sábado, fevereiro 26, 2022

O papa e a guerra

Ontem, no termo de uma intervenção no Jornal das Oito, da TVI, decidi recordar que, nessa manhã, o papa Francisco se tinha deslocado à embaixada da Federação Russa junto da Santa Sé. 

Tinha lido a notícia, durante o dia, algures na internet (mesmo nestes tempos de guerra, vejo muito pouca televisão), mas fiquei com a sensação de que o gesto quase não havia sido destacado. 

E, contudo, ver o líder da igreja católica a ter aquela atitude de modéstia foi algo que me impressionou fortemente. Um chefe de Estado a fazer o que pode ser considerada como uma espécie de “diligência moral” é uma atitude sem precedentes.

Na altura, tive a tentação de contar, em estúdio, um outro episódio que faz parte da memória das relações internacionais. Mas contive-me: relatar ali a “graça” de que me tinha lembrado menorizaria a dimensão do ato do papa Francisco.

Relembro-a agora. Conta-se que, em 1935, Stalin, teve um conversa em Moscovo com Pierre Laval, então ministro dos Estrangeiros de França (com justiça, pelo que fez futuro, a História iria dar a Laval um “infamous” lugar e um fim trágico). Laval ter-lhe-á dito que o papa Pio XI havia criticado as perseguições aos cristãos na URSS. A resposta desdenhosa do líder russo ficou nos anais: “E quantas divisões é que tem o papa?”

Não sabemos o que Putin possa ter respondido ao receber a mensagem de ontem do papa Francisco, cujo conteúdo também desconhecemos. Isso é indiferente, até porque o presidente russo não tem cara de quem é dado a um “bon mot”. O atual papa fez apenas aquilo que entendeu dever fazer. 

E até eu, um empedernido ateu, não consigo deixar de sentir um particular apreço por este excecional argentino, um homem que gosta de futebol e que consegue o milagre, com este seu gesto de humanidade, de me reconciliar pontualmente com uma liturgia a que sempre me senti alheio.

sexta-feira, fevereiro 25, 2022

A palavra do ocidente


Numa noite do primeiro semestre de 1996, no edifício da União Europeia, o recém nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa, Yevgeny Primakov, jantou com os seus homólogos dos então “Quinze” (ou quem os substituía, como era o meu caso). Havia uma grande curiosidade em conhecer a nova cara do Kremlin para a política externa.

E Primakov não desiludiu. O tempo era relações distendidas com a Rússia. Primakov parecia ser um homem ponderado e equilibrado, tendo deixado uma excelente impressão.

A questão essencial que, nessa altura se discutia, eram os futuros alargamentos da União Europeia. Primakov não escondeu que, em Moscovo, o avanço das fronteiras da União até à Rússia era visto com algum desconforto. “Mas Yeltsin não se vai opor a isso, desde que a União Europeia não venha a promover, no seu seio, estruturas de natureza político-militar que possam representar uma espécie de ‘entrada na NATO pelas portas traseiras’, porque, como sabem, há um entendimento muito claro de que a NATO não se alargará para Leste da fronteiras alemãs”. Fixei bem estas palavras de Primakov.

A doutrina divide-se hoje sobre a natureza dessas garantias, mas é indubitável que o ocidente - leia-se, os EUA - tinham deixado mensagens políticas nesse sentido. E que, por essa razão, essa convicção estava firmada em Moscovo.

Mas também sei, por ter viajado nesse mesmo ano por vários dos países candidatos ao alargamento da União Europeia, conversando com os seus governantes, que as suas ambições em matéria de reforço da sua segurança não se ficavam por um mero lugar à mesa da União. Mais do que isso, esses Estados tinham “padrinhos” dentro da União Europeia que, mais ou menos abertamente, confortavam o seu mais ambicioso desiderato - aderir à NATO.

