sábado, 24 de fevereiro de 2018

ACNUP


Sabe o leitor o que foi a ACNUP? 

Hoje, olhando papelada velha, surgiu-me um “apontamento” oficial, com timbre do Ministério dos Negócios Estrangeiros, datado de 14 de novembro de 1978. Nele eu dava conta aos meus chefes, correspondendo a um “despacho” superior, de que integrava a Comissão Organizadora da Associação para a Cooperação com as Nações Unidas em Portugal (ACNUP).

A Associação destinava-se a contribuir para um melhor conhecimento, no nosso país, dos fins e atividades das Nações Unidas. A ONU havia sido uma organização global ferozmente diabilizada pela ditadura portuguesa (que caíra apenas três anos antes), por ser a principal linha da frente diplomática no combate ao colonialismo. E era manifesto que não haviam sido feitos os necessários esforços para contrariar o efeito disso no imaginário público nacional. A ACNUP nascia para isso mesmo, para dar visibilidade positiva à ONU.

(No ano seguinte, em 1979, fui viver para a Noruega e tive de desligar-me da organização, de que me mantive associado por uns anos.)

Anoto os nomes dessa Comissão Organizadora, que eu integrava: Silva Costa, adjunto do presidente da República, José Cardoso Pires, escritor, os professores universitários Maria de Lurdes Belchior e Jacinto do Prado Coelho, os gestores empresariais José Campelo e Carlos Eurico da Costa, o diretor do “Diário Popular”, Jacinto Batista, e o técnico de comunicação social, João Palmeiro. Com o tempo, viriam a integrar os primeiros corpos diretivos da ACNUP o padre (depois cardeal) José Policarpo, o dr. Rui Machete, o comandante da Marinha Luís Costa Correia e o embaixador António Costa Lobo. Fui, aliás, o principal relator dos estatutos da ACNUP.

O MNE, como agora vejo pela nota que hoje reencontrei, não gostou que eu não tivesse pedido autorização para integrar a ACNUP. E fico agora a “conhecer-me” melhor, à época, ao ler o que então enviei “à consideração superior”: “A ausência de qualquer limitação, implícita ou explícita, colocada neste campo pelo Regulamento do MNE - que, aliás, a existir, seria naturalmente derrogada pela Constituição da República - levou o signatário, por uma questão de mera lealdade funcional, a comunicar apenas a sua filiação na ACNUP mas, igualmente, a prescindir de qualquer pedido de autorização para assim proceder”.

Eu tinha razão, quanto à questão de fundo. Mas, olhando em perspetiva, com apenas três anos de “casa”, tinha uma “grande lata” e algum excesso de frontalidade no modo, algo arrogante, como abordava o problema. Que paciência que os meus chefes, no MNE de então, tiveram para comigo!

3 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

Esta é uma confissão de pura ignorância: não fazia a mínima idea do que era a ACNOU? A partir de agora já sei... Muito obrigado

Um agração

Henrique, o Leãozão

Anónimo disse...

Pode também aqui mudar a palavra: diabolizada.

Anónimo disse...

porquê o dr em "o dr. Rui Machete" e nao nos outros casos que também o eram?