terça-feira, 19 de maio de 2009

Médio Oriente

O actual momento do diálogo entre Washington e Tel-Aviv, simbolizado pelo encontro entre o presidente Obama e o primeiro-ministro Netanyahu, pode vir a ser, porventura, o acontecimento mais importante no quadro da acção externa desenvolvida pelos EUA, desde a entrada em funções da sua nova administração, embora outros possam ter tido uma expressão mediática mais forte.

Todos estamos muito longe de conhecer o que se terá passado nessa conversa e nas que paralelamente a prepararam, mas, a crer nos sinais que nos chegam, há alguns indícios de poderemos estar a assistir a um significativo tempo de viragem por parte do Governo americano, face de um dossiê que, desde há décadas, tem condicionado sobremaneira a sua política internacional.

Uma relação tão intensa como a que tem ligado, embora com importantes "nuances", sucessivas administrações americanas aos diversos governos israelitas não se justifica apenas, como alguns simplisticamente têm sustentado, pelo peso do lóbi judaico dentro dos EUA. Israel era, igualmente, uma peça importante no complexo jogo de interesses americanos na região - interesses esses a que, aliás, estão ligados outros parceiros ocidentais, a começar pela União Europeia.

O que poderá ter mudado - "poderá", porque não é, em absoluto, certo que isso tenha ocorrido - é a avaliação americana sobre o papel que Israel pode desempenhar, no seu quadro actual de interesses na região. Washington nunca "deixará cair" Israel, nem seria aceitável que tal acontecesse: o Estado israelita é um dado da História e qualquer solução de futuro terá sempre que passar pela sua preservação e pelo direito da sua população a viver em paz, dentro de fronteiras estáveis e seguras.

Mas é óbvio que o quadro global de insegurança que se vive em toda a região, que vai de Israel ao Paquistão, sob um espectro de fortes tensões globais de natureza cultural e interétnica, poderá ter levado Washington a, por uma vez, decidir não permanecer tão permeável, como era seu hábito, à leitura das "soluções" de segurança que Tel-Aviv ciclicamente testava nas suas relações de proximidade. Até por uma razão bem simples: porque todas elas falharam.

O que os EUA poderão ter aprendido é que, não apenas se revelaram erradas as estratégias de defesa/agressão aplicadas por Israel, em particular no quadro da sua relação com os palestinianos, como esse mesmo curso de tensões, sucessivo e crescente, se transformou num factor indutor de outras dinâmicas de instabilidade, muitas das quais têm já hoje uma quase completa autonomia face ao próprio quadro israelo-palestiniano. E se constituíram, elas próprias, em preocupações com projecção à escala global.

Além disso, Israel poderá estar a ser, aos olhos da nova administração americana, o pior inimigo de si mesmo. Com efeito, algumas declarações e tomadas de posição oriundas de Tel-Aviv relevam já do que parece ser a adopção de uma estratégia de "quanto pior, melhor", reveladora de algum desnorte e de uma política de "navegação à vista" que não prenuncia nada de sustentável.

As coisas, porém, não se esgotam por aí. Nesta complexa equação insere-se, necessariamente, a questão nuclear na região e, muito em particular, o problema iraniano. E todos sabemos que, quando se trabalha no quadro de expressões políticas assentes em radicalismos, a racionalidade quase sempre não é a filosofia prevalecente.

Tudo o que atrás se escreveu parte do princípio de que há condições para que alguma coisa mude na política americana face a Israel. Já muitas vezes se pensou isso, no passado, e tal não aconteceu. O que nos faz pensar que, desta vez, algo poderá ser diferente é a percepção de que Washington estará a entender - depois do Afeganistão, do Iraque, do Paquistão - que há um quadro novo, no qual se projectam os interesses que entende dever defender, em cujo âmbito o factor Israel tem já um peso inferior na equação final.

A ver vamos.

4 comentários:

Fenêtre du Portugal disse...

"...em cujo âmbito o factor Israel tem já um peso inferior na equação final."

Aspecto a tomar em conta no processo, e que aliàs o Clinton jà tinha percebido (à sua maneira, claro), mas percebido, e dito com uma dose de psicologia diplomatico-politica nunca antes, e claro, ainda menos depois encontrada.

Agora vamos ver o decorrer, nao dos novos dados (porque se pensamos bem até nem hà novos dados, senao o contexto que mudou, e um Estado que se fragilisou com uma estrategia inadequada), mas com "outra visao" mais alargada, e que tome (enfim) em conta, nao so um conflito historico em si, reduzido a interesses (afinal) limitados, mas uma analise global dessa regiao.


A ver vamos...

Mario

Alcipe disse...

Wishful thinking? Ou análise certeira?

Tudo depende, no caso, não tanto da racionalidade dos agentes políticos em causa (na qual eu tenderia a apostar), mas do peso dos interesses e compromissos internos (o tal "lóbi"...)na definição das políticas.Quem era o político português que dizia que "não há política externa, só há política interna"?

Partilho, de qualquer modo, inteiramente os desejos de mudança expressos neste "post".

a) Alcipe

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador eu julgo-me crente. Depois de ler o seu post acredito que o verdadeiro crente é o Senhor. Porque o Irão terá de ser um caso de milagre!

Anónimo disse...

Nao sei se serà desta vez que a situaçao no Médio Oriente vai encontrar soluçao. A influência da América tem sustentado mais as impulsoes belicistas de Israel que o contràrio e como consequência aquela regiao nao sai da voragem da guerra contra a guerra... Mas também penso que uma estabilidade de paz duradoira nao dependerà so da América! A historia destas ultimas décadas tem cimentado odios viscerais que so outras décadas de novos comportamentos de respeito entre os povos que ali vivem atenuarao. Sobretudo nesta regiao onde politica e religiao sao uma so e mesma coisa e onde os governos para administrarem as suas politicas recorrem no dia-a-dia, ao poder divino com ângulos de visao que altera a unicidade de Deus...