Demora bastantes anos a subir esta escada. Há que fazê-lo com jeito, sem pressas, medindo bem a importância de cada degrau que se pisa. Alguns, na sofreguidão da ambição, tentam fazê-lo dois-a-dois, procurando queimar etapas. A esses, às vezes, e não são poucas, acontece-lhes tropeçarem. Outros, mais preguiçosos, sobem-na com demasiada lentidão, muito passo-a-passo, adormecendo sob o sol da tapada, e, quando se dão conta, verificam que já se faz tarde para chegarem ao topo. Há também os que, na subida, passam o tempo a olhar para o lado, invejosos com a passada dos outros, como se o azar que intimamente desejam aos seus competidores fosse afinal a sua maior fortuna. Alguns desses ainda conseguem a aventura de chegar ao topo da escada mas, quando olham para trás, ouvem umas estranhas gargalhadas vindas do fundo. Mas nunca chegam a perceber quantos se riem deles. Outros, mesmo muitos, acabam por escorregar um dia no atabalhoado do seu percurso, porque o mármore dos degraus é traiçoeiro para quem os não respeita.
Esta é a escada que liga o “palácio velho” às Necessidades. Passei por lá hoje à tarde (“vai em trabalho?”, perguntou-me a bela GNR. “Não, eu já não tenho idade para trabalhar...”, respondi-lhe, correspondendo ao sorriso). Não há uma forma única de subir esta escada, mas aprendi com a vida que só há uma maneira “fair” de a encarar. No entanto, pode-se “subi-la” a partir de cima, mas, acreditem, não é exatamente a mesma coisa...