sábado, 13 de outubro de 2012

Ribeiro Santos


Passam hoje 40 anos sobre a data do funeral de José António Ribeiro Santos, um militante das estruturas de juventude do MRPP, força política de que já aqui se falou. Ribeiro Santos foi morto por um agente da PIDE/DGS, que, na ocasião, também feriu o então estudante e hoje advogado José Lamego, durante uma escaramuça gerada numa reunião universitária, em Lisboa.

Não conhecia nem nunca tinha ouvido falar de Ribeiro Santos, como não tinha nada a ver com o MRPP. Porém, tal como muitas centenas de pessoas, desloquei-me ao seu funeral, numa homenagem a alguém que tinha sido assassinado pela polícia política e também porque queria integrar o que se sabia que iria transformar-se numa ação pública anti-regime. Sabíamos nós e sabia a polícia, que recheou de agentes, fardados e à paisana, o largo de Santos, em frente à igreja, junto à casa de onde sairia o corpo. Fui com um colega da Caixa Geral de Depósitos e que, mais tarde, seria ministro das Finanças de Moçambique, Abdul Majid Osman. Era um sábado e trabalhava-se nas manhãs dos sábados de então.

Colocámo-nos no hoje ainda existente "triângulo" de passeio do largo, em frente à casa. Depois de alguns tensos minutos de espera, a multidão, que estava bastante silenciosa e apenas murmurante, agitou-se com o surgimento do caixão na porta da casa. Porque estava bastante perto, notei que se gerou uma curta discussão entre pessoas que pretendiam que ele fosse deslocado para um carro funerário e um outro grupo que acabou por afastá-lo da viatura e colocá-lo aos ombros (uma das pessoas era o atual deputado João Soares, que se vê na imagem, à frente, do lado esquerdo), logo se encaminhando para a rua das Janelas Verdes. Nesse instante, a multidão, à frente da qual acabei imprudentemente por encontrar-me, procurou avançar atrás do caixão, tentando criar um cortejo, na direção do cemitério da Ajuda.

A ideia da polícia era, porém, muito diferente. O cortejo não devia ainda ter avançado mais de 50 metros quando um cordão de agentes se interpôs, entre nós e as pessoas que transportavam o caixão, quase provocando a queda deste e forçando, à bastonada, o nosso recuo. Os manifestantes começaram a gritar "assassinos" e o habitual "abaixo o fascismo", o que teve óbvio condão de atiçar a violência policial. Por um azar, vi-me de repente encurralado junto a um automóvel e, ao voltar-me, só tive tempo de afastar a cabeça do bastão de um polícia, que se abateu fortemente sobre um dos meus ombros. Tombei ligeiramente e foi graças à ajuda do Abdul Majid Osman que consegui afastar-me, correndo em direção à zona da embaixada de França. A polícia perseguiu-nos ainda pela rua das Trinas acima. Uma hora mais tarde, ainda fomos ao cemitério da Ajuda, onde houve mais correrias e palavras de ordem.

É esta a minha recordação do funeral de Ribeiro Santos, figura que o MRPP, a partir de então, converteu num seu símbolo. Eram assim esses últimos tempos da ditadura portuguesa. Um ano e meio depois, iria ter um grande gosto em ajudar a acabar com ela.

14 comentários:

Anónimo disse...

de ERA UMA VEZ

Sábado à noite.
Outro.

E os dedos vagueando no teclado
e o comando aqui ao meu lado
sempre a jeito sempre pronto a viajar comigo na tal caixinha que mudou o mundo e de alguma forma me mudou a vida. É que, imagine-se, lhe dei os meus dois filhos...

Ontem ali estavam actuando e festejando no palco a sua paixão.
Ele e ela, tempos e artes diferentes,e o Coliseu ali todo
unido na memória de um sonho comum e ternurento de quem foi capaz de escrever uma página em branco e em pouco mais do que um instante... já lá vão vinte anos

Hoje vou saltitando e fico aqui vidrada no concerto de Pedro Barroso, canal Porto.
Música poemas e forma de cantar de quem sabe da sua arte, consciente do momento e da estética.

Sem lamúrias
traz-me presente e passado.
(Passado onde me encontro e onde não gosto de voltar vezes demais por ser tão precioso...)
Talvez para não devassar.

...e nasce em mim esta vontade de lembrar essa gente do meu país. Continuam trovadores e pouco mais.
O problema é que voltam a ter razões para cantar.

Também eles,noutro tempo, cantando nos levaram a acreditar num país diferente-
E neste momento põe o Rivoli em coro
"viva quem canta que quem canta...
canta traz no peito
no peito traz um País...
O concerto acaba agora mesmo.Fantástico.

E o Barroso,o Pedro claro, imenso no peso e no talento com toda a dignidade do mundo, faz-me sentir o maior orgulho de saber que é esta a minha geração.
Claro que também se cometeram erros.

Mas e o resto?Tanto tanto...sonho, cumplicidade, coragem.

Não peço desculpa. Estão a tirar-me quase tudo aquilo de que me orgulho.
Isso nunca vão conseguir.

