sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Relendo os clássicos

"Os diplomatas portugueses passam por agradar no estrangeiro pela sua palidez! Mas não se sabe que a sua palidez vem, não da beleza da raça peninsular, mas da fraqueza de legação mal alimentada. Onde um embaixador português mais se demora, não é diante das instituições estrangeiras com respeito, é diante das lojas de mercearia com inveja! E se eles não podem alcançar bons tratados para o país – é porque andam ocupados em arranjar mais rosbife para o estômago. Se não fossem os jantares da corte e as ceias dos bailes, a posição do diplomata português era insustentável. E ainda veremos os jornais estrangeiros, noticiarem: 

"Ontem, na Rua de… caiu inanimado de fome um indivíduo bem trajado. Conduzido para uma botica próxima o infeliz revelou toda a verdade – era o embaixador português. Deram-lhe logo bifes. O desgraçado sorria, com as lágrimas nos olhos.”

Que o país atenda a esta desgraçada situação! Que tenha um movimento generoso e franco! Dê aos seus embaixadores menos títulos e mais bifes! Embora lhes diminua as atribuições, aumente-lhes ao menos a hortaliça. Eles pedem ao seu país uma coisa bem simples: não é um palácio para viver, nem um landau para passear, nem fardas, nem comendas! É carne! Que o país, no número do pessoal diplomático, diminua os adidos e aumente os bois.”

Eça de Queiroz, em "As Farpas", nº 6, Outubro de 1871

(Em tempo: a transcrição aqui feita, por pura graça, deste clássico texto humorístico de Eça de Queiróz suscitou logo reações, em notas de grave "escândalo" por uma imaginária reivindicação salarial, tudo mobilizado pela psicologia da inveja, que por aí policia os nossos dias. Caramba!, até o humor a "troika" tirou aos portugueses.)

17 comentários:

Anónimo disse...

"Temos um déficit de 5.000 contos. Esta é a negra, a terrível, a assustadora verdade. Quem o promoveu? Quem o criou? De que desperdícios incalculáveis se formou? Como cresceu? Quem o alarga? É o governo? Foram estes homens que combatem, foram aqueles que defendem, foram aqueles aqueles que estão mudos?

(Ontem como hoje)

Um déficit de 5.000 contos não cresceu assim só duma administração; não forma homens vindos de ontem que atiraram assim já ao vento a melhor parte da riqueza da pátria. Mil causas concorreram.

Não é um homem, por mais poderosa iniciativa, por mais tirânica e aquilina energia, que pode, no meio constitucional, arrancar o déficit sem dilacerar o país. [...]

Mas os ministros têm um meio de salvar a pátria, esse meio são os impostos; faça o fisco uma grande razia pela fazenda do povo, saqueie e fuja, e o país continuará caminhando na sua liberal lentidão, gordo de cabedal e grato aos salvadores- [...] Não é. Lançar impostos, vagamente, sem sistema, sem crítica esclarecida, sem justos e longos estudos do país, da sua riqueza, dos seu trabalho, é arruinar, despedaçar, dilacerar a pobre pátria. [...]

Despede-se de tudo generosamente, para dar à mãe pátria. Despede-se sem mágoa, com nobre alegria. Mas será justo que este sacrifício seja para cobrir as prodigalidades dos governos? Que se tire um pedaço de pão do pobre, para dar mais uma farda a um embaixador? [..]

Nuno 361111

margarida disse...

LOL!

Isabel Seixas disse...

Sr.Embaixador essa referência ao texto de Eça e à associação dos bifes para saciar fomes e inibir a palidez, fez-me lembrar o quanto é suculenta a carne barrosã, sem dúvida capaz de revigorar o mais mal nutrido.

Helena Oneto disse...

Genial:)!!!

Faço coro com a nossa grande amiga Margarida; LOL! LOL! LOL!

Beijinhos (aos dois)

C.e.C disse...

Espero que não se importe com a franqueza, sr. Embaixador, mas a citação: "Que o país, no número do pessoal diplomático, diminua os adidos e aumente os bois.", está deliciosa.

Verdade seja dita, até fiquei a pensar num belo naco de Barrosã...

patricio branco disse...

há outros testemunhos que mostram que eça era verdadeiro embora o tom fosse satirico e cómico.
teixeira gomes nas amargas cartas de londres queixando-se que o dinheiro não chegava de lisboa,
a lua de bruxelas de amadeu lopes sabino sobre a triste situação de almeida garrett na legação em bruxelas, e muitos outros testemunhos sem duvida

Guilherme Sanches disse...

Naco de barrosã...
Deixem-me puxar a brasa à minha posta, de vitela mirandesa certificada, com nome, morada, data de nascimento, CV e NIF, da cooperativa de Vimioso.
Alguém provou esta delícia do planalto mirandês?
Antigamente era longe, mas a abertura IC5, que é uma espécie de versão rodoviária do acordo ortográfico (subidas pronunciadas que agora já não são, curvas fechadas que agora são abertas, hífenes de ligação que desapareceram...), veio tirar ao litoral o isolamento em que vivia, dessas e de outras delícias, e agora ir ao nordeste dito remoto é "unstantinho".
Uma sugestão isenta, de que certamente tomarão boa nota.
Um abraço

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador que rico texto foi buscar. O humor, sempre ele, quando bem utilizado vale bem mil discursos.

Caro Nuno 3611111
Excelentes também as peças escolhidas.

Dá, de facto, muito gosto vir aqui à comunhão diária, sem hóstia, mas com prosa!

Anónimo disse...

Senhor Embaixador - cumprimento-o pelo "post", porque o texto de Eça, vai de ano para ano, ficando cada vez mais actual...Gaspar dixit..

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador,
pelo que se tem visto nas últimas décadas, será mais a pancinha dos nossos representantes que tem crescido, e não a sua palidez!

Para tal, acredito que os nacos das mirandesas poderão ter contribuído.

Anónimo disse...

Em Portugal, hoje, no interior do País, mais do que no tempo do Eça, haverá, (há) milhões de embaixadores, de olhos cravado nas lágrimas, à procura de bifes.  
Em Portugal hoje haverá outro Eça ?
Penso que sim para denunciar, de forma  acutilante, como o Embaixador Eça sabia fazer...
José Barros   

Anónimo disse...

Pois é.... ao observar-se a história da diplomacia portuguesa encontram-se casos interessantes: Um Embaixador Extraordinário de Portugal em França no século XVII teve de transformar a sua residência em casino de jogos para angariar fundos para sobreviver. Outro nesse mesmo século teve de sair de Paris de um dia para o outro para fugir aos credores. É assim que penso que a profissão de diplomata é uma vocação que não tem de ser bem remunerada. Mas.... eu não sei.

Julia Macias-Valet disse...

Nao sei se ria, nao sei se chore...

Anónimo disse...

Qual é o sentido, o objectivo deste Post?


gherkin disse...


Apelo a todos os embaixadores em semelhantes condições: Como bom, sensível e caritativo concidadão, terei todo o gosto em oferecer uns suculentos bifinhos escoceses Angus. Aguardo!
Abraço, meu caro, e parabens por ter "cavado" tão satírico texto, já que as fotos ilustrativas dos seus blogues são excecionais!
Gilberto Ferraz

Anónimo disse...

no pessoal diplomatico talvez faltem bois mas nao se preocupe senhor embaixador que nem bois nem galos nem burricos hao de faltar bastar ir se ao parlamento alimentar...

bh

Helena Sacadura Cabral disse...

Deixe lá Senhor Embaixador, a troika há-de ir-se embora e nós ficamos. Já os vi partir duas vezes...