Não vou ser curto, aviso desde já.
1. Portugal foi justo para com António Costa. Os portugueses aprovaram, sem margem para dúvidas, o modo como ele soube liderar país, sob uma crise de inéditas proporções - sanitárias, sociais e económicas. Mostraram também que, com ele na chefia do governo, confiam em que o PS é digno de poder ter uma maioria absoluta, que assegure quatro anos de estabilidade na frente legislativa.
Costa está de pedra e cal na chefia socialista e, com o resultado de ontem, não passa pela cabeça de ninguém que possa vir a sentir-se tentado por um lugar europeu, nos próximos quatro anos, o que é uma excelente notícia. Quanto à sua sucessão, a conversa acabou até 2026.
2. Rui Rio fez um derradeiro esforço histórico (embora apenas retórico) para conduzir o PSD para o centro político. Ao afirmar, na noite de ontem, que, contrariamente ao que tinha acontecido com o PS, “a direita” não se tinha congregado à volta do PSD na bipolarização eleitoral, Rio mostrou um “Zé Albino” escondido com rabo de fora…
O PSD começou por falhar na tentativa de conquistar o tal eleitorado oscilante que, ao que reza o mito, andará pelo centro: como se viu, esses votos não fugiram ao PS, em especial depois dos anteriores companheiros da Geringonça lhe terem “puxado o tapete”, o que ajudou a “recentrar” a sua imagem. Rio, para tentar segurar votos que pressentia (e bem) estarem a sair para o Chega e para a IL, viria mesmo a ter um discurso equívoco no final da campanha, onde confirmou que o modelo de acomodação com o Chega no Açores podia vir a fazer escola a nível nacional. Fora isso, Rio é um político basicamente bem intencionado. Ou melhor, era.
O PSD do futuro terá de ser um partido democrático de uma direita muito assumida como tal, abandonando de vez quaisquer veleidades centristas. Vai ter de encontrar maneira de se distinguir doutrinariamente da IL e terá de construir um discurso de forte rejeição do Chega.
Porque Rui Rui “purgou” o grupo parlamentar de heterodoxos, o líder que lhe suceder irá ficar quatro anos com um grupo de deputados que não escolheu. Não será tarefa fácil, mas - digo-o com sinceridade - é bom que consiga recuperar algum do eleitorado que votou em André Ventura. É importante para o país que o PSD se mantenha como o partido da alternância do sistema, sustendo o extremismo na direita. Mas, para tal, vai ter de radicalizar o discurso.
3. A intervenção mais patética do fim da noite (como só vi televisão depois das 23:30, tive de “andar para trás”…) foi, a grande distância, o texto lido por Jerónimo de Sousa, uma espécie de antecipação do editorial justificativo no “Avante!” desta semana. Aquela das condições “objetivas” e “subjetivas” lembrou tanto, nostalgicamente, outra época! O PCP sabe bem que muito do seu eleitorado lhe fugiu para o voto útil no PS.
(Nem imaginam quanto me diverte pensar que tenho amigos que, em 2019, foram refugiar-se no voto no PCP e no Bloco, para evitar que o PS tivesse uma maioria absoluta - e que ontem, em “susto” com o possível regresso da direita ao poder, a ofereceram de bandeja a António Costa!)
O PCP foi grande responsável pela crise do OGE, porque foi exatamente a sua mudança de sentido de voto (o Bloco já no ano anterior tinha votado contra) que provocou estas eleições - e não podem alegar surpresa, porque o presidente da República tinha sido claro no seu aviso. Mas os deputados não são tudo para o PCP: esta madrugada, as luzes já devem estar acesas na CGTP. Uma nota sobre a futura liderança do PCP. Salvo alguma surpresa, João Ferreira irá suceder a Jerónimo da Sousa, dada a eliminação de João Oliveira em Évora (em Évora, o PCP não elegeu um único deputado!)
