Já não passava pelo aeroporto de Frankfurt há alguns bons meses. Ontem, ao perder por ali algumas horas, esperando ligação para um destino bastante distante, cruzei-me mentalmente com um tempo em que, invariavelmente, por lá andava quase todas as terças-feiras, a caminho de Lisboa, vindo de Bruxelas, em anos em que, nesse dia da semana, não havia voo direto ao fim do dia e em que eu tinha a negociação do tratado de Amesterdão sob a minha responsabilidade.
Frankfurt é um dos mais movimentados aeroportos do mundo e, com a sua dimensão, tornou-se hoje extremamente desconfortável, não obstante a inegável eficácia do serviço que presta. As distâncias a percorrer são imensas e há um "stress" no ar que não é nada saudável.
Ao andar por aqueles longos corredores, foi inevitável recordar o cansaço daqueles fins de tarde dos anos 90 e, em especial, o padecimento por que passava um colaborador e grande amigo meu, hoje embaixador num "hotspot", cujo perfil físico sempre causava insuperáveis suspeitas aos homens da segurança, que o obrigavam, para gozo dos restantes acompanhantes, a um "strip-tease" num reservado, do qual saía a bufar, com imprecações impublicáveis e comentários que faziam regressar os alemães a tempos por eles esquecidos.
Assim, ao calcorrear aquele aeroporto, por áreas bordejadas daquilo que para alguns ainda são tentações consumistas, dei comigo a dar graças por ter-me libertado, de há muito, da vida de viajante aéreo regular. Ainda me recordo do tempo em que viajar e passar por aeroportos tinha um certo "glamour" e funcionava como um sedutor choque de cosmopolitismo. Hoje, com a hiper-segurança, com as limitações e os controlos, viajar de avião tornou-se numa grande chatice. Por vezes inevitável, como ontem me aconteceu.
