Sempre achei bastante frágil a ideia de que os Estados Unidos da América vivem um período de inexorável declínio, no sentido de que a ascensão da China e a multi-polaridade têm nas mãos os destinos do mundo.
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quinta-feira, maio 15, 2025
Trump ou a orgia de poder
Sempre achei bastante frágil a ideia de que os Estados Unidos da América vivem um período de inexorável declínio, no sentido de que a ascensão da China e a multi-polaridade têm nas mãos os destinos do mundo.
Do risco
Um amigo, há minutos: "Arriscaste muito, ao afirmares, desde há dias, que Putin não iria à Turquia". Acho que não arrisquei nada. Dei uma opinião, à base do bom senso. E se Putin tivesse ido? Eu teria errado. Infalível só papa, mas em matéria de fé. No resto, sabe tanto como nós.
Estatísticas
Da Michelin
Nos tertulianos da mesa havia belíssimos cozinheiros, dos que sabiam da poda e do polme, tal como havia meros usufrutuários gustativos da arte alheia, de que eu era um insigne e incorrigível exemplar. Cada um de nós mandou então solenes bitaites sobre pataniscas - no meu caso centradas na sua deglutição, outros no processo de produção a montante da fase no prato. Nomes de restaurantes, chefes com fama e até mães dos alguns presentes que "as cozinhavam como ninguém", foram chamados a terreiro.
A certo ponto, um comentário de um dos até então silenciosos membros à mesa chamou a nossa atenção, pelo seu caráter imperativo: "Conheço um sítio onde se servem umas pataniscas dignas do Michelin". No meu caso, porque gosto muito dessa forma de honrar o bacalhau, que até nem tem de ser "de primeira", logo pedi o endereço dessa casa. Outros mostraram intenção de também tomar nota.
Generoso e sorridente, o nosso informador deixou então as coisas mais claras: "Quando me refiro ao Michelin, não me refiro às estrelas, mas à consistência: as pataniscas que se servem naquela casa parecem borracha de pneu!"
Ontem à noite, no Porto, fui jantar ao último dos restaurantes clássicos da cidade que ainda não conhecia. O que é obra, acreditem! Há anos que andava para visitar esta casa. Esperava mesmo poder sair dali com umas notas que me permitissem escrever uma apreciação positiva, para uso e proveito dos leitores que fazem o favor de aqui me ler. E até previa ir penitenciar-me por só agora ter feito esta visita.
Mas de boas intenções está a Baixa portuense cheia! Entre outras coisas que se provaram, que estavam razoáveis mas nada de excecional, caí na asneira de mandar vir umas pataniscas. Uma desilusão: altas, maçudas, sem sabor, fritas por fora e desgostantes por dentro. Michelin? Mabor e é um pau! O arroz de feijão, num tacho a acompanhar, estava bom, vá lá!
E assim se não fez uma crónica gastronómica que a simpatia da empregada, as sobremesas e até o espaço talvez merecessem. Mas umas más pataniscas põem-me fora de mim!
quarta-feira, maio 14, 2025
O periscópio
O senhor almirante tem todo o direito de se candidatar à Presidência da República. Mas ficamos a conhecê-lo melhor, depois do tempo das agulhas. É que é de muito mau gosto democrático içar o periscópio no meio da campanha para a escolha parlamentar em curso.
terça-feira, maio 13, 2025
Com amigos destes...
Numa entrevista concedida a televisões na noite de hoje, Macron disse que ucranianos já estão convencidos de que não vão conseguir recuperar os territórios ocupados pela Rússia. Ora aqui está uma estranha maneira de ajudar a Ucrânia, ainda antes das negociações terem começado.
Terroristas e oficios correlativos
Um terrorista é alguém defende por meios violentos e inaceitáveis causas de que não gostamos. Um dia, a ação desse terrorista começa a "dar jeito" aos nossos interesses estratégicos: passa a "freedom fighter" enquanto luta, quando chega ao poder é "one of us". Síria 2025.
Hipocrisia
Os ditadores de vestes longas do mundo árabe dão, por estes dias, a imagem mais hipócrita da sua "solidariedade" com a causa palestina e de repúdio do genocídio israelita em Gaza: traficam contratos milionários, entre sorrisos e tâmaras, com o protetor de Netanyahu.
Pepe Mujica
Com 89 anos, morreu Pepe Mujica, estimabilíssimo antigo presidente uruguaio. Um dia, disse: "Yo me dediqué a cambiar el mundo y no cambié un carajo, pero estuve entretenido y le di un sentido a mi vida".