A noção que fui colhendo é que esses Estados, se bem que considerassem interessante integrar a União, como forma de reforçar o seu desenvolvimento, percebiam bem que, se acaso “as coisas dessem para o torto” na relação com uma Rússia que derivava rapidamente no sentido do autoritarismo, quem os poderia defender era a NATO, ou melhor, eram os EUA, vencedores da Guerra Fria.

O ocidente mentiu à Rússia? Talvez não. O ocidente terá feito promessas políticas, de modo político e não formal, a uma “outra” Rússia. A Federação Russa perante a qual os EUA e as estruturas ocidentais terão feito essa promessa política não foi exatamente a mesma a partir do momento em que Vladimir Putin assumiu o controlo, quase pessoal, do poder em Moscovo. O ocidente, ao fazer essa promessa, estava a falar com uma Rússia com a qual tinha sido possível estabelecer uma parceria, mecanismos de confiança, de diálogo e de cooperação. A Rússia de Putin passou a ser outra Rússia. E Putin, note-se, está no poder há muito tempo, já conta no seu currículo de contra-partes com cinco presidentes dos EUA.

Pode dizer-se que o comportamento de alguns países candidatos ao duplo alargamento à União Europeia e à NATO, na acrimónia oficial contra Moscovo e até, em alguns casos, no tratamento injusto das minorias russas no seu território, não contribuiu para o atenuar da tensão histórica que já vinha dos traumas da União Soviética. É verdade. Mas nada é comparável, sejamos justos, com o ambiente de intimidação que tinha como fonte a Federação Russa, em especial - e isto é importante - titulado por um poder em Moscovo onde já quase tinham desaparecido, quase por completo, os “checks and balances” que existem em Estados que funcionam sob instituições democráticas. Como ontem se comprovou.

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

“A Arte da Guerra”


Falar sobre a situação na Ucrânia é como tentar atingir um alvo em movimento (peço desculpa pelo uso de uma figura de cariz bélico, mas está no “l’air du temps”). O podcast “A Arte da Guerra”, a conversa com António Freitas de Sousa para o “Jornal Económico”, foi, esta semana, gravado na manhã de terça-feira, dia 22. Como só hoje foi para o ar, alguma desatualização era inevitável, nomeadamente a que decorre do ataque russo à Ucrânia. Mas acho que o que ficou dito vale a pena ser ouvido.

Pode ver e ouvir aqui.

quarta-feira, fevereiro 23, 2022

Leonor Xavier


Recordo-me de uma conversa telefónica com a Leonor Xavier, em data que não posso precisar, na qual ela me disse, com grande entusiasmo, que estava a trabalhar num livro feito com base em alguns dos seus primeiros diários. A Leonor estava já muito doente, no meio de ciclos sucessivos de exames e internamentos. Nessas derradeiras conversas, sua voz estava marcada pela enfermidade, comigo a hesitar prolongar o diálogo, para evitar cansá-la. Arguta como era, devia sentir que tinha a vida a prazo. Alimentava-se visivelmente desse tipo incessante de atividade porque, para ela, cada livro era como que uma etapa mais de um percurso que se esforçava por percorrer, que duraria o que tivesse de durar. A Leonor morreu em meados de dezembro do ano que passou.

Ontem, no “ El Corte Inglés”, muitos dos seus inúmeros amigos estiveram no lançamento daquela que será a sua obra póstuma, “Adolescência”. Foi um belo momento. Se bem que muita gente estivesse comovida, fiquei com a sensação de que todos sentíamos que, se acaso a Leonor ali estivesse, não deixaria que perdêssemos o sorriso. Foi assim que o evento se passou num registo alegre, com a falta da Leonor atenuada pela memória imensamente positiva que, para sempre, todos dela conservamos

terça-feira, fevereiro 22, 2022

Não sejamos otimistas


Não tendo uma natural vocação masoquista, dei comigo a pensar, no final da tarde de segunda-feira, por que razão, por quase uma hora, me entretive tanto a ouvir, numa muito profissional interpretação simultânea (num site russo, em espanhol), a integralidade da comunicação que Vladimir Putin fez ao país e ao mundo.

