sábado, julho 18, 2026

Guerra Civil


Cresci a ouvir falar dos horrores da Guerra Civil de Espanha. O meu pai, que detestava Franco, também não nutria grande simpatia pelo comportamento dos “rojos” e dos anarquistas — ainda que o lado derrotado lhe fosse mais próximo do coração, nem que fosse por ser o alvo predileto da diabolização feita pela ditadura portuguesa. 

Mas o que ficava, das conversas que recordo com o meu avô e os meus tios, era sobretudo o reconhecimento de uma barbárie repartida por ambos os lados: dos pogroms anticlericais promovidos pela esquerda aos fuzilamentos em massa perpetrados pelos fascistas, sobretudo depois de a guerra ter terminado. Tudo parecia nascer do mesmo fundo, do temperamento radical do povo vizinho. “Por isso é que eles matam os touros na praça”, concluía-se, como se essa fosse a explicação natural para tudo o resto.

A Espanha soube entretanto fazer uma notável transição, do fascismo franquista para a democracia de hoje, sob a tensão permanente do separatismo, tendo sabido ultrapassar os anos do terrorismo. Tem hoje uma economia florescente e um lugar de destaque à escala europeia e mundial.

Passam agora 90 anos desde o início da Guerra Civil espanhola. Por cá, há quem continue a ler a vida política em Espanha como se as “duas Espanhas” nunca tivessem desaparecido e, nos dias de hoje, continuassem polarizadas, em confronto permanente. Acho que nada disto é verdade, mas admito poder estar enganado. Se assim for, se essas duas Espanhas, afinal, ainda existirem, sei bem de que lado estou.

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