquelas hortaliças, promovidas sem aviso a questão de Estado, ficaram para sempre gravadas na memória divertida de quantos, naquela noite no Luxemburgo, integravam a delegação portuguesa.

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