Muito daquele arrazoado tinha um tom algo críptico, historicamente justificativo, num registo e adjetivação que ressoavam muito a ontens “que cantaram”, em outro tempo e em outro modo. E, no entanto, não desliguei um segundo e fiquei (não direi “religiosamente”, mas atentamente) até ao fim.

Quando concluí o exercício, lamentei não ter tomado mais notas, mas voltar atrás e rever a narrativa seria um exercício excessivo. Mas não dei por mal empregue o meu tempo.

O Vladimir Putin que descobri nessa hora de audição é um homem de outra era. Ao ouvir os seus lamentos, o seu orgulho ferido por um mundo que tem humilhado o seu, como que entendi melhor o que tem sido o percurso histórico de uma certa Rússia contemporânea que se acha enganada pelo ocidente - em especial, que se considera abusada na sua fragilidade conjuntural. E que, à evidência, não se resigna.

Putin não é uma figura deste tempo, concluí. Ou melhor, a Rússia contemporânea que ele representa decorre de uma linha profunda de continuidade que, embora já presumida por alguns, está muito mais enraizada do eu julgava possível. A Rússia imperial vive em Putin bastante mais do que em caricatura: é um guia para a ação da atual nação russa.

O discurso de Putin estabelece uma espécie de hierarquia de valores nacionais, na qual a Rússia tem um papel central e historicamente incomparável com o artificialismo de outras entidades estatais, cuja representação à escala internacional ele considera não dever iludir esse seu estatuto menor.

A Ucrânia, neste contexto, é um acaso de decisões históricas erradas, tomadas no seio de uma Rússia em anteriores estádios de convulsão. Por isso, na perspetiva de Putin, não pode aspirar a ser vista como uma nação com todos os atributos de dignidade, passível de um reconhecimento por Moscovo.

A tudo isto, Putin soma a leitura de a Ucrânia se ter transformado no joguete de um mundo, tutelado pelos Estados Unidos, onde subsistirá o desígnio deliberado, que já vem da Guerra Fria, de manter a Rússia sob uma pressão que evite a recuperação da sua grandeza histórica.

Na linguagem do líder russo, a América é uma entidade internacional celerada, que sobredetermina o comportamento de todos os seus aliados e que objetiva na Ucrânia contemporânea todos os vícios e todos os males, com o único e não assumido objetivo de atingir a Rússia.

Por isso, esta Ucrânia, não apenas não tem uma legitimidade que lhe permita afirmar-se como nação como ela própria se converteu, através da cumplicidade com os inimigos da Rússia, num perigo para a própria essência nacional que Moscovo representa.

Quando Putin dá por adquirido que é necessário reconhecer as “Repúblicas Populares” de Luhansk e Donetsk, não está, naturalmente, a atribuir uma dignidade nacional a essas entidades que, “de facto”, já se assumiam como tal desde 2014.

Trata-se apenas, como é óbvio, de utilizar o estratagema de afirmação internacional dessas duas entidades russas como o meio, mais “à mão”, para limitar os danos que a evolução da Ucrânia contemporânea está a provocar à Rússia. Mas, visivelmente, esse é um passo que, sendo necessário, fica muito aquém de ser suficiente para travar o imenso perigo que se desenha para a Rússia, através do poder infiltrado em Kiev, na leitura de Putin.

É este acossamento - a expressão só pode ser esta - da Rússia que Putin pretende sacudir com as suas ações atuais, utilizando, de caminho, a completa subalternidade da Bielorrússia - ficando agora muito clara, se o não fosse já à evidência, a razão pela qual Moscovo nunca teve a menor tentação de apelar à democratização do respetivo regime.

Perante o ocidente - isto é, os Estados Unidos à frente do resto - Putin assume a atitude de querer fazer um “reset” da História. O que é mais estranho, ao configurar um desespero cuja resultante alternativa só pode acabar numa tragédia mundial, é que não parece encarar outro cenário que não seja a reversão completa dos equilíbrios saídos da Guerra Fria - repito, tendo em conta a leitura que faz de que a Rússia foi iludida ao não ter sido cumprido o “trade-off” político que esteve subjacente a esse tempo - o que até pode ter alguns laivos de verdade, mas que já é irreversível.

