sábado, 17 de fevereiro de 2018

O nosso “clochard”



Acabo de ler que morreu um sem-abrigo português, em Londres. 

E lembrei-me logo de Paris. A memória romântica da capital francesa alimentou, desde há muito, uma narrativa idílica sobre os seus “clochards”. Por muitos anos, eles eram vistos como os proprietários da liberdade suprema, usufrutuários das ruas, senhores irónicos de uma vida sem peias. O romantismo disfarçava a tragédia e almofadava as consciências.

Os tempos mudaram: hoje os clássicos “clochards” (a palavra parece derivar de “clocher”, do seu histórico andar “pendular”, fruto do alcool que aquece os dias de muitos) passaram a ser, simplesmente, os “sem abrigo”. E todos percebemos bem melhor, agora sem o comodismo de filosofias baratas, o drama de quem vive e dorme ao-deus-dará.

Um dia, quando estava em Paris como embaixador, foi-me chamada a atenção para um sem-abrigo que, ao final do dia, vinha colocar-se, com regularidade, num dos extremos da rua onde se situa a embaixada. Era português. Vim a saber que era alimentado e ajudado, mas também “fornecido” em álcool, por um grupo de reformados portugueses que, quase todos os dias, se juntam no início do bosque de Boulogne. Também soube que uma “concierge” portuguesa lhe facilitava a higiene. Quis saber mais: se ele desejava ser repatriado para Portugal, que mais era possível fazer por ele, para além de alguma roupa e cobertores que lhe foram entregues. Não foi fácil a abordagem. Através da sua amiga porteira, viemos a apurar que a sua vida em França atravessara uma tragédia romântica e que ele se recusava a encarar o regresso a Portugal. Contactou-se uma irmã, que já tentara intervir, mas verificou-se que os canais de comunicação eram já muito difíceis.

Uma noite fui ter com ele. O álcool (do dia? de anos?) já lhe tinha tirado muito da capacidade discursiva. Foi uma conversa difícil, breve, em francês, ele com umas curiosas interjeições portuguesas pelo meio. Disse-lhe quem era (mas não sei se isso significava para ele alguma coisa), que queríamos ajudá-lo. Não reagiu. A certo passo, achei mesmo que, com a minha insistência, estava já a ser algo paternalista. Senti então que ele se foi “afastando”, furtando-se ao meu olhar. Disse-lhe que batesse à porta, se precisasse de comida. Deixei-lhe algum dinheiro e também um cartão pessoal, com números de telefone que ele podia invocar ou usar, se acaso tivesse problemas. Em silêncio, guardou-o.

Nos tempos seguintes, à noite, ao olhar pela janela para a rua, ficava angustiado ao vê-lo ali, no chão, ao frio, sobre uma grade metálica, de onde lhe vinha algum calor. Mas, de certo modo, confesso que tinha um sentimento positivo por saber que o “nosso clochard” de Paris se acolhia na vizinhança da sua embaixada.

Um dia desapareceu, deixou de ser visto, à noite, na rue de Noisiel. Mandei saber dele. Havia sido internado, com graves problemas de saúde. Depois, soube que havia morrido. 

Lembrei-me do “nosso clochard” em Paris, ao ouvir a história do sem-abrigo português que agora morreu em Londres.

22 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Tive uma primeira tentação, ao ler estes textos do Senhor Embaixador, sobre os “Clochards” portugueses de Londres e Paris, e mesmo a foto dos “sediciosos” do 25 de Abril 1974, que foi de escrever: “As revoluções passam, as misérias humanas restam.”

Claro que as revoluções nunca foram feitas para eliminar as misérias humanas, porque estas são imensas e diversas.

Os políticos iminentes, recuperam rapidamente estes “faits divers”, porque são vergonhosos.

O Presidente da República "manifesta a sua solidariedade para com as pessoas que vivem em condições precárias, sem teto ou sem casa, apelando ao esforço de todos para a sua inclusão na sociedade" … Expulsando 80 da Gare de Oriente, como primeira solução…

E o líder do partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, lá deixou um cartão de condolências e flores. Pode encomendar mais flores, porque Westminster conta anualmente com cerca de 3.000 sem-abrigo.

