domingo, outubro 25, 2020

Corridas

Sei que, para o ano, há eleições autárquicas e dá jeito ter os titulares da região algarvia em odor de santidade com o seu eleitorado potencial. Mas, depois da criminosa irresponsabilidade na F1 em Portimão, ninguém venha dizer que foi apanhado de surpresa com novos focos.

Maluquinhos & doenças correlativas

Depois de ver o espetáculo dos negacionistas, somados aos maluquinhos das teorias da conspiração, manifestando-se na baixa lisboeta, passei a ficar convencido, definitivamente, de que a pandemia afetou mais gente, psicologicamente, do que afinal se julgava ter acontecido.

Será assim?

“Os jovens estão insatisfeitos com a democracia. Mais preocupante ainda é o facto de eles estarem mais insatisfeitos com a democracia do que, com a mesma idade, as gerações anteriores estavam. Isto faz com que se inclinem para políticas extremistas, de esquerda ou de direita - o que, por sua vez, ameaça fortemente, no futuro, a democracia.” - do editorial do “Financial Times” deste fim de semana.

sábado, outubro 24, 2020

“Geographia” do Portugal colonial


Na sua imperdível página de crítica gastronómica - uma permanente bússola para mim - na revista do “Expresso”, Fortunato da Câmara faz hoje uma análise a um dos restaurantes da minha vizinhança próxima, o “Geographia”.

O “Geographia” situa-se na rua do Conde, numa das alas laterais ao chafariz que dá para o Museu Nacional de Arte Antiga, junto às Janelas Verdes.

De quando em vez, passo por lá, embora sem uma regularidade que faça a devida justiça à qualidade da casa. A oferta do “Geographia” é muito interessante e original, porque deliberadamente percorre os sabores do percurso da expansão portuguesa pelo mundo. Isso mesmo é sublinhado por invejáveis mapas antigos que ali estão espalhados pelas paredes.

No seu texto, Fortunato da Câmara refere, a propósito, que a sensibilidade do “politicamente correto” terá inviabilizado uma referência à palavra “colonial” na designação de outro recente projeto restaurativo em Lisboa. A palermice que por aí anda não tem limites!

Ao ler isso, veio-me à memória o “Colonial”, um clássico café da Almirante Reis, nos Anjos, a que um dia cheguei, no final dos anos 60, pela mão do meu amigo portuense (mas, portista, nunca!, ele é do Leixões!) Manuel Amorim de Carvalho, um eterno “expert” em locais exóticos - desde um endereço que não revelo, na Alferes Malheiro, no Porto, até coisas lisboetas como o “Calhau”, “Rancho Grande”, o “Cabeça de Touro” ou um snack-bar abrilhantado por uma tal Marta de la Cranche. Com ele, com o Alexandre Chaves e o Daniel Polónio, aportei algumas tardes ao “Colonial”, na transição dos anos 60 para 70, tentando estudar mas acabando sempre numas cervejolas com tremoços, a meio da tarde.

No “Colonial” comia-se, por esses tempos, um bacalhau à braz que o José Cardoso Pires me disse um dia ser “único, em Portugal & colónias”. O Zé, noutros tempos, tinha parado por lá e alimentava a tese de que o café “estava sempre infestado de fascistas”, pelo que uma ida ali era “apenas para comer o bacalhau e zarpar”. Nunca percebi se tinha razão, mas ele normalmente tinha.

As colónias já se foram, o Cardoso Pires e o “Colonial” também. Existe agora o “Geographia”, que “vaut le détour”, posso garantir, como dizem os guias verdes da Michelin.

Pelé



Quando fui viver para o Brasil, em 2005, levava comigo o projeto de conhecer três figuras - Pelé, Niemeyer e Chico Buarque. Também queria conhecer Lula, mas isso viria “with the job".

Conheci e falei bastante com Oscar Niemeyer. Não conheci Chico Buarque, embora, de facto, nunca me tivesse esforçado muito para isso. Mas conheci Pelé, uma das figuras que, desde sempre, mais me fascinaram no mundo do futebol - com Beckenbauer, Cruyff, Platini e Di Stefano.

Falei com ele pouco tempo, a poucos dias de abandonar o Brasil, no intervalo de um famigerado Brasil-Portugal, onde uma seleção desenhada pelo senhor Queirós, com atores da profissão a fazerem o frete de estar em campo a fingir que competiam, foi batida por uns humilhantes 6-2.

Pelé acaba de fazer 80 anos. Nunca pensei que, depois daquela noite em Brasília, se voltasse a lembrar de mim. Mas lembrou. Semanas mais tarde, num restaurante de Nova Iorque, o meu futuro sucessor em Brasília viu Pelé e decidiu apresentar-se, revelando que seria o novo embaixador português no Brasil, para onde partiria dentro em pouco.