Ora Putin sabe que não existe o menor cenário em que os países a seu ocidente prescindam da posição que hoje detêm, por opções que foram sendo tomadas, independentemente das razões que Moscovo até possa ter.

Mais do que isso: Putin deve saber que, ao dizer o que disse, carreou para esse debate uma atitude russa que só pode levar a uma muito maior rigidificação de posições por parte de quem pressentiu o crescendo da ameaça.

A saída para tudo isto não é evidente, mas não há razões para cultivar o menor otimismo.

(Artigo publicado no site da CNN Portugal)

segunda-feira, fevereiro 21, 2022

Ainda temos tempo?


A grande questão que atravessa os dias de quem tem responsabilidades na “governance” mundial, na equação clima-energia, é, de há muito, esta: “Ainda temos tempo?”

A partir das instalações da Agência Europeia de Segurança Marítima, com formato híbrido acessível por meios digitais, está a ter lugar, nos dias de hoje e amanhã, a conferência “Gerar energia para o mundo e preservar o planeta”, numa organização conjunta do “Clube de Lisboa”, de que tenho a honra de ser presidente, e da Embaixada do Japão em Lisboa.

Um grupo de especialistas de vários países intervem neste exercício, que foi aberto com uma interessante comunicação do Secretário-Geral da ONU, contando com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa na sessão de encerramento.

Cada painel será objeto de uma representação gráfica, construída à medida da evolução do debate. Aqui fica a que ilustra as primeiras horas dos trabalhos.

Não querem “visitar-nos”? Basta clicar aqui.

domingo, fevereiro 20, 2022

“Podia ter sido pior”


José Cutileiro morreu vai para dois anos. Deixou um não preenchido vazio na reflexão, inteligente e culta, sobre as coisas internacionais. Mas não só. Ele era bem mais do que isso. Ao longo da sua vida, foi o original cultor de uma espécie de sociologia irónica de um país que ele via como que acomodado a um destino assim-assim. 

Saiu agora este “Podia ter sido pior”, numa bela edição da D. Quixote, uma espécie de “best of” do muito que escreveu, mas com interessantes coisas originais. 

Esta antologia é uma oportunidade excelente para quem quiser conhecer o pensamento de uma das figuras mais originais da nossa intelectualidade e da diplomacia democrática.

Prazeres da carne

O candidato presidencial do que resta do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, colocou num tweet a seguinte ideia: “Um bom vinho, uma boa carne, um bom queijo: é a gastronomia francesa”. Acrescentou que “a melhor maneira de a defender é permitir aos franceses terem acesso a ela”, isto é, ganharem melhor.

Parecia uma ideia inócua: apelar a que os cidadãos pudessem usufruir de algo que é comummente tido como um património do país, nomeadamente no imaginário externo.

Pois não foi. Caiu meio mundo sobre Roussel. Apelar ao consumo de vinho, num tempo em que o álcool é diabolizado como fator de doenças? Carne, meus senhores!, agora que o mundo desliza para o veganismo? Queijo, explorando produtos leiteiros, cujo fabrico aumenta o CO2, pelo que começam a não estar na agenda do crescente higienismo? 

No fundo, para essas pessoas, o que Roussel disse configura um mundo antigo, feito de estereótipos caricaturais, que cada vez menos correspondem às exigências da sustentabilidade das sociedades modernas. Será assim?

O que acabo de escrever não tem como finalidade atiçar a onda de reclamações contra algum “politicamente correto”. Já dei para esse peditório. Apenas quero dizer que, para o bem ou para o mal, há que convir que estão a criar-se, cada vez mais, dois mundos que se afastam, limitando o grau de consenso dentro das sociedades. Uns dirão que é o passado a não entender o futuro. Outros dirão que “está tudo maluco!”.

Já agora: Roussel tinha 4% de intenções de voto. As suas preferências gastronómicas vão fazer subir a sua cotação?

