quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Alemanha

Ontem, ao observar o modo como a chanceler alemã foi recebida em Atenas, dei comigo a pensar no constante peso da História no modo como os países mutuamente se olham.

Um dia há-de fazer-se um historial da germanofilia em Portugal, não necessariamente numa perspetiva caricatural, ligada ao tempo da 2ª Guerra mundial, mas numa dimensão temporalmente bem mais alargada. 

No que me toca, e embora seja pouco dado a tropismos por pátrias alheias, sempre me senti um pouco "germanófilo", pela grande admiração que tenho pelo esforço notável de reconstrução e reconciliação interna daquele país, pela forma correta como nele foram e continuam a ser acolhidos os migrantes portugueses, pela constante seriedade colocada pela Alemanha nas relações económicas com Portugal. Nunca esqueço também o modo amigo como o antigo chanceler Helmut Kohl tratou o caso português nas instituições comunitárias e, já posteriormente, outras atitudes que muito nos ajudaram naquele contexto, de que fui testemunha próxima. No futuro imediato, espero poder sustentar razões para, à minha maneira, continuar a ser "germanófilo".

Na carreira diplomática portuguesa, a germanofilia foi sempre uma corrente minoritária, sendo superada, à evidência, pela anglofilia, pela francofilia e, um pouco mais tarde, pela americanofilia.

Nesse particular afeto por Berlim (e, temporariamente, por Bona), alguns mostraram sempre um zelo fora do vulgar. Um dia dos anos 90, um desses colegas foi "premiado" - reconheça-se, com algum exagero - com o aparecimento na porta do seu gabinete de um cartaz com dizeres que copiavam os modelos existentes nas fronteiras que, em Berlim, delimitavam o setor americano. Nesse cartaz podia ler-se: "Achtung! You are leaving the Portuguese sector".

Os anais das Necessidades, onde esta historieta é bem conhecida, não registam o nome do autor da brincadeira. Ainda bem. 

8 comentários:

Anónimo disse...

Ich warte fur Sie, mein Bortschaft. Telephonieren mir, bitte

a) Felizian von Holz

Anónimo disse...

Confesso que adoro estas pequenas histórias da diplomacia portuguesa, que o Senhor Embaixador relata com tanta mestria.

Sem conhecer nem o contexto, nem as pessoas, nem os objectivos, registo o humor com que foi feito.

Nuno 361111

Anónimo disse...

Os alemães têm essa dicotomia, tanto o mal como o bem sabe fazer com perfeição.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador era o apreço e o zelo que tinham pelo "nosso" espaço. O valor e o respeito nas nossas democracias era grande e podia-se ter tabuletas delimitando áreas reservadas p. ex. às embaixadas sem medo nenhum. Verifiquei o mesmo nos primeiros anos da década de oitenta em Seul. Para além da Base, os americanos tinham os seus táxis, pequenos autocarros escolares e desportivos correndo pacificamente pela cidade. Não sei se hoje seria mesmo assim. Na Europa, não haverá muita gente a julgar que alimenta as "cigarras" do Sul? Melhor seria se eu nem estivesse a escrever "Sul da Europa" mas apenas Europa! Por mim continuávamos na orientação da velhinha "Aliança com a Inglaterra" mesmo que os percalços fossem os mesmos... A Inglaterra carimbava a permanência dos portugueses em turismo com uma margem de dias diferente para os portugueses da Metrópole e da Madeira. O reconhecimento "mais que justo" - de que os madeirenses trabalhavam para eles há décadas com grande lealdade - via-se na facilidade com que nos davam 6 meses de permanência enquanto turistas e pela rapidez com que os funcionários mais antigos da Alfândega levantavam a cabeça para nos olharem de frente. Isso antes do 25 de Abril. Não era muito mas deixáva-nos a pensar no apreço que tinham pelos nossos (e)migrantes da ilha, a quem entregavam a responsabilidade por secções dos grandes armazéns ou quarteirões inteiros... de Park Lane. Também nessa altura ainda havia consideração pelo trabalho que não se confina às folhas de excel.

ARPires disse...

Tenho uma simpatia redobrada pelo povo alemão, desde que vi um filme sobre o reerguer de Dresden.
Ao fim de vinte e cinco anos tinham reconstruido a cidade e nós no mesmo tempo decorrido e com todo o dinheiro que nos foi dado, tínhamos feito uma autoestrada.
Por isto e não só, também sou germanófilo.

Anónimo disse...

Pois é.... Nem o casamento de D. Maria II com um príncipe alemão fez com que a influência alemã se sentisse mais neste país. Estamos muito longe da Alemanha a nível intelectual ou mental. No entanto a nível científico, e dou o exemplo do Observatório Nacional na tapada da Ajuda, foi sempre importante. Mas o grande público não pode ter essa noção. Mas... eu não sei

Anónimo disse...

"há de" - AO

Anónimo disse...

O modo como a chanceler alemã foi recebida na Grécia não terá tanto a ver com a germanofilia ou a germanofobia dos gregos mas mais com a noção que eles têm da politica imposta pela chanceler e cujas consequencias eles ressentem.
José Barros