domingo, 3 de maio de 2009

Fitas

É o retrato lamentável de um certo Portugal contemporâneo o espectáculo anual que nos é dado pela Queima das Fitas, começando em Coimbra mas espalhando-se um pouco por todo o país, que enche os serviços de urgência dos hospitais com estudantes a cair de bêbados. Os serviços públicos de saúde têm mais que fazer do que estar a gastar recursos com quem, pelos vistos, reserva para o álcool o dinheiro que diz não ter para pagar propinas. E é especialmente cínica a "cooperação" das empresas cervejeiras no evento, disfarçando a sua cumplicidade com anúncios rebuscadamente "soft", onde a lei do politicamente correcto as leva a inserir envergonhados apelos à moderação nos consumos.

Significativo não deixa de ser o facto de, à parte alguns comentários de circunstância, tidos à conta de uma leitura retrógrada da vida, ninguém parecer preocupar-se muito com isto, desde os pais às autoridades académicas, como se fosse já inelutável este estado de coisas - e, naturalmente, como se combatê-lo pudesse representar um inqualificável atentado aos sagrados "direitos dos estudantes".

16 comentários:

Margarida Pereira disse...

Lamentável, preocupante, tristíssimo, o crescendo deste estado de coisas. Como se houvesse um desafio para o máximo da cretinice. Nem é beber para divertir (um pouco), é para estupidificar. Para neutralizar cérebro e coração.
Serradura no lugar de neurónios.
Patético e desprezível.

Francisco disse...

Não sei porquê, vem-me ao espírito a teoria de Darwin sobre a sobrevivência das espécies...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Inteiramente de acordo com a Margarida Pereira. Estupidificar é o termo exacto. Deixem-se de fitas na Queima das ditas.

... e já agora: mau, mau, mau, péssimo, péssimo, péssimo, foi o enxovalho e a agressão a Vital Moreira no comício da CGTP. Permita-se-me o pleonasmo: pior que péssima a primeira reacção (a quente?) de Manuel Carvalho da Silva, seguida de pedido esfarrapado de desculpas esfarrapadas. Que raio de «democracia à traulitada»!

Um aplauso para o nosso Nobel Saramago. O artigo no nosso Diário de Notícias (dele, meu e de muitos mais) é exemplo. E mais não digo. E lidas as minhas declarações, as acho conformes e vou assinar - sem escrivão

Um abração, Caríssimo Chico. Este blogue é um primor. Pudera, não...

Lúcio Ferro disse...

Caro senhor Embaixador,

Apesar de reconhecer mérito no seu argumento de fundo, i.e., de que tudo o que é excesso é mau, ao lê-lo não posso deixar de recordar momentos da minha juventude e de esboçar um sorriso ambíguo.

Também considero que existe um complot involuntário entre as companhias de cerveja e as respectivas associações de estudantes que organizam os festivais da Queima. Mas isso não passa de capitalismo. Onde há procura...

Seja como for, entre muitas das formas que os estudantes podem utilizar para se expressarem a da celebração de fim de curso por intermédio de um ritual devidamente cultivado não deixa de ter a sua magia. Até porque é uma magia muitas vezes urdida em esperança e refinada em vontade de viver.

Excessos? Sempre os houve e sempre os haverá. Não pretendo com a afirmação desculpá-los; os excessos, sempre que em prejuízo legal de outrém, devem ser reprimidos. No entanto, realçá-los é fazer uma escolha dicotómica; é esquecer alguns aspectos outros que, por vezes, não aparentam ser totalmente descabidos.


Cumprimentos cordiais,

Lúcio Ferro

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Lúcio Ferro
Quem não cometeu excessos nesse tempo? Mas acha normal que dezenas de casos diários, alguns de coma alcoolíco, sejam registados por todas, repito, todas as terras portuguesas onde há Universidades? É que há gente que precisa das urgências dos hospitais, não necessariamente por ter estado a divertir-se...

Anónimo disse...

Sem dúvida um fenómeno preocupante.
O ingresso neste comportamento de risco constitui-se para alguns jovens como parte obrigatória incontornável e inevitável da socialização nos convivios entre pares de estudantes maioritariamente do ensino superior.

É como fosse necessário um estimulante sem dose certa para poder sentir... alegria? Desinibição?.

Os resultados visiveis são deploráveis ás vezes letais e apesar da visualização dessa imagem ser do domínio público, não é suficientemente adversa ou capaz de fazer regredir os excessos.

