quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A memória de Batepá


Marcelo Rebelo de Sousa teve ontem um gesto de grande coragem política. E pessoal. Ao deslocar-se ao monumento que, em São Tomé, honra os mortos do massacre de Batepá.

Tratou-se de um ato criminoso, cometido em 1953 pela administração colonial portuguesa, sob a responsabilidade dessa figura sinistra que se chamou Carlos Gorgulho - mas com a cumplicidade de muitos outros que a nossa História deve anotar com vergonha. Um milhar de pessoas perdeu a vida nessa terrível repressão feita para mobilizar trabalho forçado. Houve mortos por asfixia em celas onde foram encerrados a esmo. Um nome português ficou honrado na denúncia desse ato: o advogado Manuel João da Palma Carlos.

O massacre de Batepá equipara-se bem, na sua alarve violência, ao de Pidgiguiti, na Guiné, ao da Baixa do Cassange, em Angola, aos de Mueda e Wiriamu, em Moçambique.

A Marcelo Rebelo de Sousa, que na sua juventude não é conhecido por ter tido uma postura anti-colonial, cujo pai foi ministro do Ultramar e governador de uma colónia, há que reconhecer um imenso sentido de Estado ao saber ter este gesto. 

O que escrevi até agora é o preâmbulo para um episódio que quero revelar, pela primeira vez.

Na visita que o presidente Ramalho Eanes fez a S. Tomé, em março de 1984, que me competiu preparar, a parte santomense tinha organizado um programa que incluia uma deslocação a uma fortaleza onde se acumulavam, sem o menor cuidado, estátuas do tempo colonial, retratos de figuras portuguesas de Estado e uma exposição fotográfica sobre o massacre de Batepá, com uma determinada legendagem. Nos dias anteriores ao da chegada do nosso presidente, fiz uma volta por todos os pontos desse programa e, ao chegar à fortaleza, concluí que nem todas as coisas se apresentavam aí com uma dignidade compatível com aquela que seria a primeira deslocação de um chefe de Estado do Portugal democrático a São Tomé. No pós-25 de abril, Portugal não rejeita a sua responsabilidade pelos crimes do período colonial, mas não se pode associar oficialmente à sua evocação em moldes que afetem o respeito que lhe é devido como Estado democrático, que fez já o devido "exorcismo" desse tempo. A reação oficial santomense às minhas reservas, ratificadas pelo então embaixador português em São Tomé, Francisco Quevedo Crespo, não foi a melhor, pelo deixámos a decisão final para a delegação presidencial. A qual viria a confirmar a minha perceção. E, se bem me recordo, Eanes não foi aos locais que eu tinha entendido por mais problemáticos. 

Nunca tinha contado esta história. Faço-o hoje, ao expressar a minha grande satisfação pelo facto de um chefe de Estado português ter podido honrar a memória dos mortos de Batepá, mas de uma forma condigna. Agradecendo a Marcelo Rebelo de Sousa tê-lo feito, em nome de Portugal.

4 comentários:

Anónimo disse...


muito bom Sr. Embaixador

deveria fazer refletir aqueles que atualmente continuam a despejar bombas sobre as populações que ficam soterradas,
a transmissão global das imagens de sofrimento quase em direto não deixa praticamente ninguém desconhecendo o que se passa :(

Retornado disse...

Todos os episódios da colonização portuguesa em africa e na américa, por falta do hábito nacional(crónico)de escrever e registar para a prosperidade, os episódios piores ou melhores, leva a que "quem conta um conto, aumenta um ponto"

E como na Guerra do Ultramar, devido aos sigilos da ditadura, as oposições aproveitavam para onde havia mortes, de unidades passavam a dezenas, de dezenas passavam a centenas...assim por diante.

Não faltou que se insinuasse que houve indícios de genocídios organizados, como se durante os treze anos de guerra do Ultramar alguma vez tivéssemos alguma organização digna desse nome.

O que vale é que os crimes do colonizador (de 500 anos)foram minimizados pelos crimes dos des-colonizadores em 40 anos.

Retornado disse...

Os crimes coloniais do Estado Novo (1933-1974) foram todos bem escrutinados, realçados, tridi mencionados, testemunhados e superdimensionados pela oposição anti-salazarista, pelos "Estudantes do Império", pelos missionários evangelistas, batistas, anabatistas, ateus e romanos-ateus.

Após as independências, todos os crimes neo-coloniais consequentes, foram e têm sido testemunhados, filmados e reportados e abençoados por todos os missionários do mundo (cristãos, muçulmanos e ateus) acompanhados e com lágrimas de crocodilo pela UNICEF, FAO, OMS, FMI, Banco Mundial, etc.

Um crime não apaga outro, mas até parece que é essa a intenção internacional e mundial, com as barbaridades que se seguiram testemunhadas passivamente por tantas organizações "bem intencionadas".

Anónimo disse...

Marcelo Rebelo de Sousa honra o Portugal de hoje, até nas prioridades e prestou esta homenagem com grande sentido de Estado, sem qualquer dúvida