Pelé foi simpático e, na conversa, perguntou-lhe: "Vai substituir aquele embaixador de cabelos brancos, que eu conheci, muito triste!, em Brasília, na noite em que Portugal perdeu por 6-2 connosco?". O meu colega confirmou.

Eu estava, de facto, bastante triste e isso não deve ter escapado a Pelé. O que ele não sabia é que tê-lo conhecido terá sido a minha única alegria daquela noite.

sexta-feira, outubro 23, 2020

Guantanamo


Há qualquer coisa de doentio na política americana, republicana ou democrática: ninguém se interroga sobre o destino de pessoas detidas em Guantanamo, até hoje sem serem acusadas e muito menos julgadas, num vergonhoso limbo jurídico. E até o resto do mundo delas se esqueceu.

Outono


É nestes dias que, mesmo procurando por todos os escaninhos, nos damos conta da tragédia que é não ter em casa nem água-pé nem jeropiga. Lá teve de avançar um tinto...

Empate


O debate presidencial americano desta noite foi de muito maior qualidade do que o anterior. Ambos os candidatos estiveram melhor. 

Trump, sem deixar de ser truculento, ”portou-se” com normalidade. Biden foi mais firme, melhorou na assertividade e fez passar a sua mensagem. 

Foi um empate e, por isso, favoreceu Biden.

quinta-feira, outubro 22, 2020

Eleições nos Estados Unidos


Daqui a pouco, à uma hora da manhã, estarei na TVI 24 para ajudar a analisar o cenário político em que, uma hora depois, decorrerá o debate entre Donald Trump e Joe Biden, pela presidência dos Estados Unidos.

Compatriotas


Hoje, dia em que João Almeida perdeu a liderança do Giro de Itália, é o dia certo para honrar a sua fantástica prestação na competição e, de caminho, saudar a prestação de Rúben Guerreiro, que se sagrou já líder da montanha.

Keith Jarrett


Keith Jarrett anuncia que deixou de tocar, por razões de saúde. Vi dois espetáculos seus. Um, em Londres, em julho de 1991, de que deixo uma imagem tirada agora da net, dois dias antes do seu famoso Concerto de Viena. Outra vez, ouvi-o em trio com DeJohnette e Peacock, não consigo lembrar onde (e eu tenho muito boa memória). Por muita graça que esses momentos tenham tido, e tiveram, a verdade é que o “bem” que a música de Jarrett me fez em toda a minha vida, a companhia que o seu jazz me proporcionou, nos momentos (felizmente raros) dos meus próprios “blues”, foi usufruída através dos seus CDs. Um dia, li Paul McCartney a dizer que a boa música se ouve sozinho, a guiar um carro silencioso, numa longa autoestrada (agora, teria de acrescentar, com o telemóvel desligado). Viajo muito com Jarrett em eventuais jornadas solitárias. O “Concerto de Colónia” é aí indispensável, mas também gosto do fabuloso “Bye Bye Blackbird”, que o trio dedicou a Miles Davies. E do resto, caramba! Não percebo muito de jazz, mas fico grato a Jarrett por ter existido.

quarta-feira, outubro 21, 2020

Vírus de mel

É boato ou será verdade que há aí pelo país, nos fins de semana, casamentos onde as máscaras são mentira após umas horas de copos, com bastante mais de 50 pessoas, aproveitando-se da exceção para eventos “já antes programados”? Não pode haver um Polígrafo para isto, SIC Notícias? 

O sexo e a igreja

Sendo de outra “freguesia”, não posso senão olhar com admiração a coragem demonstrada por este papa, na atitude agora tomada face aos homossexuais.

Conseguirá ele a liberdade necessária para acabar com o celibato dos padres?

A “saúde” da questão sexual na igreja católica ganharia imenso.

Ganhe o seu dia em meia hora

 


https://twitter.com/clubedelisboa/status/1318862092041179136?s=20

Conversas à esquerda


António Costa quer que este Orçamento, a exemplo do que tem vindo a passar-se desde 2016, seja viabilizado à esquerda. Se a entronização do governo minoritário do PS foi garantida pelos partidos à sua esquerda, parece natural, em principio, que os diplomas de receitas e gastos do Estado sigam a mesma lógica.

Recorde-se que foram os partidos que suportaram a Geringonça, no primeiro mandato, que recusaram renovar o compromisso escrito na base da qual o PS governou. Presume-se que o terão feito por forma a ensaiarem um novo caminho, depois do saldo da anterior experiência, não obstante ter contribuído para manter a direita fora do poder, ter sido maioritariamente "faturado" pelo PS.

A necessidade do PCP e do Bloco sublinharem ao eleitorado que as medidas mais progressistas decididas pelo governo PS (porque o governo continua a ser PS, convém não esquecer) se devem à sua barganha negocial converte os orçamentos num "happening" anual. Além de que esses partidos não rivalizam apenas com os socialistas: disputam também entre si, o que os obriga a uma esforçada coreografia verbal e mediática.