Parece que em Portugal, onde existem também os “nossos” sem abrigo, porque nem todos emigraram, a grande maioria estão nos grandes centros urbanos e são maioritariamente do sexo masculino. Talvez menos esperado seja o facto de que o alcoolismo é mais comum em Lisboa e a toxicodependência é mais visível no Porto.

Os motivos que levam alguém a esta situação, são geralmente de ordem social.

Para além do vício, alcoolismo ou toxicodependência, temos outros factores predominantes como a doença, conflitos familiares e desemprego ou vínculo precários que também contribuem para esta situação.

Um dado que geralmente é pouco valorizado é o facto do desemprego e o vínculo precário ser a causa de mais de 35% do problema dos sem-abrigo, que talvez seja aquele que demonstra a realidade do trabalho clandestino e da exploração sem direitos de quem trabalha.

Muitos são emigrantes, alguns são nacionais com baixas qualificações e, em comum, têm apenas o estigma de serem mão-de-obra descartável e sem protecção social à disposição de empregadores sem escrúpulos que furam com facilidade a fiscalização das autoridades.

Os números conhecidos pecam por defeito e só não tomam proporções mais dramáticas porque há algumas organizações que vão tentando integrar ou ajudar estas pessoas, muitas vezes com mais vontade do que meios para a tarefa que pretendem realizar.

Mas duma maneira geral, na maioria, são ou foram todos trabalhadores ou à procura de trabalho. Numa sociedade, onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, a situação não evoluirá facilmente, porque dos últimos não reza a historia.

Sim, Senhor Embaixador, tive a tentação de escrever sobre o seu jantar com um bando de “sediciosos” de Abril… Seria preciso recomeçar…..mas com um espírito verdadeiramente revolucionário.

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador
Li algures que o sofrimento interior dessas pessoas é tão forte, que o que les acontece no plano físico não lhes toca tanto, e que o facto de terem dores físicas, fome, frio, lhes faz "esquecer" um pouco ou lhes "alivia" o quanto sofrem por dentro :(
era uma explicação deste tipo que li, talvez eu não saiba explicar muito bem

bom fim de semana para si

PSICANALISTA disse...

Os antigos Combatentes sem-abrigo,votados ao ostracismo desde a revolução dos cravos, não passam por aqui....!
Eles serviram a Pátria !
A Pátria fez o que é costume !!!

Anónimo disse...

Sendo que o "nosso" embaixador falava com o "nosso" clochard em... francês.
Ora "ballons"!

PSICANALISTA disse...

Citando:
Monsieur Joaquim de Freitas:

"o alcoolismo é mais comum em Lisboa e a toxicodependência é mais visível no Porto"...
Vexa tem trabalho de campo nesta área,que legitime a sua afirmação ?..


Anónimo disse...

Um fim de tarde em Paris no inverno já escuro, na Place du Panthéon vi um clochard estendido no chão perto de uma entrada para um edifício com polícia à porta. O clochard ainda tinha roupas decentes e por isso fez-me mais impressão.
Depois de algum tempo dirigi-me ao polícia e perguntei: Está aquele senhor doente? Respondeu-me, não. É um clochard que vem para aqui dormir todos os fins de tatde até de manhã.
Face à minha pergunta, como é possivel? Respondeu-me: São pessoas que vêem da provincia para tentar ganhar mais. Quando lhes acontece não conseguirem, não teem coragem de voltar para a província donde vieram e tornam-se alcoólicos. E eu perguntei se ele o estava a guardar. Disse-me que não era ele quem o guardava mas sim guardava a casa de um importante político.
Todo o diálogo com o polícia foi sem emoção da parte dele. Mas se uma noite ele não estivesse ali a dormir aí o polícia se emocionaria.
Ou seja era normal haver ali um clochard estendido no chão para passar a noite.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anonimo das 14:35. O “clochard” não queria falar português, não percebeu?

