Foi esta a exclamação risonha com que António de Almeida me recebeu, com a meia hora de atraso com que cheguei àquele jantar num restaurante de Regent Street, em Londres, nos idos de 1998. Eu vinha de Bruxelas, para onde regressaria no dia seguinte, apenas para palestrar durante o repasto, a convite do CPE, a que António de Almeida presidia. A minha hora de chegada, sem tempo para colocar a bagagem no Brown's, devera-se a uma inesperada (e muito pouco confortável, diga-se) paragem do comboio no meio do túnel que atravessa o canal da Mancha.
Nessa noite, conheci pessoalmente o António de Almeida. De nome, sabia-lhe o percurso político e empresarial. Então, fui confrontado com a sua muito particular ironia, pelo humor criativo com que comentou aquilo que eu disse aos circunstantes - as coisas da Europa e do lugar português nela que, por esse tempo, me ocupavam os dias. Estabelecemos, a partir de então, um excelente relacionamento pessoal, que durou até hoje. Mais precisamente, até ontem, quando o António de Almeida morreu.
Recordo-me de o ter encontrado há escassas semanas, algures em Lisboa, de lhe perguntar pela saúde, que eu sabia abalada, de ele me ter falado de um internamento próximo. Era um homem grande, com um sorriso simpático, uma presença imponente. Tinha uma reconhecida qualidade, que eu sempre considero muito: a frontalidade e o desassombro. Guardo para sempre um momento, em S. Paulo, no Brasil, em que ambos "perdemos a cabeça", quase publicamente, perante a falta de sentido de Estado de um alegado governante, cujo nome já esqueci, cujo comportamento poderia ter sido lesivo dos interesses do país. O António e eu, em escassos minutos, colecionámos sobre aquela figura uma bela" palete" de adjetivos qualificativos. Há um ano ou dois, numa livraria de Lisboa, rimo-nos a evocar essa nossa (patriótica) fúria.
Deixo aqui uma palavra sentida à memória de António de Almeida.