Destinos

No momento em que escrevo, não faço a mais leve ideia do que vai acabar por acontecer como desfecho da tensão em torno da Ucrânia. Uma coisa tenho para mim como certa: quer haja um conflito armado quer ocorra um qualquer entendimento que o evite, estes dias de início de 2022 vão ficar bem marcados na História contemporânea.

De um lado, está Vladimir Putin, alguém que, muito claramente, se sente na pele do vingador da humilhação que Moscovo sofreu, no termo da Guerra Fria que a União Soviética clamorosamente perdeu. Olhando a sua postura, nota-se que pretende desenhar o seu lugar na linhagem da Rússia eterna, onde o poder autocrático, como o que agora afirma, sempre foi a regra do jogo. Se o conseguirá fazer em moldes que o elevem nesse mundo de mitos nacionais russos, veremos muito em breve.

Do outro, está um muito improvável ator da História da seu país. Quando, há pouco mais de um ano tomou posse, ninguém lhe destinava um futuro na memória americana. Joe Biden fora a solução conveniente, descortinada pelo seu partido, para conseguir afastar Trump. “A safe pair of hands” na administração Obama, foi um operador eficaz no Congresso e era tido como um razoável conhecedor das coisas internacionais. Pouco mais. Pensava-se que seria um interlúdio até Kamala Harris ganhar senioridade. E, contudo, a História cai-lhe agora no colo.

A História é sempre um objeto fascinante de estudo. Mas nem sempre ela tem graça quando se é condenado a vivê-la.

sábado, fevereiro 19, 2022

“Não foi penalti!”

Uma vez, no velho estádio José de Alvalade, no meio de uma bancada verde que reclamava um penalti que castigasse uma suposta falta sobre um jogador do (meu) Sporting, comentei, alto: “Não foi penalti!”. 

O que eu fui dizer! Caiu-me em cima o Carmo e a Trindade! O mais meigo remoque que nesse instante recolhi foi de “lampião”, insulto-mor no clube que me tem como adepto, desde que me conheço.

Não tinha sido penalti, claro, mas afirmar isso naquele contexto era uma heresia. Porque “tenho a mania” de que sou isento a ver futebol (e sou), raramento me inibo de dizer o que penso sobre a justiça do “senhor árbitro”. E, talvez por isso, raramente vou aos estádios.

(Ainda ontem, este tweet irritou bons amigos: “A Lazio não é o Manchester City, eu sei. Mas parece-me claro, e honestamente tenho de admitir, que o Porto é hoje, nomeadamente comparado com o (meu) Sporting ou o Benfica, a única equipa portuguesa que ainda vai conseguindo sustentar um razoável estatuto internacional.”)

Mas a que propósito vem isto? Da Ucrânia. Da Ucrânia? Exatamente.

Na minha qualidade de comentador da CNN tem-me vindo a ser pedido que analise a situação que por ali se passa. E eu faço-o, tão bem quanto consigo, tentando olhar para as coisas com equanimidade - “palavrão” que tenho por princípio moral. 

Há dias, um outro amigo (tenho muitos, felizmente) disse-me, num tom que me soou um pouco chocado: “Quando, nos teus comentários, analisas o conflito na Ucrânia, chega a dar a sensação de que Biden e Putin se equivalem moralmente, de que um presidente eleito democraticamente tem uma dignidade idêntica à de um autocrata. Pareces esquecer de que lado estás.”

Achei graça ao comentário. E já o esperava. Sou cidadão e diplomata de um país da NATO e da União Europeia, defendo alguns Direitos Humanos que Putin nem desconfia que existem e detesto o sinistro regime que vigora em Moscovo. Mas, ao assumir esta atitude (que não é um “disclaimer”, note-se), acaso sou obrigado a esquecer, por exemplo, que os EUA mantêm, sem julgamento e sem vergonha, há mais de 20 anos, em Guantanamo, pessoas detidas por terrorismo, por não conseguirem provar que são culpados? 

