sábado, 6 de outubro de 2012

Fundações

Na razia das fundações que por aí vai, li o nome da "Fundação maestro José Pedro", em Viana do Castelo, como uma das que poderia acabar. Não lhe conheço a história, nem tenho a menor ideia sobre se a sua atividade tem maior ou menor mérito. Mas, confesso, preocupa-me o seu destino.

Porquê? Porque o edifício que ocupa foi o local onde, até aos meus 17 anos, passei todas as minhas "férias grandes". Andei muito por ali, por aquela casa para onde os meus avós paternos vieram viver, em 1912, chegados de Ponte de Lima. 

Conhecia todos os cantos àquela casa. Com a curiosidade de um visitante regular que, da infância à adolescência, ia mudando de interesses, explorei-lhe todos os lugares, sabia onde "iam dar" alguns falsos armários, que eram misteriosas ligações entre espaços longínquos. No imenso quintal, depois reduzido por opções imobiliárias, tenho algumas das minhas primeiras fotos. A "loja", com solo térreo, que tinha zonas onde ninguém ia, não tinha segredos para mim. Recordo a grande sala do 1º andar, com um teto magnífico, onde estava pintada uma cena da mitologia grega, lembrando a que fora sala de música. A casa havia sido um colégio e, no 2º andar, ainda havia números nas portas de alguns quartos. No alto do edifício havia, nesse tempo, a "torre", um saguão para onde se subia por uma escada esconsa, lugar onde havia de tudo, com bela vista para a doca e para o largo onde se fabricavam as cordas, para o qual eu era atraído em muitos desses meses de agosto. Tenho na memória, talvez mais presente porque era o local diferente daquele onde eu vivia o resto do ano, uma imensidão de momentos percorridos por aquelas salas, com os meus pais e com a minha avó (o meu avô morrera já em 1922), com os meus tios e primos, em tempos muito diversos, com alegrias breves de infância, edulcoradas pela seletividade da memória, com outros menos agradáveis, determinados pelas leis da vida.

Hoje, quando por lá passo (e passo muito por lá), olho aquelas janelas onde por muito tempo apareciam, sentadas nos bancos de pedra que moldavam o interior das janelas do topo, a minha avó Filomena e a minha tia Zé, que o meu pai designava pelo "comandante" e "imediato" desse que sempre foi o barco da sua saudade eterna, no seu agradável exílio transmontano. Há algumas décadas que não entro naquela casa, através da bela escadaria de pedra do largo Vasco da Gama ou da escada elegante da rua dos Rubins.

Nesta estranha questão que envolve as fundações, verdadeiramente, só tenho esta preocupação. Fica aqui esta declaração de interesses, "à toutes fins utiles".

8 comentários:

patricio branco disse...

bonita evocação duma casa e duma infancia. assim é, a ou as casas da nossa infancia, as salas, os sitios escuros, os moveis, as salas praticaveis e as fechadas, os parentes que lá viviam ou iam de visita, tanta memoria que nos vem e a fixar. bonito e expressivo texto e bonita ilustração

Isabel Seixas disse...

De repente rememorando em cadência
um desenrolar de réplica do ramalhete
que completo atual na clarividência
inclui emoções geradas pelo palacete

até no teto graal épico inspirador
quem sabe flanando as faces dos cupidinhos
capturando olhares ao jovem sonhador
rendido ad aeternum aos seus segredinhos...

mas como Eça divulga vontades de nos dar
assim nos apetece ir subir ao saguão
e cada um auferir da arte de divagar

estrelas cadentes nossa individuação
vamos também,Domingo de parca esperança
Lá, buscar, o que hoje nos falta, a bonança...

Anónimo disse...

Pois é.... O que o mundo mudou.... em meio século... e então Portugal... nem sempre se tem essa noção. Será agora o corte epistemológico.... eu não sei... se a crise existente o irá produzir.

Portugalredecouvertes disse...

Gostei muito do texto

seria bom que todos os portugueses escrevessem para defender os lugares das suas memórias

se não formos nós a fazer,muitos desses lugares irão desaparecer nas brumas do futuro estéril e padronizado

Anónimo disse...


Cara Isabel Seixas
Pede-me a velha senhora que lhe reitere a amizade e ternura que tem para consigo e diz esperar que não leve a mal a brincalhotice.

que sonetão boa isabel
as rimas dão - e sai 'rappel':

'De re'… cadência
do ramalhete
clarividência
plo palacete

inspirador
dos cupidinhos
ao sonhador
seus segredinhos

como nos dar?
ir ao saguão
e divagar
ind'viduação?

parca esperança
falta a bonança

Anónimo disse...

Guarde o texto em papel, porque quando não houver electicidade a todas as horas o poderá ler à luz da vela, ou se me permite a sugestão: lê-lo em voz alta para os que se chegarem a uma só sala para "poupar" na lenha. Com os gestos e a entoação dada a cada porta fechada e aberta vai espevitando a vela, e, as mentes dos seus amigos, com o encanto misterioso de um tempo que tão bem descreveu numa acalmia saudável para nos temperar este tempo presente tão remoinhoso.

Isabel Seixas disse...

Sr.embaixador se me permite Agradecer

Ó cara velha amiga obrigada e disponha achei a adaptação uma delicia e bem conseguida.
Posso fazer coro se quiser com um vinho do porto ou um favaios para afinar a voz.

PSRetribuo a afeição.




Helena Oneto disse...

E tão bom relembrar os anos em que tinhamos (ainda) avos e pais e onde fomos inocentemente felizes. A casa que descreve é linda! Muitos dos pormenores lembram-me a que foi minha até aos 19 anos.
Adorei este post por muitas razões:):)...
Bien à vous, cher ami!