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segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Portugal exilado no Brasil


Tive hoje o privilégio de um almoço a dois com alguém que, durante a ditadura portuguesa, esteve exilado no Brasil. Foi muito interessante poder ouvir o testemunho autorizado de uma pessoa que presenciou alguns dos tempos mais importantes desse exílio brasileiro do anti-salazarismo. 

Desde o golpe de Estado que, em 28 de maio de 1926, pôs fim à Primeira República e implantou a ditadura militar, o Brasil foi porto de acolhimento de muitos exilados, de variadas matizes ideológicas. Desde militantes republicanos a comunistas e anarquistas, os vários “Brasis” (porque os tempos no Brasil também foram mudando) receberam, quase sempre com generosidade, quantos procuravam fugir da repressão da máquina salazarista.

Na conversa de hoje, suscitei do meu interlocutor um testemunho sobre esse momento de rutura “epistemológica” que foi a adoção de uma postura favorável à autodeterminação das colónias portuguesas, por parte de setores oposicionistas portugueses no Brasil.

A Primeira República fora colonialista,  com a entrada na Grande Guerra a ser justificada precisamente para proteger o império. Norton de Matos, que titulou a candidatura presidencial oposicionista em 1949, fora governador-geral de Angola e, até ao fim dos seus dias, foi um colonialista assumido. 

Só nos anos 50, quando o PCP, seguindo o espírito de Bandung e as orientações do Comintern, passou a adotar uma postura anti-colonial é que essa orientação penetrou, a fundo, no debate interno da oposição à ditadura portuguesa. 

Em 1961, com o eclodir da guerra colonial em Angola e a queda da Índia Portuguesa, várias personalidades oposicionistas viriam a assumir uma atitude próxima da do governo português que combatiam, o que induziu fortes tensões. Eu próprio testemunhei, na candidatura oposicionista, em 1969, em Vila Real, a existência de correntes opostas sobre este muito sensível tema, embora com o “ultramarinismo” em crescente perda de força.

O meu interlocutor do almoço de hoje deu-me conta detalhada das clivagens a que a questão colonial levou no seio da oposição portuguesa no Brasil. Ele próprio havia tido com Henrique Galvão, o revolucionário que dissidira e fora preso por Salazar, na luta pela liberdade que este negava ao país, uma discussão forte sobre o tema. Galvão viria a evoluir na questão, mas muitos outras figuras da oposição anti-salazarista no Brasil persistiram nessa postura de recusa do independentismo, algumas até ao 25 de abril.


(Ilustro este texto com uma célebre fotografia de Humberto Delgado e de Henrique Galvão, a bordo do “Santa Maria”)

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