Para António Costa, o processo deve ser muito difícil de gerir, o que faz com que, por vezes, lhe escapem frases de alguma irritação, onde se nota uma maior contemporização com o PCP e uma menor paciência com o Bloco. Em abono da verdade, tem alguma razão, neste sublinhar de diferenças: o PCP é reconhecidamente mais fiável.

Passados estes anos de cooptação dos partidos mais à esquerda para a esfera da influência na governação, parece evidente haver dois efeitos.

O primeiro tem a ver com a própria matriz funcional do regime. Ao trazer a esquerda da esquerda para um diálogo com consequências nas políticas de Estado, mantendo sempre bem firmes os compromissos essenciais no plano europeu - este ano conjunturalmente flexibilizados pelas decisões tomadas durante a pandemia - pode dizer-se que se processou uma subliminar aculturação desse setor a uma prática de compromisso e de realismo, arrancando-o da postura de reivindicação inconsequente que marcava o seu discurso. E a esse efeito nos partidos corresponderá uma evolução nos próprios eleitorados. 

O próprio PS, contudo, não ficou imune a essa prática. Ao tomar como suas medidas a que a pressão dos parceiros à esquerda o foi conduzindo, o PS consumou um processo de evolução programática interna, assim acalmando, até ver, um seu setor que sempre viveu mal com derivas "centristas", como as que a liderança de Seguro parecia preconizar.

terça-feira, outubro 20, 2020

Parece, não é?

“A menos de um ano depois das últimas legislativas, o sistema político e partidário está tão frenético que até parece que vamos ser chamados a votos para eleger um novo Governo no prazo de semanas“. Manuel Carvalho, “Público”

Amarelos

Todos nos recordamos da barulheira que por aí andou quando o Ministério da Educação decidiu o que decidiu no tocante aos contratos com o ensino privado.

Afinal, a justiça veio provar, reiteradamente, que o Estado tinha toda a razão do seu lado. É que a lei ”é a base, a basezinha”, como diria o Eça para o latim.

Haverá agora algum pedido de desculpa dos imensos colunistas excitados que, à época, alertavam para a “venezuelização” do país?

Ou o sorriso dessa gente fica agora tão amarelo como a cor que usaram nos seus protestos, instrumentalizando crianças nessas manifestações?

segunda-feira, outubro 19, 2020

O meu direito


Vou exercer o direito a ter a minha opinião: a cada dia que passa, cada vez tenho maior respeito e consideração por estas duas senhoras. E gratidão.

A sério!

O país ainda agradecerá um dia ao PS o facto de, ao longo destes anos de negociação de OGEs, ter vindo a aculturar o PC e o Bloco a patamares de razoabilidade revindicativa, respeitadores dos nossos compromissos europeus

domingo, outubro 18, 2020

A síndroma do fim de semana


Não sei quantos diplomatas, do meu tempo ou atuais, frequentam, para leitura, este espaço. Alguns serão e, dentre eles, pode haver os que em nada se reconheçam no que vou dizer. Mas vou arriscar.

Quase quatro décadas de carreira ensinaram-me que os fins de semana são o temível momento do “desastre”. Eu explico. Passada a metade da tarde das sextas-feiras, com os sábados como tempo glorioso, é o tempo para surgir o telefonema: “Olha lá! Conheces alguém na nossa embaixada na Sildávia? É que o meu cunhado foi assaltado, numa rua de Klow, a capital, perdeu o passaporte e não sabe o que há-de fazer.”

Pela minha experiência, raramente isto acontece numa terça ou numa quarta-feira. É quase sempre ao fim de semana.

É ainda nos fins de semana que a prima de um amigo fica sem dinheiro nas ruas de Szohôd, na Bordúria, e não sabe o que fazer. Era nos fins de semana que um ministro qualquer aterrava, num desvio por razões climáticas, com larga comitiva, numa cidade de província do país onde eu era embaixador e, de madrugada, tinha de lhe arranjar hotel adequado, com transporte, com um escasso obrigado no final. Era nos fins de semana que morria, subitamente, alguém “conhecido” e, de Lisboa, me pediam para “tratar do assunto”, numa ignota localidade onde só tinhamos um vago cônsul honorário. É nos fins de semana que há um acidente numa excursão algures, com “portugueses feridos” e uma mãe amiga de um amigo quer saber se um deles foi o filho.

Serei só eu que terei sofrido essa síndrome das ocorrências, em geral nos fins de semana? Por que é que me lembrei hoje disto? Ora essa! Porque estamos num fim de semana e passei horas ao telefone a tentar “safar” uma situação dessas. É que, ao contrário do que se pode julgar, um diplomata, para esse tipo de diligências, nunca se reforma. E tenho o gosto de registar que nunca - “repito, nunca”, como antigamente escrevíamos, para sublinhar, nos “telegramas” da carreira - apanhei, do outro lado da linha, um colega que, nem por também estar sossegado no seu fim de semana, deixou de tratar o assunto com empenhamento e simpatia.

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...