Poucas histórias políticas da esquerda, em democracia, são tão fascinantes como a do "Labour" britânico. A vida operária marcou fortemente o curso da sociedade do Reino Unido, dos sindicatos à intelectualidade, do "flirt" com o comunismo às conquistas do "welfare state". Pelo trabalhismo britânico passaram algumas das figuras que orientaram o turbulento curso político progressista no mundo industrializado. A Inglaterra foi, desde sempre, um dos grandes laboratórios da esquerda na Europa.
Quando vivi em Londres, assisti ao sonho de Niel Kinnock de recuperar os anos perdidos com a aventura Michael Foot, autor de um programa político tão radical que foi humoristicamente considerado "the longest suicide note in History". Antes, não conseguindo cavalgar a onda que Harold Wilson desenhara na vida britânica dos "swinging sixties", James Callaghan havia revelado uma rara inabilidade para lidar com o radicalismo de Arthur Scargill e das suas tropas sindicais e, dessa forma, contribuiu para abrir o caminho a Margareth Thatcher. O esquerdismo de Foot (e de Tony Benn) conduziu ainda à cisão social-democrata protagonizada pelo SDP do "bando dos quatro". Na oposição, Foot ainda tentou o compromisso impossível com as "Unions" e, também desajudado pela guerra das Falkland, acabou por contribuir para que a "dama de ferro" se prolongasse em Downing Street.
Kinnock, que o substituiu, iniciou então a árdua tarefa de libertar o "Labour" do "block vote", "modernizou" o programa, mas nem sequer foi capaz de derrotar John Major, o que constituiu uma imensa "proeza" política. Seria sucedido, brevemente, por John Smith, cuja morte súbita abriu o caminho a Tony Blair. Com Blair e o seu "new Labour", o trabalhismo chegou ao "grau zero", ajudando fortemente a uma descaraterização ideológica que varreu toda a esquerda europeia, a que nem Portugal escapou. Com uma esquerda que "fazia de direita", os conservadores foram forçados a atravessar um deserto que só terminaria quando Blair, apanhado pelo descrédito e pelas mentiras do Iraque, passou a pasta a um Gordon Brown que, em tempo de crise económica, perdeu a estafeta para uma rara aliança entre conservadores e liberais-democratas. Foram depois os anos "shadow" de Ed Miliband, cuja manifesta inabilidade levou à reeleição reforçada de David Cameron.
Kinnock, que o substituiu, iniciou então a árdua tarefa de libertar o "Labour" do "block vote", "modernizou" o programa, mas nem sequer foi capaz de derrotar John Major, o que constituiu uma imensa "proeza" política. Seria sucedido, brevemente, por John Smith, cuja morte súbita abriu o caminho a Tony Blair. Com Blair e o seu "new Labour", o trabalhismo chegou ao "grau zero", ajudando fortemente a uma descaraterização ideológica que varreu toda a esquerda europeia, a que nem Portugal escapou. Com uma esquerda que "fazia de direita", os conservadores foram forçados a atravessar um deserto que só terminaria quando Blair, apanhado pelo descrédito e pelas mentiras do Iraque, passou a pasta a um Gordon Brown que, em tempo de crise económica, perdeu a estafeta para uma rara aliança entre conservadores e liberais-democratas. Foram depois os anos "shadow" de Ed Miliband, cuja manifesta inabilidade levou à reeleição reforçada de David Cameron.
Com esta forte derrota, os trabalhistas entraram num novo ciclo sucessório. A crer nas sondagens, a nova liderança poderá vir a ser chefiada por Jeremy Corbyn, uma figura da ala esquerda do partido que, em Portugal, andou já por iniciativas do Bloco, o que é muito significativo. A ser esta a escolha, que alguns já olham como um novo erro de "casting", o "Labour" pode vir a fazer um dos maiores erros táticos da sua história, afastando-se do "mainstream" do poder ou, para utilizar uma expressão que a nossa "esquerda da esquerda" detesta, deixando-o longe do "arco da governação" por muitos e bons anos. Tony Blair disse isso mesmo, há dias. Nem o facto de isso ter sido dito por ele transforma, necessariamente, o que é uma evidência num prognóstico errado.