Recuso abertamente o desafio dualista, em matéria de valores, que está subjacente à pergunta, quase policiesca: “Estamos do lado de Biden ou do lado de Putin?”. O facto de eu saber bem do lado em que estou não me torna incapaz de avaliar, com serenidade, as razões de um lado e de outro. Porque a experiência, e essencialmente a consciência, ensinou-me que o mundo nunca é a preto e branco. E não tenho a menor paciência para os maniqueístas.

Bem me lembro dessa hora, bem negra para a política externa portuguesa, em que um governo nos provocava sobranceiramente com a pergunta: “Queremos estar do lado dos Estados Unidos ou do lado de Saddam Hussein?”. Esse executivo acabou a servir o “catering” nas Lajes e a avalizar a guerra criminosa que foi a intervenção no Golfo, em 2003, de onde só nasceu ódio, morte e o Daesh. E não pediu desculpa ao país por isso.

Conheço os valores que estão em causa na questão da Ucrânia. Esse é o lado opinativo, afetivo, da questão. O meu papel, na cena televisiva, não é ser “sportinguista em Alvalade”, é ser rigoroso a analisar os acontecimentos e as motivações contrastantes que lhes estão por detrás. Às vezes, isso não é simpático para as “nossas cores”, parecemos ”advogados do diabo”? É a vida!

Por isso, porque continuo a recusar-me a gritar “penalti!” quando não houve falta, ou insisto em dizer ”foi penalti!” quando um defesa do meu “lado” rasteira um adversário na área, continuarei, enquanto me quiserem ouvir, a tentar analisar as questões internacionais com o possível equilíbrio, tomando sempre em atenção a posição de cada lado e, essencialmente, procurando ser rigoroso com os factos. 

Como alguém disse um dia, temos todo o direito a ter as nossas próprias opiniões, mas isso não nos dá o direito a ter os nossos próprios factos.

sexta-feira, fevereiro 18, 2022

Aeroporto Gago Coutinho


No ano do (visivelmente pouco comemorado) centenário da travessia aérea do Atlântico Sul, a qual, por sua vez, teve lugar 100 anos após a independência do Brasil, acabo de ler que um grupo de cidadãos decidiu propor que ao aeroporto de Faro seja dado o nome de Gago Coutinho, o bravo almirante que, com Sacadura Cabral a seu lado, levou a cabo essa heróica e marcante proeza. Gago Coutinho nasceu em S. Brás de Alportel.

Não posso senão aplaudir esta excelente ideia.

Recuar ou não

A Rússia conseguiu alguns objetivos: disparou os preços dos combustíveis, provou que o “campeonato” não é só entre os EUA e a China e mostrou que o ocidente pagaria um forte preço se fizesse a Ucrânia entrar na NATO. Resta-lhe agora encontrar um “face-saving” para recuar. Ou não.

Deceção

A expetativa que os EUA estão a criar sobre a quase inevitabilidade de uma invasão russa à Ucrânia pode acabar por converter uma eventual não invasão como um ato de hostilidade por efeito de deceção. Resta saber se Putin tem coragem de ir “that far”.

quinta-feira, fevereiro 17, 2022

“Houston, we have a problem!”

A direita democrática francesa, nos dias de hoje a única herdeira do que resta da tradição gaullista, foi descobrir uma antiga ministra de Sarkozy, Valérie Pécresse, que tinha deixado uma imagem relativamente positiva, para ser portadora das suas cores. 

Tendo conseguido derrotar a concorrência em “primárias” dentro do “Les Républicans”, Pécresse parecia poder ir buscar alguns votos de direita que Macron recolhera em 2017, desgastando, ao mesmo tempo, a deriva para a extrema-direita, que hoje polariza mais de 30% do eleitorado. Para isso, “direitizou” fortemente o seu discurso, num percurso iniciado com Sarkozy e que Fillon acentuou. 