Bem haja Sr. Embaixador pelas memórias que tantas vezes nos traz.

Anónimo disse...

Acabar com ela?

Acabou sim com a revolução em marcha e com o M.R.P.P.

Os resultados estão à vista.

Felismente parece que a resignação começa a dar em indignação.

A ver vamos...

Luis Miguel Correia disse...

Lembro-me desses tempos, tristes e prepotentes. Tudo muito estúpido. Estupidez, um fenómeno que continua a adjectivar a nossa vida nas mais diversas perspectivas. Pelo menos acabou a Direcção Geral de Segurança...

Catinga disse...

Eu cá acho que cada vez que alguém tem a pouca vergonha de comparar uma situação de crise económica com uma ditadura, devia de levar uma forte bastonada... na cabeça. Talvez o "choque" pusesse o cérebro a funcionar.

É de dar a volta ao estômago, irra!

ié-ié disse...

À frente com o caixão aos ombros, João Soares.

LPA

Isabel Seixas disse...

Me perdí en un cruce de palabras
Me anotaron mal la dirección
Ya grabé mi nombre en una bala
Ya probé la carne de cañón
Ya lo tengo todo controlado

Y alguien dijo no, no, no, no, no
Que ahora viene el viento de otro lado

Déjame el timón

Y alguien dijo no, no, no

Lo que no llegará al final
Serán mis pasos, no el camino
No ves que siempre vas detrás
Cuando persigues al destino

http://letras.mus.br/fito-fitipaldis/614056/#selecoes/1664969/

Anónimo disse...

Este post fez-me lembrar um dia duplamente triste no ISEG: pelo susto (ia ter aula no local onde Ribeiro Santos foi morto, mas só não cheguei a entrar no anfiteatro por estar a aguardar que se resolvesse a situação de alguém "apanhado" pelos estudantes; tinha acabado de entrar o então Presidente da Associação de Estudantes, com 2 "senhores", para identificarem o "apanhado". Claro que, mal entraram no anfiteatro, houve tiros, tendo saído lá de dentro, em corrida desenfreada, os 2 "senhores" e o "apanhado", que desceram as escadas ao lado do anfiteatro e se refugiaram na então esquadra da PSP das francesinhas) e, depois, de muita tristeza (vi ser retirado do anfiteatro Ribeiro Santos, que não conhecia, sendo visível um buraco e muito sangue nas costas. O choque foi enorme. Passei a respeitar a memória de Ribeiro Santos que, à sua maneira, deu a vida lutando pela liberdade.

Polícia Sinaleiro disse...

O "Catinga" deve ter emprego garantido e para a vida, senão saberia o que é levar com a PIDE e Censura contemporâneas: o desemprego e/ou "empregadores" aparentados com capatazes.


Cheira tanto a bafio como a Brigada do Reumático cheirava no seu tempo, mas ainda não se deu conta disso.

Catinga disse...

"Polícia sinaleiro", o que vale é que o trânsito já não precisa de vocês para nada... Estão em extinção, e bem! Apre!

Anónimo disse...

Foi assim. Temos mais quarenta anos! Bem haja pelas memórias que nos vai trazendo... Recordo, mas não tenho saudades nehumas desse tempo. Tem razão o seu admirador Catinga.

Anónimo disse...

Isso já era queda para os lados de França, rsrsr.

Aposto que a outra parte também lamentou a morte deste estudante.

A mim irrita-me o aproveitamento bestial à cobiça.

Tirando a família do pobre estudante...

Anónimo disse...

Pois é .
O Catinga tem toda a razão.
Comparar aqueles tempos com estes é de quem ou não os viveu , ou não os leu/estudou ou não está bem da cabeça .
Admito que os problemas que nos afligem levem muitos a confundir e baralhar tudo mas só por evidente má fé se podem esquecer que nessa altura havia tudo aquilo de que se queixam agora (em pior) e ainda , em cima disto tudo , uma ditadura com o seu cortejo de censuras reais , prisões efectivas e guerras sem sentido onde se morria.
Tornar esta página , a quem tanta informação isenta devo , numa sucursal das páginas de comentários de pasquins populistas , tenham lá paciência , mas não vale !

PS- Aparece "anónimo" porque não consegui publicar de outra forma.

patricio branco disse...

boa reportagem presencial 40 anos depois. curiosa a fotografia a que ilustra.

Anónimo disse...

Caro amigo
Quem diria que, passados 40 anos, viesse a saber que vivemos momentos angustiantes relacionados com este que hoje relata. Por ser um pouco mais velho, dois dias antes, 12 de Outubro de 1972, vi-me envolvido nos incidentes desse dia, não como estudante mas já como docente. As consequências não foram agradáveis. Há anos, o Presidente do actual ISEG, por mero acaso, viu os documentos da época que testemunham esse meu envolvimento. Assisti, então, à homenagem ali realizada à memória de Ribeiro dos Santos. Não desejamos voltar a esse tempo. Assim saibamos, cidadãos e políticos, respeitar as regras do jogo democrático!
José Honorato Ferreira