O convite para aquele jantar fora aceite com gosto. O casal brasileiro que nos ia receber — que tínhamos conhecido num cocktail, semanas antes — revelara-se muito simpático. Ele era magistrado.
Estávamos há pouco tempo em Brasília, nesse ano de 2005. Os embaixadores de Portugal, na capital brasileira, são figuras bastante requisitadas pelo “social” local, sendo mesmo importante fazer uma triagem dos imensos convites — sem o que arriscam tornar-se “arroz de festa”, expressão brasileira que qualifica quem aparece com demasiada regularidade nesse tipo de eventos.
E assim, ataviados com aquele “esporte fino” que, nos homens, dá saída regular aos blazers azul-escuro de botões dourados, lá avançámos para a festa.
Em Brasília, as ruas, por regra, não têm nomes. A geografia da cidade é feita quase exclusivamente de letras e números. Na zona do Lago Sul, onde se situam as melhores residências, existe uma espécie de pequenos bairros numerados, as “quadras”, contadas numericamente a partir da zona do aeroporto. Essas “quadras” subdividem-se, por sua vez, em ruas também numeradas — os “conjuntos” —, onde se situam as "casas", igualmente identificadas por um número. E se se disser que as quadras podem ser “internas” ou “do lago” — QI ou QL —, já se percebe a confusão que isto pode causar a um não iniciado. Contudo, uma vez captada a lógica, tudo se torna curiosamente bastante mais simples do que em qualquer outra cidade.
O cartão do convite não permitia enganos: “QI tal, conjunto tal, casa tal.” E não era longe de nossa casa. Nessas áreas residenciais de Brasília, o estacionamento costuma ser fácil. Chegados à quadra, constatámos que o conjunto 9 era o último. Restava apenas procurar a casa — e não foi preciso pesquisar muito: as tradicionais lamparinas marcavam a entrada para a festa. O nosso colega italiano e a mulher estavam precisamente a estacionar ali perto. Esperámos pela Elena e pelo Michele e entrámos os quatro juntos.
Era uma bela residência, com empregados vestidos a rigor, que nos ofereceram uma taça de champanhe à entrada.
— Onde estarão os donos da casa?, perguntou minha mulher, desejosa de entregar a tradicional caixa de chocolates para a anfitriã.
— Estão ali, junto à piscina — respondeu o Michele, com olho de lince.
E lá fomos nós, pelo meio de outros convidados, nos quais saudámos algumas caras já conhecidas desses nossos primeiros tempos em Brasília.
Um casal, com ar de quem estava bem à-vontade na casa, aproximou-se, sorridente.
— Sejam muito bem-vindos — disse a senhora.
Fiquei perplexo, mas tive a reação formal.
— Boa noite. Sou "fulano", embaixador de Portugal.
Pela minha cara deve ter passado uma súbita perturbação, que se agravou, ao ouvir:
— Ah, não estávamos à espera, mas são muito bem-vindos - disse aquela que era, de facto, a anfitriã.
Como costumam dizer os brasileiros, nesse instante “caiu a ficha”: estávamos na casa errada, na festa errada, com os anfitriões errados. O jantar para onde pretendíamos ir era, afinal, numa casa exatamente no lado oposto do conjunto, como os simpáticos donos da casa esclareceram, cheios de sorrisos.
Depois de muitas desculpas, naquele ambiente de amabilidade brasileira que torna tudo mais caloroso e fácil, despedimo-nos dos colegas italianos — esses sim, na festa certa — e rumámos, finalmente, ao jantar onde já tardávamos. Um jantar onde, minutos depois, contámos esta saga, para imensa diversão de todos, em especial da Regina e do Edson — os verdadeiros anfitriões, que já estranhavam o atraso. (Para eles, aqui fica um abraço saudoso.)
Nunca mais soube quem eram os donos daquela casa onde entrámos por engano. Mas continuo convencido de que, se algum dia nos tivéssemos cruzado de novo, ainda nos teriam convidado para jantar. Conhecendo os brasileiros — e, em particular, os brasilienses —, não me pareceria nada improvável.

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