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Ó Anónimo das 25 para as 3, que bela maneira de amesquinhar a elevada dimensão humana do Sr. Embaixador com essa treta de reclamar do francês.

Joaquim de Freitas disse...

PSICANALISTA disse...
Citando:
Monsieur Joaquim de Freitas:

"o alcoolismo é mais comum em Lisboa e a toxicodependência é mais visível no Porto"...
Vexa tem trabalho de campo nesta área,que legitime a sua afirmação ?.



É cada vez mais este o retrato dos sem abrigo do Porto, e dos de Lisboa, segundo os voluntários da Legião da Boa Vontade (LBV) que lidam de perto com eles.

Anónimo disse...

@ Sr. De Freitas.

Quanto ao seu comentário a 11 Fev 2018 16:13 quanto à minha pessoa: "Há certos argumentos que me fazem sorrir…de compaixão!" esqueci-me de lhe recomendar [também não sei nada dos seus hábitos de leitura ] que podia fazer uma leitura do nº 115 da revista "Philosophie Magazine" de Dezembro 2017 - Janeiro 2018 a qual contem um "Dossier" que deve interessá-lo : "Pourquoi est-il si difficile de changer?"
Quanto à sua opinião sobre as mortes ocasionadas pela URSS estou aguardando com ansiedade.

Anónimo disse...

Depois de 1974 havia uma instituição privada centenária que se encontrava no Bairro Alto e que se chamava "Albergue Nocturno". Qualquer pessoa podia recorrer a essa instituição para: Poder dormir, tomar um duche, comer uma sopa, mas tinha de lá estar apenas entre as 08:00PM e as 08:00AM sem pagar nada.

O que disseram na altura foi que já não interssava uma instituição daquele teor porque o Estado se encarregaria de alojar todos os sem-abrigo. Também foi dito que as horas de entrada e saída não convinham aos sem-abrigo. E por isso já não havia quem recoresse áquela instituição.
E a instituição foi entregue à segurança social.

Anónimo disse...

Ó rapaziada, se o "clochard" não queria, sequer, falar a nossa língua, para quê preocuparem-se com ele? Tinha mudado de "clube", respeitassem-no. E este em Londres será outro que tal. E ainda passamos pela vergonha de ver o nosso PR a mandar agradecimentos a um político bife que lá foi pôr flores. Deem-se ao respeito!

Anónimo disse...

Marcos Amaral Gourgel, 35 anos, fora extraditado do Reino Unido 3 (três) vezes, sendo que uma com acusação de pedofilia. De origem angolana com dupla nacionalidade.
Tipicamente aceitou e recusou apoios sociais.
"Clochard português".

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo 17 de fevereiro de 2018 às 22:40


Quaisquer que sejam os crimes do Estalinismo, nunca estes poderão ser utilizados para justificar os crimes dos Americanos no mundo, desde a criação dos EUA e que continuam hoje.
Sem falar do genocídio Ameríndio.

Nem os 750 000 mortos da Guerra Civil Americana, 2,5 % da população total, poderão justificar os 4 milhões de vítimas da Guerra Civil Russa, igualmente 2,5% da população total, durante 5 anos.

Este conflito foi na realidade uma guerra civil internacional, na qual intervieram uma dúzia de governos (alemão, inglês, francês, americano, japonês, checoslovaco, polaco, romeno, grego, italiano, etc.) e do lado dos “Vermelhos” , Húngaros, Chineses, Alemães, Coreanos. Churchill teve uma fórmula na época, que dizia: “ Devemos aliar-nos aos Hunos contra os bolchos”

Anónimo disse...


Se é desde a fundação dos USA também seria bom que a observação quanto à Rússia fosse da mesma época ou é porque como o Império russso, para o senhor, nem existiu?

Achei curto e mal estrutorado o seu resumo e sempre comparando com as maldades dos outros.
Quanto aos "Países de Leste" nem uma palavra li, os quais existiram de 1945 a 1989.