Influencer?
Hoje, fui buscar o meu carro que há dias tinha deixado numa loja, de que já me haviam falado bem, e que tem como "arte" ajudar a recuperar os automóveis, no plano estético, exterior e interior. O trabalho que requeri era de pequena dimensão. Mas fui muito bem tratado, com profissionalismo, fiquei satisfeito com o resultado final, que naturalmente paguei, e vim para casa a pensar: se um "influencer" pode dizer bem de uma loja ou de um produto e ainda por cima recebe por isso, não tenho eu o direito de falar na satisfação por um trabalho que foi bem feito, que paguei e me agradou?
Por isso, aqui fica a nota: a Mr. Cap. (vejam contactos na net) tratou lindamente do que pedi para fazerem no meu carro. Recomendo.
Passei, com isto, a "influencer"? Embora seja uma designação que detesto (vinha no carro e ouvi que vai haver uma reunião de "influencers" internacionais em Lisboa), já me chamaram coisas piores. (Ah! o automóvel da fotografia não é meu, esclareço.)
Conversas
Parece-me haver um imenso equívoco na questão das negociações diretas entre a Rússia e a Ucrânia. Está criada a ideia de que delas poderão sair resultados que possam pôr fim à guerra. Não tenho essa ideia. Com efeito, sabendo-se as posições de partida das partes, à luz daquilo que tem sido afirmado por ambas, não descortinei até hoje qualquer margem de flexibilidade que permita indiciar uma convergência mínima.
Senão vejamos.
A Rússia entende que está fora de causa recuar, um milímetro que seja, das posições que tem na Crimeia e nos quatro "oblasts" que integrou posteriormente na Federação, parte dos quais, aliás, não ocupa totalmente. Além disso, considera essencial a renúncia formal da entrada da Ucrânia na NATO e tem um discurso, embora não muito claro, sobre a desmilitarização da Ucrânia (curiosamente, hoje um dos países mais militarizados do mundo...) e a sua "desnazificação" - conceito pouco preciso, na forma de levar à prática, e que, para muitos analistas, começaria pela saída do poder de Zelensky. O discurso sobre novas eleições presidenciais, que Trump parecia ter "comprado" até ter conseguido o "acordo das terras", poderia ir nesse sentido, embora, se as eleições fossem "a sério", nada pudesse garantir à Rússia que a eleição de um sucessor de Zelensky iria necessariamente significar um futuro equilíbrio político em Kiev muito diferente. Finalmente, e aqui seguindo a racionalidade subjacente ao que estava na carta de Lavrov aos seus homólogos ocidentais, em finais de 2021, e que agora seria importante revisitar, a Rússia teria como ambição (máxima, embora dificilmente exequível) um "reset" no sentido do "status quo" existente antes dos alargamentos da NATO aos países do Centro e Leste europeus. Isso incluiria, naturalmente, o fim das ambições de entrada na NATO para a Moldova e para a Geórgia. Esta, porém, é uma questão que pouco tem a ver com a Ucrânia e que releva da leitura de Moscovo de que, no fundo, esta guerra é uma mera sequela do conflito político-estratégico que mantem com os poderes ocidentais, tutelados pela América pré-Trump. Do mesmo modo, Moscovo não aceitaria qualquer acordo que não conduzisse ao levantamento total da sanções unilaterais que impendem sobre a Rússia, bem como a devolução dos bens russos congelados, por exemplo pela UE. Esta seria a agenda maximalista russa.
Por seu turno, a Ucrânia, que não reconhece qualquer legitimidade à secessão do Donbass, muito menos de Kherson e Zaporizhzhya, e que nunca se conformara com a anterior tomada da Crimeia (embora a aparente complacência ocidental com a sua inclusão na Rússia tivesse atenuado, por algum tempo, o seu protesto), pretende, muito simplesmente, o regresso ao "status quo ante", isto é, às fronteiras de 1991, definidas aquando da implosão da URSS. A Ucrânia não se compromete sequer a retomar as previsões do acordo de Minsk II, que criava, entre outras coisas, alguma autonomia para o Donbass. Verdade seja, o regresso ao acordo de Minsk não tem hoje qualquer atualidade, depois da Rússia ter incorporado essas regiões na Federação. Essas são, na linguagem diplomáticas de Moscovo, as "novas realidades geopolíticas" de que nunca deu ar de poder abrir mão. A Ucrânia quer também reparações de guerra e a sujeição de Putin à justiça internacional. Para se ver a agenda maximalista da Ucrânia é necessário reler o seu "plano da vitória", de 2024, uma evolução dos anteriores "dez pontos".
