sábado, 24 de fevereiro de 2018

A cunha do chinês



Anda por aí um debate sobre a validade dos diplomas em medicina chinesa. Não me meto nisso: sei tanto disso ... como de medicina chinesa! Mas sinto-me tentado a contar uma pequena história pessoal. 

Um dia, quando vivia em Nova Iorque, apareceu-me uma dor terrível por todo um braço. Afetava-me o sono e o trabalho. Sem a menor dúvida, fora provocada por um esforço físico que, insensatamente, havia feito de forma repetida, uns dias antes. 

Num jantar em casa do embaixador da China nas Nações Unidas, o assunto veio à baila e este perguntou-me: "Queres experimentar o melhor médico chinês de Nova Iorque? Tenho a certeza de que a acumpunctura te tira essa dor, em pouco tempo". Eu sabia da eficácia da acumpunctura em vários casos dessa natureza e fiquei curioso.

Poucos dias depois, lá estava eu a entrar num consultório manhoso, que tinha pouco de médico, pelo menos na boa caricatura que eu deles faço. Lembro-me bem de que era na rua 24, a dois passos do Flatiron - o célebre prédio em forma cunha, o mais antigo (1902) "arranha-céus" de Nova Iorque (de que fica aqui uma imagem, talvez a despropósito). Verdade seja que também fora por uma "cunha" do embaixador chinês que eu ali fora atendido com rapidez...

O médico era um velhote simpático, que me pareceu competente, começando por ser de poucas falas. Fez-me os necessários testes e, no fim, concluiu: "Creio que com umas dez sessões de acumpunctura isso fica resolvido". E fomos ambos olhar para as nossas agendas.

Por esses tempos, a minha vida, em Nova Iorque, era um perfeito inferno, com reuniões de manhã cedo até à noite, seguidas de imensos jantares com uma pesada componente de trabalho. Conseguir disponibilidade para me libertar, por algumas horas, dos meus compromissos nas Nações Unidas, para ter essas dez sessões de acumpunctura, numa zona bem distante do meu escritório e muito mais de minha casa, era algo que me iria desorganizar por completo o quotidiano, tanto mais que as horas do médico chinês eram escassas e muito limitadas na sua flexibilidade. 

Ao ver a minha atrapalhação, o homem, já simpático, saiu-se subitamente com esta: "Há uma maneira de talvez conseguir resolver isso de uma só vez!" Olhei para ele, surpreendido. A surpresa aumentou quando o ouvi dizer: "Podemos mesmo fazer isso já!". Eu devia estar a arregalar cada vez mais os olhos, quando ele me disse: "Quer fazer uma infiltração, uma injeção? Provavelmente resolve o problema."

Resolveu, de facto. Mas, a partir daquele instante, a pouca "fezada" que eu sempre tive nas medicinas não convencionais esvaiu-se ainda mais. Até hoje.

ps - mudei a palavra: escreve-se “acupunctura”

4 comentários:

Anónimo disse...

Mas isso de "infiltração", também pertence à linha chinesa?...

João Cabral disse...

Acumpunctura com "m"? Está a mais...
https://www.rtp.pt/play/p982/e162934/pontapes-na-gramatica

Francisco Seixas da Costa disse...

Tem razão, João Cabral

Anónimo disse...

Se se diz acumpuctura, porquê escrever de outra maneira? Forma consagrada pelo uso. Como o atanazar que em tempos foi atazanar, o espirro e o espilro, o decer e o descer, o aloendro e o eloendro... tretas, não ha paciencia para usos normativos da linguagem, que querem impedir os demais de se exprimir como entendem.