sexta-feira, janeiro 21, 2022

Cabeças no ar



O exercício da diplomacia, em postos de elevada tensão, em países em conflito armado, necessita de escapes que permitam aligeirar os dias, permitindo conferir ao quotidiano, às vezes muito cansativo, rotineiro e exasperante, alguma graça. A imaginação joga assim um papel essencial e uma boa gargalhada, num ambiente pesado e difícil, acaba por ser um bálsamo.

Esta é uma história passada na nossa embaixada em Luanda, na primeira metade da década de 80 do século passado. Pela cidade, havia recolher obrigatório, vivíamos quase todos num mesmo prédio onde também trabalhávamos, Luanda praticamente não tinha comércio nem restaurantes, as batatas, os ovos, o café (!) e muitas outras coisas eram, por cada um de nós, adquiridas em Lisboa e chegavam, todas as semanas, pela ansiada mala diplomática. Salvava-se o sol, a cerveja, o whisky e a amizade. E a idade que então tínhamos.

No pressuposto de que a embaixada de Portugal era a mais bem informada da capital angolana - o que, aliás, era pura verdade - os nossos diplomatas eram muito procurados por colegas ocidentais sobre temas da política local, sobre a situação militar no país, para tentar “tirar nabos da púcara”, “checkar” boatos e, muito em particular para saber “quem era quem” que emergisse na “nomenklatura” do regime, qual a sua importância relativa futura no processo político decisório. Pressupunham eles que nós “bebíamos do fino”! Às vezes sim, às vezes sabíamos tanto como eles! 

Um dia, entrei no gabinete do ministro-conselheiro, José Guilherme Stichini Vilela, substituto temporário do embaixador, que estava à conversa com o seu homólogo britânico. Era um amigo comum e, não havendo segredos entre nós, sentei-me por lá.

Ouvi-o então contar ao homem do “Foreign Office” uma história espantosa, que metia cabeças humanas encontradas num saco, algures nos arredores de Luanda, tudo envolvido em contornos políticos misteriosos e não esclarecidos. Sem mostrar um mínimo de surpresa (essa impassibilidade é a atitude que se espera de um diplomata, mesmo perante a coisa mais absurda do mundo), eu estava intimamente espantado! Aquilo não podia ser verdade! Se fosse, eu teria sabido antes! A juventude tem destas coisas: eu achava então que, por ali, sabia “tudo”, que nada me escapava, da guerra ao “gossip” político de Luanda e à “futungologia”. 

Logo que saído o britânico, seguramente já a congeminar a feitura, para Londres, de um “bem elaborado telegrama” (expressão que, em outros tempos, era muito comum nas Necessidades), perguntei ao José Guilherme o que era aquilo a que eu tinha assistido. 

Ele tinha acabado de levar o “bife” ao elevador, e escangalhou-se a rir. Tinha-lhe apetecido divertir-se, fora tudo uma pura invenção! “Como eu disse ao tipo que era um mero boato que nos tinha chegado, não nos compromete”, retorquiu-me, com uma gargalhada. Acho que contámos o episódio ao cônsul-geral, Fernando Andresen Guimarães, que ainda se lembrará do assunto, mas rapidamente arquivámos a questão.

Passaram umas semanas. Pela mala diplomática, com carimbo de “secreto” e recomendação de que fosse mantida toda a confidencialidade, chegou à embaixada, de Lisboa, em papel sem timbre, numa informação oriunda “dos serviços de informação de um país amigo”, a historieta que o britânico tinha recolhido na nossa embaixada. Sem essa menção, claro. O José Guilherme, entre gargalhadas, ao ler o texto, reagiu: “ Há aqui coisas menos precisas! Ele não foi totalmente fiel à minha informação!”. Foi um momento de galhofa, à custa da “pérfida Albion”.

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