domingo, 14 de outubro de 2012

Um belo jantar

Não fora fácil desenvencilhar-se da meia dúzia de conhecidos, oriundos de outros tantos países que, presentes como ele na reunião que estava a ter lugar naquela bela cidade costeira italiana, haviam tido a ideia de organizar um jantar em homenagem a um colega da Comissão, que se ia reformar e se despedia, na ocasião, dessas andanças europeias. A pessoa em causa nunca fora uma figura que tivesse por muito simpática e além do mais, cansava-o a ideia de ir estar presente em mais um jantar de grupo, cheio de conversa "bruxelense", depois de dois dias de refeições coletivas, oferecidas pela presidência italiana, que tinham entremeado os trabalhos. O que mais lhe apetecia, nessa noite, seria jantar num ambiente agradável, em frente ao mar, aproveitando o belo verão que esse mês de setembro prolongava. E sozinho, que era uma companhia com quem sempre se dera bastante bem.

Em face da insistência dos colegas, e não querendo assumir uma aberta dessolidarização do evento,  que tinham previsto para um restaurante da moda, lembrou-se de engendrar, durante a tarde, o aparecimento de uma súbita indisposição gástrica. Aliás, fez com que ela se fosse progressivamente "agravando" o que, a certo ponto, o "obrigou" mesmo a abandonar os trabalhos um pouco mais mais cedo... para ir recostar-se, com um copo de vinho branco, na varanda do seu pequeno hotel onde, por milagre, ninguém do grupo jantante estava alojado. O alibi era perfeito.

Deixou passar largamente a hora prevista para o jantar, para não correr o risco de encontrar alguém que nele participasse. De t-shirt e jeans, avançou depois discretamente, já com a penumbra a protegê-lo, para uma área junto ao porto, mas bastante distante da zona dos restaurantes mais "trendy". Tinha notado que havia por ali três ou quatro esplanadas que pareciam com graça. Hesitou um minuto entre elas, observou as diferentes cartas expostas no exterior e resistiu aos irritantes convites dos empregados que tentavam caçar clientes. Ainda se tentou a ficar numa dessas mesas junto à rua, que o tempo ameno tornava um lugar agradável para comer, mas teve receio de acabar por ser visto por alguém. Notou que um dos restaurantes tinha um terraço, no andar superior. Disseram-lhe que havia lá lugares. Achou que esse podia ser a sua escolha para uma refeição serena, com um livro que estava a terminar. 

Subiu a escada. Pelo caminho, foi pensando, lembrando-se das opções do menu que estava à entrada, numa bela e cremosa "satimbocca alla romana", que vira servir numa mesa por que passara, talvez acompanhada por um "Villa Antinori" tinto. Teriam 1998? Antes, talvez pedisse uma "mozarella di bufala", com tomate. Antecipou acabar a refeição com um "tiramisu" (ou arriscaria uma "panna cotta", cuja consistência ideal era sempre difícil de atingir?), regada com uma bela "grappa". No conjunto, era tudo um pouco pesado (até porque não dispensaria um "limoncello", a abrir), mas uma noite não são dias e, afinal, a "indisposição" já ia longe. Ia ser um belo jantar.

Chegou ao terraço, em busca do lugar. Foi então que ouviu, ao fundo da varanda, alguém pronunciar o seu nome. Afinou o olhar e deu de caras com uma mesa onde se processava o tal jantar de homenagem, que ali acabara por ter lugar, por impossibilidade de reserva no tal sítio da moda. Não teve como evitar sentar-se num topo da mesa, acedendo ao insistente pedido de todos. Foi explicando, embrulhado nas palavras, algumas melhoras que entretanto começara a sentir, pelo que ousara arriscar comer "alguma coisa grelhada, muito leve". Deu conta, desconfortável, que o seu traje era bem mais "light" do que o de todos os restantes, onde imperava um adequado "esporte fino", como dizem os brasileiros. Os colegas olhavam-no, num visível misto de sentimentos que ia desde o sincero ar compungido pelo seu "mal-estar" a incomodativos olhares irónicos, onde lia alguma incredulidade com a situação. O homenageado, à distância, fitou-o com um sorriso estranho e lançou-lhe um "ainda bem que pôde juntar-se a nós. É pena estar de dieta, porque esta comida e este vinho estão divinos". Pois era, e sorriu, amarelo, servindo-se de uma "San Pellegrino", a "fazer boca" para um inevitável peixe grelhado, porque, como alguém logo sugeriu, cuidadoso, com estas coisas do aparelho digestivo não se brinca... 

15 comentários:

Anónimo disse...

O texto leva o leitor para uma surpresa que se adivinha. Só não sabiamos como a "indisposição grástica" se iria comportar à mesa de tão ilustres convivas.
Afinal foram dois flagelos: aguentar os olhares coriscos, renunciar ao prazer do bom repasto para que entretanto se havia preparado...
Ah sinceridade, sinceridade, ao que nos obrigas !
José Barros
      

Helena Oneto disse...

Ah! Este jantar é (mais) uma delicia que regularmente nous oferece, meu caro Embaixador:)!
E tão bom rir consigo:)

Anónimo disse...

Saiu para tosquiar e voltou tosquiado!
São coisas da diplomacia.

La Mère Supérieure disse...

Esse texto daria um bom filme para Mr. Bean.

Helena Sacadura Cabral disse...

Continuando na senda dos adágios populares diria "gato escondido, com cauda de fora..."

patricio branco disse...

às vezes assim acontece, virou-se o feitiço contra o feiticeiro, se se pode aplicar por aqui o dito.

Isabel Seixas disse...

Oh!... Já tinha tido degustado o manjar todo na expectativa, além do processo prévio de salivação.

Anónimo disse...

quem seria o tao esfaimado diplomata?

o sr embaixador porventura...sabera?


bem haja

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 19.49: não faço a mais leve ideia, mas deve ser alguém que andava nas lides europeias. E há tantos...

Anónimo disse...

Delicioso.Quem seria o artolas? Gato escondido com rabo (se o gato for de escritor ou diplomata, cauda) de fora.Acontece muito com a minha "Bosques da Noruega".

Helena Oneto disse...

Eu penso saber quem é o diplomata... mas não digo:)!

gherkin disse...

Suspense, suspense, com um extraordinário e invejável conhecimento da gastronomia italiana! Pobre vida diplomática! Infeliz e martirizada vítima, que viu os seus bem planeados projetos, de um simples e sossegado jantar por água, perdão, San Pelegrino, abaixo!
Boa essa! Que soberbo raconter!
Abraço,
Gilberto

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Anónimo das 20:33
Não calculo - ou até posso desconfiar quem seria o gourrmet - mas a sua distinção entre "rabos" e caudas" deu-me imensa vontade de rir!

EGR disse...

Senhor Embaixador: neste tempo em que tudo se conjuga para nos afundar na tristeza é bom que alguem nos propocione momentos em que acabamos por rir.
Com o post de hoje V.Exa deu-me essa opurtunidade.

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Isabel Seixas disse...


Personalizando,
O mais dificil ter de deixar
o "tiramisu" .