Em dezembro de 1972, numa das minhas primeiras visitas aos Estados Unidos, deu-me para procurar na New York Public Library obras em inglês sobre o Estado Novo. A certo passo, deparei com um livro de textos sob o título "European Fascism", com um capítulo sobre Portugal, publicado anos antes, em Londres, assinado por Hermínio Martins.
Quem seria Hermínio Martins? Não tinha então menor referência sobre nome, o que era natural, tanto mais que eu não era um especialista, apenas um mero curioso do tema. Ainda pensei que fosse um pseudónimo, embora o texto trouxesse uma nota concreta sobre a ligação universitária do autor. Fiquei sempre com vontade de saber mais sobre a pessoa por detrás daquele nome.
Passaram alguns anos até que comecei a saber um pouco sobre Hermínio Martins e, finalmente, acabei por comprar o livro que vira em Nova Iorque (hoje muito desatualizado, face à investigação posterior, nos vários casos abordados). Fui-o lendo, entretanto, em outros livros e em artigos publicados em revistas. Achei sempre muito curiosa a sua perspetiva pluridisciplinar, onde a sociologia se misturava com a filosofia, numa escrita aliás pouco vulgar, recheada de temáticas complementares inesperadas.
Quando fui viver para Londres, em 1990, estabeleci contacto com Hermínio Martins, creio que por intermédio do Eugénio Lisboa, e talvez também do Rui Knopfli. Recordo-me de ter convencido o embaixador Vaz Pereira a convidá-lo para um almoço na embaixada. O almoço não foi aquilo a que se poderá chamar um grande sucesso. Hermínio Martins falava pouco, a conversa "desligou-se" e, manifestamente, não conseguimos gerar um ambiente estimulante, não interessa agora saber por culpa de quem.
Alguns anos mais tarde, durante a visita de Estado de Mário Soares ao Reino Unido, insisti pela inclusão do nome de Hermínio Martins no grupo de intelectuais que ali viviam e que o presidente português entendeu dever condecorar.
As últimas décadas acabaram por trazer o reconhecimento devido a Hermínio Martins, cujo perfil intelectual e académico, a começar pela sua contribuição para a sociologia britânica, estão hoje estabelecidos de forma incontroversa, ao que leio. Também em Portugal, graças a vários seguidores e colegas, esse reconhecimento impera, sendo considerado uma das figuras cimeira das nossas ciências sociais.
Li agora no "Público" que Hermínio Martins morreu, em Oxford, na passada quarta-feira.
