quarta-feira, julho 22, 2026

Carol


Era uma senhora alta, com pouco mais de 60 anos, de uma beleza que se percebia ter sido esplendorosa e uns olhos verdes sem idade. Conheci-a em casa de um familiar, creio que em 1973. Era inteligente, culta e recordo ser simpática. O jantar prolongou-se pela noite dentro. Já de madrugada, levámo-la a casa, ali para os lados da Avenida de Roma.

Nunca mais nos encontrámos. Apenas falámos ao telefone dois ou três anos depois, quando me ligou a pedir conselho sobre como proceder para regularizar a situação da filha, que sempre vivera no estrangeiro e que deveria vir para Portugal. A senhora morreu em 1999.

Falo de uma das personalidades mais controversas da esquerda comunista portuguesa. Carolina Loff da Fonseca — Carol, para quem lhe era próximo — nasceu em Cabo Verde e viria a ser uma estrela ascendente no Partido Comunista Português.

Desde muito jovem, assumiu funções políticas importantes no partido e mesmo no movimento comunista internacional. Além da ação militante em Portugal, em anos de terrível repressão, trabalhou politicamente em Moscovo e em Espanha, durante a Guerra Civil, ao lado dos "rojos". Regressada clandestinamente a Portugal, foi presa. Tinha uma filha que viveu desde a infância na União Soviética.

Da sua prisão decorre um tempo novo e trágico da sua vida. Não só «falou» na cadeia, levando à prisão vários camaradas, como se enamorou de um agente da PIDE, com quem viveria durante uma década. O PCP nunca lhe perdoou esse comportamento. A Carol foi para sempre diabolizada, com forte razão, na memória do partido.

Na noite em que a conheci — estávamos em ditadura e eu tinha então uma ideia muito imprecisa da figura, fruto de conversas esparsas com amigos comunistas — deduzi, pelos seus comentários, que se situava politicamente à esquerda. A conversa não passou, claro, pela sua vida.

Sobre essa sua saga já houve várias publicações, sob a forma de relato histórico e até de ficção. Acaba agora de sair um pequeno livro que desenvolve um texto de jornal, que pouco acrescenta ao que já se sabia. Para mim, foi a oportunidade de recordar o facto de ter cruzado essa figura altamente polémica da história política da esquerda portuguesa— com quem, curiosamente, partilho familiares comuns.

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