No entanto se gostaria de saber sobre as relações de Portugal e a Rússia de 1723 até 1815, parece que os Ministérios dos Negócios Estrangeiros dos dois países envidaram esforços e publicaram uma colectânea documental conjunta dedicada a este assunto.
Informe-se sobre como adquirir a obra que não sei se está no mercado. Talvez no Amazone.
Encontrei esta obra no site da nossa Biblioteca Nacional.

Joaquim de Freitas disse...

« Anónimo disse...
Marcos Amaral Gourgel, 35 anos, fora extraditado do Reino Unido 3 (três) vezes, sendo que uma com acusação de pedofilia. De origem angolana com dupla nacionalidade.
Tipicamente aceitou e recusou apoios sociais.
"Clochard português".
18 de fevereiro de 2018 às 15:48

Ouf !!! : o « clochard português », que poderia ter nascido e ficado “português” em Angola, se Angola tivesse sido conservada “portuguesa”, finalmente, não “era mais que” um “dupla nacionalidade”…que “tipicamente” aceitou e recusou apoios sociais…como muitos “clochards”… noutros países !

E o Anónimo das 15:48 de “confirmar “, ironicamente, que era um “"Clochard português"….Sub-entendendo que um tipo destes não pode ser de facto …português, mesmo se é “clochard”… E se não pode ser português, só pode ser angolano…

E na realidade, só pode ser nada…porque outro Anónimo, o das 23:21, escreve: “E este em Londres será outro que tal. E ainda passamos pela vergonha de ver o nosso PR a mandar agradecimentos a um político bife que lá foi pôr flores. Deem-se ao respeito!
17 de fevereiro de 2018 às 23:21.

Terrível ! « Dêem-se ao respeito » ‘ escreve ele…para quem o respeito devido aos mortos depende da nacionalidade e da cor da pele. E há quem se admire que existiu Auschwitz e Dachau . As sementes de “kapo” voam ao vento …

Pobre destino deste homem, “dupla nacionalidade”, que, ao contrario dos apátridas, teve a desdita de ter duas “pátrias”, e mesmo três…, a última sendo para ali morrer…Teria sido mais respeitado, se se tivesse registado como apátrida…

Joaquim de Freitas disse...

Enquanto o Senhor Embaixador permitir, vamos dialogando…Lamento a falta de “estruturação” do meu texto! Emigrante “malgré moi”, não tive o privilégio de passar pela Sorbonne…

O Senhor escreve que o meu resumo “seria sempre comparando com as maldades dos outros”, Como se o seu fosse diferente e não “comparasse precisamente os dois “impérios”.

Os dois “impérios” não foram construídos da mesma maneira nem na mesma época. Os séculos de “expansão czarista não se podem comparar à expansão soviética do pós guerra. Mas o resultado não foi muito diferente.

A América Latina, sob a política de Monroe, continua sob o jugo do antigo mestre, que é hoje o mesmo dos Países de Leste, através da NATO.

A União Soviética, criou o seu “espaço” vital de 1 000 km sobre os países que libertou do poder nazi. Porque em 1945 Estaline conhecia os “planos” do Ocidente, que eram de ir até Moscovo. Como sempre, desde Napoleão.

O “ espaço vital” americano não tem limite, porque é planetário.

Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA tornaram-se, pela primeira vez na História, uma verdadeira superpotência, um país capaz de agir além das próprias fronteiras e remodelar a política global.

A maioria da população actual da Terra nasceu num mundo cujas instituições, sistemas económicos, leis e fronteiras foram de alguma forma influenciadas pelo gigante norte-americano.

Li cuidadosamente o discurso de Trump na ONU recentemente. Que disse ele?

“ “Os EUA sempre serão a minha prioridade; assim como vocês, líderes de seus países, também devem colocar o seu próprio país em primeiro lugar”, disparou. E acrescentou: “Nada pode substituir nações independentes, fortes e soberanas.”

E é por isso que a 4ª.Esquadra US cruza nas costas da Venezuela, como a 7ª cruza nas costas da Coreia do Sul e do Norte.

