Raramente um líder chega à chefia de um grande partido, em Portugal, nas condições difíceis como aquelas que Rui Rio agora vai enfrentar.
Desde logo, a conjuntura política do país não o favorece. O governo surfa uma onda positiva e, se não se envolver em outras trapalhadas por culpa própria, o presidente da República não parece disposto a ser acusado de levantar muitas mais ondas. O espaço para um líder da oposição, ainda por cima ausente da visibilidade da bancada parlamentar, é, assim, muito estreito, tendo ainda de contar com um CDS que tudo fará para potenciar nacionalmente o seu fogacho autárquico lisboeta.
No plano interno do partido, as coisas não lhe poderiam ser mais adversas. Os órfãos raivosos de Passos Coelho dão sinais de se prepararem para lhe puxar o tapete, à primeira curva, desde logo “exigindo” a vitória nas próximas eleições europeias e legislativas - como se fosse fácil a qualquer líder do PSD vir a ter um sucesso, se o atual contexto económico se vier a prolongar. Praticamente, a única (mas não despicienda) arma de Rio é o o seu poder na constituição das listas de deputados (europeias e legislativas).
Rui Rio vai ter, além disso, um teste essencial de coerência.
Numa postura de Estado que muito ajudou a formatar a sua imagem pública de rigor e seriedade, Rio nunca foi conduzido aos caminhos da política “politiqueira”, como a que, por exemplo, procurou explorar demagogicamente a tragédia dos incêndios. Por outro lado, foi sempre um defensor de pactos de regime, sobre grandes temáticas de interesse público, não favorecendo o confronto artificial com o outro lado do espetro político. Veremos se, para apaziguar alguma direita “caceteira” que lhe vai atazanar os dias, Rui Rio é tentado a agravar o discurso confrontacional.
Há um ponto importante que António Costa terá de ter em conta: Rio é uma relativa novidade e, numa vida política em que as caras cansam, o fator novidade é algo com que é sempre preciso contar.
Este vai ser um tempo interessante para a política portuguesa.