quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A chave do frio


Uma última historieta sobre a visita presidencial a S. Tomé, em 1984.

A chegada da comitiva a São Tomé, na tarde desse dia, fora um tanto caótica. Mas, finalmente, lá foi possível garantir que os membros da delegação presidencial estavam devidamente alojados, na escassíssima rede hoteleira então existente. A boa vontade das autoridades locais, desejosas de prestar o melhor acolhimento possível à primeira visita de um presidente português depois da independência do país, fora fantástica. Melhor era impossível!

Como é das regras deste tipo de visitas, o chefe de Estado estrangeiro oferece, num dos dias, um jantar ao seu homólogo do país. Na ausência de um “cateter” que, em São Tomé, pudesse organizar essa refeição, foi necessário trazer quase tudo de Lisboa, o que era facilitado pela circunstância de ser um voo especial da TAP. Combinou-se que esse material seria guardado numa câmara frigorífica existente na cidade. 

A noite desse primeiro dia já caía, e preparávamo-nos para a intensa jornada que ia seguir-se, quando, esbaforido, entrou de roldão pela residência do embaixador um elemento da empresa responsável pelo jantar que teria lugar dois dias depois: “Desapareceu tudo!”.

Ficámos compreensivelmente alarmados. Se isso acontecesse, seria o caos! O homem, lívido, explicou-nos que dois veículos de carga tinham vistos a sair do aeroporto com o material e que ninguém sabia do paradeiro de tudo aquilo com que ia ser preparado o nosso jantar de Estado.

Dispus-me a esclarecer as coisas. O Fernando Tavares de Carvalho, diplomata colocado na embaixada, ainda sugeriu que só se apurasse o assunto logo de manhã. Mas eu, que tinha ido para ali deslocado de Luanda para garantir uma boa preparação da visita, fiquei nervoso com o potencial cenário de “catástrofe”. Chamei o funcionário da embaixada com quem tinha tratado a questão da câmara frigorífica e, juntamente com o Fernando, fomos tentar ver se o material estava lá ou não.

Só que o serviço frigorífico estava, a essa hora, naturalmente encerrado, pelo que era necessário encontrar, previamente, o responsável pelo acesso ao edifício, um tal Mané, o homem que tinha “a chave do frio”, na expressão forte do funcionário da embaixada. E lá fomos, por vielas esconsas de um bairro muito pobre, na periferia da cidade de São Tomé, comigo ao volante, perguntando, de esquina em esquina, onde ficava a residência do Mané. 

Deviam ser umas dez da noite quando descortinámos a casa que nos foi indicada, um edifício térreo, muito simples. Bateu-se à porta, surgiu uma senhora avantajada. Era a mulher do Mané. Simpaticamente, quase pedindo desculpa, disse-nos que ele saíra e que não sabia quando iria regressar. “Pode vir tarde!”, alertou-nos. 

Quando a porta se fechou, o Fernando, o funcionário da embaixada e eu olhámo-nos, impotentes. E já regressávamos ao carro, dispostos a só esclarecer as nossas dúvidas na manhã seguinte, quando um vizinho, com um largo sorriso de dentes brancos a iluminar-lhe o negro da cara, nos disse, em tom baixo: “Eu sei onde o Mané está. Não é longe.”

Pronto. Tínhamos de ir à busca do Mané, se calhar a um bar das redondezas, onde ele fora beber um copo. Excelente! Onde era? “É em casa da amiga...” 

Olá! A coisa tornava-se mais complicada. E delicada! O vizinho prontificou-se a ir ele próprio avisar o Mané do que pretendíamos, devendo nós seguir para o edifício onde se situava a câmara frigorífica, aguardando aí por ele. Senti-me constrangido: arruinar a “escapadinha” do Mané não me deixava nada feliz, devo confessar (sei que é politicamente incorreto este meu sentimento, mas é a pura verdade). Mas tinha de ser assim. E lá foi o vizinho foi à cata do Mané, connosco a avançar para o “frio”.

Aí uns vinte minutos depois, o Mané surgiu, de cara fechada. Ainda hesitei em dar-lhe umas palavras de conforto pela interrupção causada à sua vida íntima clandestina, mas “fiz de conta” de que nada sabíamos.

“For the record”, constatámos que estava tudo bem arrumado, fora a TAP quem cuidara de armazenar as vitualhas para a jantarada, juntamente com aquelas caixas metálicas prateadas em que trazia uma imensidão das suas refeições, porque Eanes iria ainda de São Tomé para o Zaire e para o Congo.

À despedida, “oleámos” o Mané com uma gratificação pelo trabalho extra que tinha tido e, no carro, rimo-nos a bom rir com a situação criada. Com uma dúvida ficámos para sempre: o Mané regressaria do “frio” à amiga ou a casa? Nunca saberemos.

4 comentários:

Manuel disse...

Mas que livro fantástico eu imagino se poderia fazer com estas histórias. Acho que é um dever cívico.

Anónimo disse...

Fico com a dúvida se o Manuel que comenta será o Mané da história...

Cícero Catilinária disse...

Eu apoio, Manuel das 17:42!

Anónimo disse...

Viver para contar - Só o Jorge Amado contaria estórias destas...Que humor brilhante!