Com uma rede de quase 800 bases militares em 70 países ao redor do mundo – além de um vasto leque de acordos comerciais e alianças –, os Estados Unidos consolidaram a sua influência durante décadas, tanto na Europa quanto na Ásia.

Embora o país sempre tenha evitado exercer um colonialismo directo, a promoção do mundialismo ajudou “a abrir as portas das áreas subdesenvolvidas do mundo para o poderio económico dos EUA. Subtil e eficaz.

A estratégia de expansão imperial não colonial, tornou-se a base da política externa dos EUA no século passado. As elites norte-americanas tiraram grande proveito de tal política, embora muitas vezes os benefícios do imperialismo não tenham chegado ao resto da sociedade.

Graças ao status de única superpotência mundial, o país hoje desfruta do “privilégio exorbitante” de ter a única moeda sem lastro do mundo, e os líderes americanos dominam a agenda política e comercial das instituições internacionais.

Com o colapso da União Soviética, em 1990, a confiança imperial dos EUA chegou ao seu auge – o presidente George H. W. Bush chegou a declarar o início de uma “nova ordem mundial” sob a liderança norte-americana.

Joaquim de Freitas disse...

SUITE:



Hoje, a previsão de uma ordem mundial estável e liderada pelos EUA parece nada mais do que uma utopia.
Em vez de assumir o papel de líder mundial e preencher o vácuo deixado pela queda da União Soviética, os EUA deixam-se consumir por crises domésticas e reagem com uma mistura de inépcia e paranóia às crises internacionais.

E, agora que Trump está no poder, fazendo de tudo para afundar a imagem internacional dos Estados Unidos, que nova ordem mundial estará se desenhando no horizonte?

Os EUA perderam a oportunidade de modelar o Mundo do futuro. Os EUA possuem o poder de criar o caos por toda a parte. Mas falta-lhes o PROJECTO para fazer um Mundo melhor.

E por falar de projectos, a China está levando a cabo o seu projecto de conectar todo o continente eurasiano por meio de uma rede chinesa de infraestrutura e transportes – uma ambiciosa empreitada chamada “Um Cinturão, Uma Rota”, uma espécie de Rota da Seda moderna.

Trata-se de uma estratégia política e económica para reorientar uma grande parte do mundo em desenvolvimento para a esfera de influência chinesa. Isto sim, é digno duma grande potência em perspectiva.

Em contrapartida, onde estão os projectos dos EUA? Conquistar todas as fontes de energia do planeta? Esperemos que os líderes americanos aceitem que o seu país seja apenas uma potência entre muitas.

Permita mais um conselho: Leia o historiador revisionista William Appleman Williams no clássico “The Tragedy of American Diplomacy. Vale a pena.

Anónimo disse...

@ sr De Freitas
Obrigado pela sua exposição das 16:13 que só agora vi.
Mas não falou da Rússia que era o meu objectivo de ler a sua opinião. É curioso, porque tem a noção de que os dois imperialistas da nossa época se opuseram nos seus métodos. Mas só sabe do método dos americanos, mais as suas maldades.
Ou seja... para si só os americanos são os maus da fita porque os russos......tinham as suas razões validadas pela expansão do marxismo leninismo.

A expansão do Império Russo nunca foi para oeste mas sim para oriente. Veja-se o caminho de ferro trans-siberiano para a época em que foi construído. E os chineses a aproveitarem-se dessa via agora, com grande estrondo.

Gostei mas.... apenas aprendi a dizer mal dos americanos.

[Sabe... ainda pensei em não fazer nenhum comentário aos seus dois textos. Mas como se diz: toda a nota tem a sua resposta].

Anónimo disse...

@ Sr. De Freitas

Só mais um comentário ao seu 1º texto.

"O “ espaço vital” americano não tem limite, porque é planetário."

Na história das ideias políticas a influênca do pojecto social russo só tem paraleleo com a época napoleónica na Europa e na América latina.

Joaquim de Freitas disse...