A cerca de 60 dias das urnas, Pécresse foi, há dias, submetida um banho partidário de multidão no Zénith, um espaço público de Paris usado para estas ocasiões, numa estudada encenação de campanha, tendo a seu lado os grandes tenores do partido. 

Embora a vitória de Macron, numa segunda volta, pareça, a esta distância, muito provável, se Pécresse conseguisse vir a estar presente nessa ocasião, aproveitando a circunstância do extremismo xenófobo e racista estar por estes dias dividido (entre Le Pen e Zemmour), e mesmo que viesse a perder, isso seria um bom sinal para a afirmação futura do seu partido, o qual, sendo embora o maior de França, está fora do Eliseu e do governo central francês há uma década.

A aguardada prestação pública de Valérie Pécresse, contudo, acabou por ser “pitoyable”. O texto era mau e sem chama, a sua incapacidade de o “vestir” foi evidente, pelo que o grande “meeting” acabou por ser um espetáculo quase tragicómico, com Pécresse a demonstrar uma patética falta de jeito. As vozes, dentro do partido, foram, de imediato, impiedosas, em especial nas ironias e silêncios. As sondagens vieram a refletir o mesmo, com a candidata a cair abaixo dos representantes da extrema-direita. 

As posteriores entrevistas de Pécresse vieram a confirmar a sua inabilidade de “atuação”, algumas contradições no seu programa e, essencialmente, uma imagem “figée”, humanamente pouco simpática, a querer fazer passar por determinação o que parece ser um caráter rígido, numa figura que também parece revelar alguma falta de rasgo. O estilo burguês “bem” da candidata, aquilo que os franceses chamam “bobo”, também não ajuda.

E é pena, digo com sinceridade. Como atrás referi, se conseguisse chegar à segunda volta contra Macron, Pécresse retiraria bastante força à extrema-direita. Se isso não acontecer e se, ainda por cima, no caminho e por desespero, ela vier a poluir o discurso do “Les Républicans” com um argumentário de propostas ainda mais radical e reacionário do que aquele que agora já usa, Pécresse terá prestado um péssimo serviço à democracia francesa.

No seio do “Les Repúblicans”, o partido francês que mais tem mudado de nome ao longo da história, deve estar a ecoar a consagrada expressão do astronauta americano empanicado: “Houston, we have a problem!”

De votos

Espero muito sinceramente que a Comissão Nacional de Eleições saiba no que se está a meter ao fazer a interpretação que faz da lei no caso da repetição dos votos. O país não aguentaria a repetição de uma onda de recursos e contradições.

“Fazer peito”

Biden está a fazer subir a parada contra a Rússia. Podem ser boas notícias para o acordo nuclear iraniano. O presidente americano só teria condições de o fazer aprovar no congresso desde que pudesse “fazer peito” em outras geografias. É mais fácil com a Rússia do que com a China.

“À suivre”

A expulsão de um diplomata americano pela Rússia (ou vice-versa) é, por regra, um ato de hostilidade com escassas consequências. Na atual situação, acho que pode ser um sintoma um pouco mais sério do que isso. “À suivre”, como se diz na banda desenhada francesa.

“Madri me mata!”

A crise no PP espanhol é de antologia. A coabitação entre o líder Casado e a estrela ascendente Ayuso já era periclitante. Com os rumores de que “tropas” do primeiro terão procurado descobrir ou forjar debilidades da segunda e do seu entorno, tudo se complica. Sanchez ri, claro.

“ A Arte da Guerra”


Na edição desta semana de “A Arte da Guerra”, o podcast do “Jornal Económico” em que converso com o jornalista António Freitas de Sousa, analisamos as tensões mundiais à volta da Ucrânia, a agitação nas ruas do Canadá e outros lugares do mundo provocada pela resistência às leis sanitárias e o passo em falso que terá sido dado pelo Partido Popular espanhol ao provocar eleições antecipadas em Castilha-Léon.

Pode ver clicando aqui.

A dignidade da República

O incidente na sala de um partido na Assembleia da República não é um "fait-divers". Sem a menor ironia, acho aquilo gravíssimo.  ...