A bem da saúde dos Jovens será necessário expôr as imagens das fitas para revitalizar algum constrangimento/ vergonha e ou limitar o proibido proibir a quem denotar ter limites.

Em desespero de causa punir com coimas quem for apanhado com alcoolismo agudo deliberado e reincidente, já que o sofrimento das ressacas não é suficientemente intimidatório, "somente" inibidor de um dia de rendimento intelectual.

Uma cultura de inconsequência e de promoção de anestesia ,é uma cultura de vazio...

Que pena uma conversa com serenos consensos e intensos e estimulantes discensos ter deixado o seu cariz afrodisiaco per si...

Sempre me preocuparam as razões das fitas, mesmo com o disfarce do alcool.Um bom e complexo enigma para a investigação.Porque se tolda a consciência nos momentos de lazer disponiveis?...

Já sei que é para esquecer fugir

Isabel Seixas

Anónimo disse...

Há fitas e fitas. Os exageros é que raras vezes são aceitáveis. Em França, a prática do “Bizutage”, que não é a mesma coisa que a queima das fitas mas podemos comparar, levou a exageros violentos e foi proibida por lei em 1998... Mas a lei não resolve tudo. As universidades, as associações de estudantes, os responsáveis pela organização da festa deveriam encontrar formas consensuais para evitar os exageros... Depois: “viva a queima das fitas” e que fiquem as boas recordações que é afinal o objectivo...
José Barros.

Ana Paula disse...

As bebedeiras, para além do inestético e alarve espectáculo, não me incomodam por aí além. Nem são os "exageros" com que se desculpa a boçalidade intrínseca do "evento".
O que verdadeiramente me agonia é o anacronismo obscurantista, de meninos e meninas vestidos com trajos clericais (de que, penso, a imensa maioria que se reclama das "tradições académicas" desconhece a origem e o significado)a exibirem uma total e abjecta falta de imaginação e de gosto.

Helena Sacadura Cabral disse...

E os Pais, alguem me diz o que fazem perante o comportamento destes rebentos? Talvez lhes ofereçam um descapotável para premiar a falta de neurónios.
É que, basicamente, estamos perante factos que relevam e configuram modelos parentais. Pior, de pais que abdicaram de o ser!

Anónimo disse...

Tudo é relativo.

"Há fitas e fitas."

Vale mais uma "roscazita"(neste caso, memoravel)que ser-se estupido... dura menos tempo!...

Depois... como comenta José Barros : “viva a Queima das Fitas” e que fiquem as boas recordações que é afinal o objectivo...

Anónimo disse...

Caro Embaixador

esqueci de assinar o precedente comentario

complete SVP:

Carlos Albert Falcão

Anónimo disse...

Bem, queima é queima, portanto, uns queimam-se bastante.

Mais uma vez, este ano voltei a Coimbra para rever os anos passados de curso e voltar a estar com amigos.

O cortejo foi o que já se sabe: confusão total. No entanto, é de salientar o facto deste ano não ter sido permitido garrafas de vidro, mas apenas latas de cerveja.

Assim, o "espectáculo" habitual de ambulâncias a partir garrafas, não se verificou.

Quantos aos exageros, ele vão existir sempre.

1º Pq os pais, por ser um dia de festa, aceitam o exagero.

2º Em Coimbra, acho que já é tradição. Má, mas tradição.

A cidade vive dos estudantes e, portanto, aceita a sua festa nestes termos.

Pedro Duarte Dâmaso

Anónimo disse...

"86 comas de álcool em 2 dias de queima das Fitas" - titula hoje o Diário de Notícias.

É para isto que alguns comentadores pedem compreensão?

I. Meireles

Paulo Correia disse...

Concordo com a opinião expressa pelo nosso Embaixador.

Toda a juventude é idealista, utópica e irreverente. Certamente que sim. Quem não apanhou uma "piela" em Coimbra? No entanto, tudo tem que ter peso, conta e medida.

O bispo Alves Martins dizia que "a religião deve ser como o sal na comida. Nem muita, nem pouca". A boémia estudantil também o deve ser, sob pena de perder qualquer objectivo ou carácter "formativo" e/ou "iniciático"...

No seguimento da crise académica de 1969, dado o carácter situacionista da praxe académica, foi decidido em Assembleia Magana, na qual participei, aboli-la, bem como todas as manifestações a ela ligadas, incluindo latadas, Queima das Fitas, traje académico, etc.