4. O Bloco de Esquerda teve o que mereceu. Tal como o PCP. É bom que a irresponsabilidade tenha um preço. Desta vez, foi possível suster as consequências do erro, ao contrário de 2011. Agora, o feitiço virou-se contra a retórica gratuita e não há sorrisos de circunstância que disfarcem o descalabro nas urnas. No caminho das pedras, Bloco e PCP aguardam, com certeza, que uma maioria absoluta do PS vá, a prazo, gerar descontentamento e terão esperança de virem a reconstruir-se por aí. Pode ser que a visibilidade que Rui Tavares irá ganhar no parlamento possa ajudar o Livre a afirmar-se no terreno do Bloco.
5. Será da idade, mas fico triste pelo desaparecimento do CDS do parlamento. Sempre alimentei um sincero reconhecimento histórico pelo facto dos “centristas” (que eufemismo!) terem dado guarida democrática, após o 25 de Abril, a gente de uma direita (alguma muito pouco democrática) que se sentia distante do socialismo dominante e que não foi atraída pelo então PPD, nomeadamente na recolha dos “cacos” da Ação Nacional Popular. E louvei sempre a coragem do CDS de votar contra a Constituição de 1976. A democracia também se fez com essa direita, que enquadrou pessoas traumatizadas com a esquerda que chegavam das colónias e que deu guarida a gente que não apreciava muito (ou mesmo nada) o 25 de Abril - mas que também eram cidadãos de pleno direito, na democracia que essa mesma data instituíu e de que puderam passar a usufruir.
Agora, sob uma liderança estouvada e de adolescência tardia, o CDS autodestruiu-se e perdeu em credibilidade o que ganhou em decibéis. E mesmo não apreciando o estilo, tenho pena que o líder do CDS não se sente em S. Bento. É que, sem o palco mediático que a presença parlamentar lhe assegurava, o partido poderá vir a desaparecer, em breves anos. Até lá, o facho da sua liderança (não estou a fazer graçolas homófonas) vai passar a ser empunhado por quem já se presume.
6. Quando a IL surgiu, julguei, erradamente, que seria um fenómeno meramente circunstancial, fruto do desaparecimento do “passismo” à frente do PSD, que estava a atrair uma nova geração urbana, seduzida por um liberalismo comportamental e de costumes que se somava a uma agenda económica anti-Estado e com receitas pós-Chicago das “business schools”. O “centrismo” de Rio veio ajudar fortemente ao crescimento da IL nestas eleições. Aguardemos os efeitos que o futuro do PSD virá a ter no futuro da IL. Confesso que, em termos pessoais, me assustava a possibilidade da IL poder vir a ter influência numa futura governação PSD. Por quatro anos, fico mais sossegado.
7. Vamos ter muito tempo para falar do Chega. Claramente, foi alimentado por votos que eram “do” PSD e do CDS. Tal como acontece em outros países, poderá ter também contado, para este seu crescimento, com o apoio de “enragés” vindos do terreno comunista. Veremos em que medida as bancadas da restante oposição estarão ao lado do PS para um “fogo de barragem” àquela que vai ser, sem a menor sombra de dúvida, a grande vedeta desta legislatura. Só não digo que vai ter graça porque, manifestamente, com a comunicação social que temos a servir de complacente câmara de eco aos seus adjetivos incendiários, a cultura cívica do país não vai ficar bem servida com o que aí virá. Mas não há nada a fazer: é a democracia!
8. Acabou a ficção do PEV. Esse genérico e repetidor do PCP não me parece que faça grande falta à democracia (quem é que se lembra da “Intervenção Democrática” que foi a terceira ”perna” da CDU?). A sábia decisão do eleitorado evitou a continuação do aproveitamento do artifício que permitia este estranho fenómeno partidário, de cujos comícios nunca tive conhecimento.
9. E o PAN vai continuar no parlamento. Confesso que isso não me suscita o menor comentário. Nem sentimento, mas a culpa deve ser minha.