Antes de mais, apresento as minhas desculpas ao Senhor Embaixador de estender esta “conversa” .
O meu interlocutor quer absolutamente que “diga mal” da Rússia, de dizer algo de equivalente do que digo dos EUA, em todos os campos. … Mas não consigo e ele não compreende. Não compreende que a Rússia nunca afectou a minha vida. E continua a não afectar. Mas os EUA sim, e continuam. E de que maneira.

Eu sei o que pensam os povos do Ocidente: Que o velho combate entre as democracias e os regimes autoritários está de volta. Três dias de trabalhos em Munique sobre a segurança receberam o diagnostico seguinte: O Ocidente sente-se cercado, desafiado, destabilizado. E os culpados são a Rússia e a China, estas duas potências “revisionistas” que desafiam a ordem mundial e semeiam a dissensão, nos EUA e na Europa.

Pois é, as pobres democracias tremem de medo como as folhas. Mas medo de quê exactamente? A NATO tem um orçamento de 920 mil milhões de dólares, ou seja 19 vezes o da Rússia (48 mil milhões). A NATO alinha 19 tanques contra 1 e tem 19 mísseis contra o único míssil do adversário, e sente-se cercado, destabilizado e desafiado…

Jens Stolenberg fanfarrona que a NATO sobe o esforço militar dos seus membros para 2% do PIB. Pois é, os bárbaros estão à porta…e é preciso justificar as despesas! Os fabricantes de armas agradecem..

Mas para o meu interlocutor anónimo, a Rússia é que está no coração do Império do Mal e quer que eu o confirme. E não posso. Porque a Rússia baixou o seu orçamento militar de 52 para 48 mil milhões.
Mas é verdade que a Rússia tem estranhos poderes. Mesmo de fazer eleger um presidente americano criando contas no Facebook…

Bom jà o escrevi: Os americanos defendem heroicamente a paz no mundo com as suas 800 bases militares. E as manobras militares que fazem às portas da Rússia, são para evitar que os Russos façam a mesma coisa na fronteira do México…

Mas os Russos, esses pérfidos, com 4 bases, 1/13 dos EUA, preparam o apocalipse.

Os EUA, com os seus 12 porta-aviões são para defender as suas fronteiras, ao passo que o único porta-aviões russo está atracado em Manhatan.

Se os EUA utilizam os terroristas na Síria, é para contribuir para a estabilidade no Médio Oriente, ao passo que Moscovo só pensa em pilhar o petróleo da região.

• Cubanos, Vietnamitas, Chilenos, Nicaraguanos, Somalis, Sudaneses, Iraquianos, Afegãos, Líbios, Venezuelanos e Iemenitas, teriam prescindido com prazer da generosidade do Tio Sam. Mas o líder do Mundo não pôde resistir ao prazer de lhes ensinar as virtudes pedagógicas do napalm, do agente laranja, dos B52, das munições de urânio, dos embargos “para a paz, e dos “bombardeamentos para a democracia”, sem falar das hordas de Al-Qaida e dos seus sucedâneos para criar o caos por toda a parte, como na Líbia, preparando assim a nova ordem mundial.

Olhe Senhor Anónimo, não posso dizer a mesma coisa dos Chineses nem dos Russos. Desculpe lá…Mas o Império do Meio não fez nenhuma guerra nos últimos 30 anos e multiplicou o seu PIB por 17. Extraíram 700 milhões de Chineses da pobreza e da fome.

Entretanto, os EUA destabilizaram a economia mundial, vivendo a crédito.
Conheço a China e os EUA. Bastante bem. Passei por là durante anos. Na China, a miséria recuou, e o país progride. Nos EUA ela aumenta. A China é uma horrível “ditadura”, mas deixa-nos em paz. Os EUA dão-nos cabo da tranquilidade e da vida., mas é uma democracia.

Anónimo disse...


@ Se. De Freitas.
Muito obrigado pelo seu texto.
Constacto desde agora que o Sr. decidiu há já muito tempo tomar de ponta os USA ignorando a Rússia no seu ódio aos outros. As minhas perguntas foram no sentido de perceber porque é que "Os EUA dão-nos cabo da tranquilidade e da vida., mas é uma democracia".