segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Quem tem medo de Francisco Louçã?


Sinto por aí um certo mal-estar com a proeminência pública de Francisco Louçã, seja pela presença regular na comunicação social (imprensa, rádio e televisão), seja pelos lugares que ocupa no Banco de Portugal e no Conselho de Estado. Pena é que não se destaque, com igual nota, a sua atividade académica, em que, por um indiscutível mérito próprio, chegou ao topo da carreira letiva, com amplo reconhecimento dos seus pares. Louçã é, além disso, autor de uma bibliografia muito assinalável, também publicada no estrangeiro.

Esta atitude anti-Louçã - chamemos as coisas pelos nomes - apoia-se num pouco subliminar juízo de "ilegitimidade". Porque as ideias políticas de Louçã são minoritárias, dar-lhes relevo não tem o menor sentido e representa uma injustificável cedência de espaço ao Bloco de Esquerda - é esta a "lógica" do raciocínio.

Ora Louçã tem todo o direito de pensar o que pensa. Não concordo com muitas coisas que ele defende, sentir-me-ia mesmo pouco confortável se algumas das suas ideias fossem levadas à prática, nomeadamente nos temas europeus. Mas reconheço que o seu pensamento tem uma indiscutível racionalidade e coerência, mesmo quando ataca aquilo que eu próprio penso. E fá-lo com uma inteligência e uma preparação intelectual muito raras. 

Num país em que o pensamento económico dominante é um ecoado por um "coro" que papagueia uma linha quase uniforme, difundindo um "template" que surge vendido como verdade indiscutível nas salas das nossas universidades (isto sabe-se?), de que algum "jornalismo" económico é apenas um subproduto para "dummies", fico muito feliz pelo facto de poder existir, com visibilidade nacional, um contraditório, mediático e não só, feito por alguém com a estatura de Francisco Louçã.

10 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Francisco
Embora considere um pouco excessivas as palavras das suas seis ultimas linhas - não me parece haver assim tanta unicidade de pensamento económico na Academia - concordo com este seu post. Ouvir Louçã tem a enorme mais valia de nos pôr a pensar e a rever o que pensamos. Como calcula, não perfilho grande parte das ideias dele. Mas não só o oiço com muita atenção como lhe reconheço grandes qualidades de análise.
Curiosamente, na actualidade, sou menos pessimista do que o meu querido amigo!

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Helena. Do que ouço quando por lá passo e do que me dizem que por lá se passa, aliás na linha que é “mainstream” em todas as universidades americanas, o discurso económico liberal é aquilo que se “dá” como doutrina. Ao que me chega, salvo alguns professores mais especiosos, a generalidade dos académicos da área económica já nem se preocupam em contrapor a essa doutrina aquilo que uma outra leitura traroa ao debate. Vejo que é menos pessimista do que eu. Eu sintetizaria a minha posição numa frase muito simples: sou tão otimista quanto o BCE mo permitir...

Mal por mal disse...

Louçã sabe muito mas não leva ninguém a traz dele, bloqueou o Bloco.
A Catarina sabe pouco e desbloqueou o Bloco.
Os jornais precisam de gente para preencher vazios.

Luís Lavoura disse...

Eu gostei da mensagem subliminar que uma vez o FL transmitiu quando, numa entrevista, lhe perguntaram como se comparava com Cavaco Silva, também ele professor catedrático de economia. FL respondeu, com ironia subliminar, que Cavaco Silva era um professor mais dedicado ao ensino, enquanto que ele, Louçã, se dedicava mais à investigação...
Na prática das universidades portuguesas, o que isto significa é que FL é uma pessoa que faz investigação e a publica, enquanto que Cavaco Silva não faz pevas de investigação - só ensina.

Anónimo disse...

Com espíritos brilhantes como o desse senhor,somos uma espécie de Venezuela que só não caiu de vez na desgraça da fome e miséria porque está ainda atrelada à UE/BCE !


Anónimo disse...

"...discurso económico liberal é aquilo que se “dá” como doutrina..." - sem dúvida que tem razão no que diz. Quem quiser saber mais que investigue, pois o mainstream é mesmo o ensino do liberalismo e do neoliberalismo. É preciso formatar todos por igual.

Anónimo disse...

Um tipo brilhante, Francisco Louçã. Comprei recentemente o seu último livro, em co-autoria com um norte-americano e estou a gostar de ler. E discordo inteiramente da avaliação que o anónimo das 12:02 fez. É realmente não perceber patavina de política. O Chavismo nada tem a ver com a ideologia de Louçã. Há duas pessoas que leio com particular gosto: Francisco Louçã e Bagão Félix.

aamgvieira disse...

Ainda bem que não percebo patavina de política , mas de #illuminnati# está Portugal a rebentar pelas costuras !

Joaquim de Freitas disse...

O liberalismo é incompatível com a liberdade.
A verdadeira liberdade é indissociável da protecção dos mais fracos. O liberalismo à ocidental, que parece ser defendido neste blogue, é sinónimo de escravatura para a grande maioria dos homens, que eles sejam cidadãos do Sul ou relegados nas camadas desvalorizadas dos países do Norte.

A economia triunfante de 1995, foi a porta escancarada aberta pelo liberalismo ao capitalismo selvagem, que derrubou todos os limites que lhe eram timidamente impostos por algum controlo do Estado.

Que alguém me explique se:

- a livre circulação dos capitais,
- pôr os trabalhadores em concorrência e nivelar os salários ao nível mais baixo e atacar os direitos sociais, (como neste momento em França,)
- supressão dos serviços públicos (como neste momento em França)
- supremacia absoluta da economia,

sao compativeis com o progresso.

Quando o liberalismo é o fundamento das grandes instâncias internacionais, como a OMC ou o FMI, perfeitamente supranacionais, escapam a toda legitimidade democrática.

O Senhor Embaixador tem razão num ponto: o liberalismo é o único modelo ensinado nas grandes escolas onde nenhuma outra visão não é estudada.

A partir desta constatação, o liberalismo acaba por ser intocável, o que lhe permite de escapar às áleas eleitorais do jogo democrático.

Por isso estou de acordo com o derradeiro parágrafo do seu texto, Senhor Embaixador.

Entretanto, creio que é na sua frase: “Eu sintetizaria a minha posição numa frase muito simples: sou tão optimista quanto o BCE mo permitir...” ,

que se encontra a explicação da falência do socialismo ou da social-democracia na Europa.

Pedro Vendas disse...

Medo? Parece mais amor, com lugar cativo no Expresso, no Publico, na SIC e não sei se mais. FL não tem muito de que se queixar, para além das criticas, normais, para quem diz o que diz e com a frequência que o faz. Chama-se a isso estar na vida pública.