Em 2013, apresentei no Porto o livro de Alexandra Marques "Segredos da Descolonização de Angola".
Era um retrato muito frontal sobre o processo político-militar que envolveu a independência de Angola, com um polémico apontar de dedo a gente que, à época, teve responsabilidades nas decisões que, por ação ou omissão, marcaram muito daquilo que acabaria por suceder no terreno.
Alexandra Marques, uma década depois, volta ao tema, alargando o âmbito geográfico do estudo, com "Deixar África" (1974-1977), subtitulado "O trauma dos portugueses de Angola e Moçambique"
A autora, antiga jornalista entretanto doutorada, traz-nos agora uma recolha de testemunhos de imensa gente que, por esses dias, acabou atropelada pela História e, em grande parte sem a menor culpa no cartório histórico, sofreu a circunstância de estar no mau momento no lugar errado, vendo por essa razão as suas vidas voltadas do avesso. Soma a esses desabafos, cuja leitura é um filme desses dias de angústia, o teor de alguns relatórios oficiais, portugueses e não só, que nos aportam perspetivas diversas e interessantes.
Ainda que descontado o pontual exagero emotivo de algumas leituras a quente, em particular de quem sofreu - na pele, nos bens e na família - esse complexo quotidiano, o retrato que resulta da leitura do livro oferece ampla matéria para que se continue a refletir sobre esse tempo traumático na vida do nosso país.
Na forma como ocorreu, a descolonização foi o outro lado da moeda da Revolução libertadora do 25 de Abril. Melo Antunes disse, um dia, que a descolonização foi uma tragédia, como trágica havia sido a colonização. Sempre estive de acordo com essa dupla perspetiva.
