sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Uma oportunidade


Às vezes, dou por mim a surpreender-me com a minha própria ingenuidade. E, muito provavelmente, isso vai acontecer de novo. Mas prefiro alimentar uma esperança do que abdicar por cinismo.

Com particular incidência na última década, temos vindo a assistir, em Portugal, a um crescendo de tensão na verbalização do confronto político. Uma certa elegância, que estava longe de ser incompatível com frontalidade e eficácia, desapareceu de grande parte do debate político, com o parlamento a ser palco regular de diatribes entre as bancadas e entre estas e os governos, na utilização de uma linguagem que frequentemente roça o soez.

A manifestação de um mínimo de consideração democrática pelos adversários praticamente desapareceu – e essa é a mensagem que passa para quem, de fora, observa o comportamento dos diversos atores públicos. Nenhum partido está inocente neste terreno, onde o argumento político-ideológico é, quase todos os dias, substituído por insultos de caráter e por manifestações de falta de respeito, que só uma cobardia coletiva impede que acabem nuns pares de honrosas chapadas.

É triste constatar que a desejável renovação etária, em especial na vida parlamentar, acabou por trazer à tona algumas figuras de uma geração desbragada no discurso, débil na educação e na observância dos mínimos de civilidade. E resulta claro que as lideranças partidárias são abertos cúmplices dessa atitude, utilizando a agressividade desses protagonistas de segunda linha como tropa de choque verbal. A imagem que a opinião pública absorve desse ambiente é que agora já "vale tudo". Se os agentes políticos estão convencidos de que baixar a linguagem ao nível do populismo os prestigia, estão muito enganados: a sua imagem é cada vez pior.

Para isto contribui imenso uma situação de excecionalidade de que, em Portugal, não se tem noção, mas que, curiosamente é muito evidente para os estrangeiros que nos visitam. É que impera por cá uma hiper-mediatização da vida política, com uma cansativa presença dos atores partidários nos écrans e nas colunas dos jornais, explorando obsessivamente todos os pretextos para explorar a crispação. Com o futebol e os “desastres”, a política forma a gloriosa “troika” de conforto dos alinhamentos noticiosos, que se emulam e copiam entre si, alimentando-se de sectarismos e de visões confrontacionais. É barato, cria polémicas e sopra audiências.

A oportunidade e a esperança de que falei no início deste texto é muito simples: António Costa e Rui Rio serão capazes de firmar entre si um acordo de cavalheiros que regule os limites de agressividade dos seus “peões de brega”, reduzindo o terreno da sua agressividade verbal? O país, seguramente, agradeceria. A comunicação social não.

8 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

A política internacional, a política nacional de cada povo, a política das religiões, a política social, a política partidária, a política económica, a política de preços…A politica está por toda a parte e em tudo.

A busca do poder pelo homem, faz que utilize todos os mecanismos políticos, mesmo não éticos, para atingir as metas que persegue.
São poucos os que utilizam “só”os recursos nobres para levá-los à ascensão, ao serviço do Estado.
Na luta pelo poder todos os meios são lícitos, mas apenas para quem da política somente conhece os meandros escuros da politiquice…
Não sei se o Senhor Embaixador Seixas da Costa tem seguido os esforços de Laurent Wauquiez para se posicionar no “échiquier” da direita francesa.

Luís Lavoura disse...

impera por cá uma hiper-mediatização da vida política

Não sei se o Francisco tem razão, mas acredito que tenha.

Mas isso é facilmente explicável: há em Portugal uma grande falta de sociedade civil. Faltam na sociedade civil organizações fortes, constantes (que tenham protagonistas sempre disponíveis para dar opinião e fornecer conhecimento) e credíveis. As únicas organizações desse tipo que existem são, de facto, os partidos parlamentares (os quais comem à manjedoura do orçamento de Estado e, portanto, podem pagar aos seus protagonistas). Nestas condições, os mídia, sempre ávidos de opinião e conhecimento, não têm para quem se virar a não ser para esses partidos.

alvaro silva disse...

A contenção verbal na Assembleia é proverbial. A começar desde logo nos pródomos desta democracia. Nomeadamente na Constituinte em que era bem conhecido o vernáculo quarteleiro dum "pena d'ouro" muito conhecido nos meios do "reviralho" e depois "socialista", o ex-padre Raul Rego. Nós é que nos vamos esquecendo...

Reaça disse...

Nada que se compare aos tempos da !ª república.
Não fosse Bruxelas a capital e já lá tínhamos chegado.
Naquele tempo não tivemos Bruxelas, teve que vir alguém de Coimbra, resolver.

Francisco Seixas da Costa disse...

Não convém confundir episódios (que sempre houve) com práticas recorrentes, assumidas por quem atua em nome da direção do partido.

Anónimo disse...

As chapadas seriam honrosas, o João Soares até as prometeu, mas nestes tempos de cobardia geral, como bem assinala, caiu o carmo e a trindade e a saída foi a demissão...
E para hiper-mediatização, ninguém leva a palma ao Excelentíssimo Presidente da República, que fala do que sabe, do que não sabe, tempestiva e intempestivamente, e que já começa a revelar o que eu temia - uma irreprimível vontade de mudar a natureza do sistema, dando-lhe um pendor presidencialista que ele não tem. Fui aluno dele e o homem é catedrático de Direito Constitucional, portanto o desconhecimento não é desculpa.

Anónimo disse...


Sem novidade.
Ele é sempre o mesmo objectivo: A luta de classes tão querida pelas voltas deste regime.
Mas nessa luta perdem-se muitas oportunidades de o país se desenvolver.
Será por isso que ainda somos pobres económica e intelectualmente? Pois ainda não sei.
Mas que entre o "football" e a luta de classes a população gasta muito tempo melhor empregue a pensar a vida, não há dúvidas.

Anónimo disse...

Não creio que o nosso Parlamento seja assim tão “agressivo”. É seguramente menos que o italiano, o inglês, o espanhol ou o alemão, onde há muito pouco tempo foi instituída uma multardes mil euros para quem dissesse alguns palavrões que cá seriam impensáveis. Mas concordo que há nos debates que passam na TV um tom de intolerância e fingida raiva que cansa. Era bom que, como dizes,os políticos compreendessem que estarem sempre a acusar-se e a chamarem-se mentirosos e com insinuações torpes não recai apenas sobre aqueles a quem se dirigem, mas sobre a classe política em geral cavando mais o fosso entre as pessoas e a política. E que bom seria poder ouvir um debate sereno e inteligente na assembleia em que o interesse do país se sobrepusesse as quezílias politiqueiras. Mas iss só quando os deputados forem robots
Fernando Neves