À praxe académica estava ligada a uma visão retrógrada, classista e situacionista, levando o estudante a preocupar-se com aspectos acessórios, levando-o a esquecer o essencial. Construir uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna.

Assim estivémos até aos anos oitenta. Depois, passado o idealismo de Abril, lá voltaram as mesmas ideias envoltas num saudosismo démodé e salazarento.

Voltaram as capas e batina completamente aberrantes, constituindo-se agora num traje de "promoção social", muito diferente de quando meu pai cursou Medicina na Lusa Atenas. Naquele tempo a capa e batina era o traje diário, pois não havia outro, sendo por isso a forma mais económica de trajar com alguma decência. Não ignoro que havia também um factor de diferenciação do estudante face ao "frutica" mas, não era esse o aspecto essencial.

Mas o que mais me custa nos dias de hoje é ver gerações de estudantes sem grandes ideais e sem objectivos nobres. Gastam-se dezenas de euros num fim-de-semana em grandes pielas. Com que cara se vai reivindicar e lutar contra as propinas?...

Noutros países aparece de quando em vez um estudante a disparar contra tudo e todos. Os célebres massacres estudantis. Nós, mais pacatos, mais caseiros, temos as "Queimas das Fitas". Morre-se aos poucos, lentamente...

Anónimo disse...

Lembro-me de assistir às queimas das fitas, ainda eu andava no Sao José!
Nessa altura, nao era cerveja que bebiam mas sim vinho! E viamo-los a desfilar com garrafoes, daqueles empalhados, e a beber glu-glu, ao gargalo, até cairem!!!
Nos, as miùdas do Sao José e as outras, adoràvamos!!
a. da Fonseca-Riès

Margarida Vaz disse...

Bom dia a todos,
Pela primeira vez venho a este blog. Ao vir dar uma vista de olhos hoje de manha, longe estava eu de pensar em participar nele! Mas estas "Fitas" fizeram-me reagir.
Compreenderão melhor ao dizer-vos que sou natural de Coimbra, onde vivi ate aos meus 27 anos, tempo suficiente para ter bastantes e variadas recordações.
Quero também especificar que nunca fui estudante universitária, apesar de e sobretudo na altura quase ser um "dever" de o ser! O titulo de Sr Dr ou Dra era quase automático logo que se tinha o "pé" la dentro!
Quanto as "Fitas" e sobretudo a Semana da Queima das Fitas, o que agora ouço falar delas me entristece!
Primeiro, e a prova esta neste "dialogo" que vim ler quando se fala actualmente de Queima das Fitas fala-se de álcool!!!
Ja não se fala da Queima do Grelo, do desfile dos carros enfeitados cheios de cores, das Serenatas Monumentais, da alegria de acabar um curso, um percurso..., das amizades que se teceram, para não falar dos amores..... cantados com o nosso Fado.
Nostalgia? Sim porque não? Era uma outra época concerteza, mas quando se fala de Coimbra, fala-se de Magia! E só quem por la viveu a poderá compreender.
Agora quando se fala da Queima das Fitas fala-se de Álcool!!!! Ja na altura o álcool fazia parte da festa infelizmente e exageros sempre os houve! a prova no desfile dos carros, lembro-me bem que o ultimo servia a recuperar os que iam ficando pelo caminho...
Não quero aqui fazer apanágio do álcool,(longe de mim tal ideia!) nessas e outras festas, porque para mim serão sempre festas, mas tenho umas perguntas que aqui passo a escrever:
Sera que a Queima perdeu todo o significado que tinha? então mais valia acabarem com ela de vez!
Ou os excessos que se vêm actualmente, que concordo são mais graves que antes, nao serão o reflexo da sociedade actual?
Por todo o lado quando se fala dos jovens que festejam se associa a ideia de álcool! E quem os induziu para la também? Campanhas muito bem feitas e muito subtis com um so intuito o de vender álcool desta ou outra marca! E isto so para falar de álcool!
E gostava também de dizer que ao ver na Sic uma reportagem igualmente da Queima das Fitas mas no Porto, fiquei desapontada pelas mesmas razoes! Os jornalistas...de que falaram mais? e quais as imagens que mais focaram? so mesmo no fim deram a palavra a alguns estudantes que falaram na alegria de acabar um curso...das amizades....e mesmo de agradecerem os pais pelos esforços que fizeram para lhe darem a possibilidade de ir mais longe....
Agora por favor, lembrem-se que a Queima das Fitas é uma festa de Estudantes!
Isto foi apenas um desabafo de uma Conimbricense!!!!