quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Augusto de Carvalho

A consciência do tropismo para registos necrológicos, em que este blogue tende vulgarmente a cair, terá sido subliminarmente responsável pela omissão que aqui fiz, há cerca de dois meses, quando desapareceu a figura de Augusto de Carvalho, um jornalista sui generis que, há duas décadas, decidiu ir para Moçambique, a grande afeição da sua vida.

Augusto de Carvalho desempenhou um papel muito interessante, e pontualmente muito importante, na imprensa portuguesa. A história do "Expresso" não seria a mesma sem ele, jornal de que chegou a ser diretor. Mas por outras aventuras de imprensa, como a curiosa fase da "Vida Mundial" depois de 1966, ele deixou também o seu nome. 

Conheci-o brevemente, numas almoçaradas, através de um amigo comum, no final dos anos 70. Recordo o sotaque e o ritmo de voz, que não iludia o seu percurso religioso anterior: Augusto de Carvalho chegou a ser padre.

Ontem, em conversa com um amigo à distância, este lembrou, a propósito de uma historieta africana que por aqui contei há dias, um episódio curioso que lhe fora relatado por Augusto de Carvalho, referente a uma sua anterior estada em Moçambique, já depois da independência do país.

Um dia, ao sair da praia, no Maputo, um grupo de jovens pediu-lhe boleia. Na conversa, a caminho da cidade, interrogaram-no sobre a sua profissão. Ele esclareceu que era jornalista e disse o seu nome. A reação de uma das jovens ficou-lhe para sempre gravada:

- Ah! Você é o Augusto de Carvalho do nº    (e disse o número do telefone do jornalista)? Eu trabalho nas escutas dos telefones. Você fala tão depressa e diz coisas tão estranhas! Já desisti de acompanhar as suas conversas...

PS - Deixo uma fotografia bem antiga do Augusto de Carvalho onde, se me não engano, figura também o meu amigo José Mário Costa, quando ambos coincidiram no "Expresso". 

5 comentários:

João Melo disse...

deliciosa estória

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai! Senhor Embaixador, isto das escutas dava para fazer a História de uma boa parte do século XX em Portugal... E ainda não havia telemóveis nem GPS. Era só a Pide!

Anónimo disse...

As "escutas" deve ser como ler a correspondência dos presos. Tenho um amigo, agora reformado, que em tempos fez isso: ler a correspondência dos presos... 
Ao principio era arrepiante! Disse-me ele um dia. Depois nem tanto... 
A diferença nestas duas práticas é que os presos estão privados de liberdade enquanto que as pessoas que são escutadas não.
Mas as duas regras são práticas de regimes "de elevado grau democrático".
José Barros 

ARD disse...

Em pleno PREC, quando a vida lisboeta regurgitava de agentes da CIA, do KGB, dos SDECE e quejandos, dizia-se que o Augusto de Carvalho era um agente secreto do Vaticano.

ARD disse...

Em pleno PREC, quando a vida lisboeta regurgitava de agentes da CIA, do KGB, dos SDECE e quejandos, dizia-se que o Augusto de Carvalho era um agente secreto do Vaticano.