Perante estas duas posturas, qualquer acordo só poderá vir a fazer-se por flexibilização de atitude de uma das partes. E essa evolução de posições só surgirá se e quando uma das partes considerar que não tem condições para sustentá-la, por exaustão de recursos ou por consciência de derrota irreversível no campo de batalha. É aqui que ainda não estamos. Qualquer conversa que não incorporar isto na sua agenda servirá para muito pouco.
"The American way..."
segunda-feira, maio 12, 2025
Ucrânia ("à suivre")
1. A Rússia ignorou a iniciativa de cessar-fogo e propôs um encontro bilateral com a Ucrânia na Turquia, na quinta-feira. Na ocasião, não ficou claro se seria apenas um face-a-face ou se incluiria um mediador, neste caso a Turquia. A Rússia parece não querer perder o simbolismo de regressar à mesma mesa de onde a Ucrânia saiu, por pressão ocidental, quando estava prestes a assinar um acordo que equivaleria à sua parcial rendição, ainda em 2022. Na altura, com mediação turca, recorde-se.
2. Trump reagiu: "President Putin of Russia doesn't want to have a Cease Fire Agreement with Ukraine, but rather wants to meet on Thursday, in Turkey, to negotiate a possible end to the BLOODBATH. Ukraine should agree to this, IMMEDIATELY. At least they will be able to determine whether or not a deal is possible, and if it is not, European leaders, and the U.S., will know where everything stands, and can proceed accordingly! I'm starting to doubt that Ukraine will make a deal with Putin, who's too busy celebrating the Victory of World War ll, which could not have been won (not even close!) without the United States of America. HAVE THE MEETING, NOW!!!"
3. Este "tweet" de Trump (e, provavelmente, algo mais, em termos de pressão de Washington e dos "minders" europeus da Ucrânia), levou Zelensky a anunciar estar disposto a reunir-se pessoalmente com Putin em Istambul, sabendo perfeitamente que o líder russo nunca poderia estar disponível para isso - não era a um encontro de presidentes que Putin se referia. É curioso que parece estar ainda em vigor uma lei ucraniana que, em princípio, impede Zelensky de se encontrar com Putin, mas foi ignorada. A jogada de Zelensky é interessante, fazendo regressar a bola ao campo russo. Se Putin não for, e com toda a certeza não vai, a Istambul, abre-se a caixa de Pandora anunciada no "tweet" de Trump.
4. Note-se a ironia de Trump no "tweet", ao referir que Putin esteve "demasiado ocupado" nas celebrações do 9 de Maio - com uma "bicada" histórica suplementar sobre o papel dos EUA na Segunda guerra mundial. O tom de Trump face à Rússia está claramente a mudar. O efeito nisto do acordo assinado com Kiev sobre as "terras raras" é muito evidente e a "cimeira" comemorativa em Moscovo não lhe foi indiferente e deve ter soado aos seus ouvidos como um evento irritante. Se a isso se somar a luz verde entretanto dada ao envio de mais material militar para a Ucrânia, parece estar criado um "mood" em Washington cada vez menos simpático para Putin. Veremos agora como o presidente americano vai reagir à, mais do que provável, recusa de Putin de ir a Istambul.
5. O que mudou na atitude americana face à questão ucraniana? No início, havia a ideia de que Trump faria um "diktat" à Ucrânia, anunciando o congelamento da ajuda militar e impondo-lhe a aceitação de uma derrota (parcial) face à Rússia: perda de território (desde logo, a Crimeia), impossibilidade de entrada na NATO, eleições internas (com afastamento de Zelensky). Era o Trump "fazedor de paz"... em 48 horas. Putin esfregava as mãos de contente. Lentamente - porque foi algo lentamente - as coisas foram mudando. O efeito da imagem "Trump-está-no-bolso-de-Putin" deve ter-se começado a sentir naquele ego sem limite, tanto mais que o tempo de Moscovo era muito mais lento do que os sucessos rápidos que o presidente americano queria obter para dourar a sua imagem pública. A Zelensky, depois de o humilhar, Trump comprou o subsolo a preço de saldos. Com Putin, passou agora à fase do encosto à parede, com a cena do cessar-fogo a servir de pretexto. Não fosse isto trágico e teria a sua graça como jogo. É que não é evidente o "script" para as cenas dos próximos capítulos.
Comércio
Em política, o que parece é. E parece muito claro, ao olhar o "backtrack" dos EUA na guerra comercial com a China, que a resistência de Pequim acabou por compensar. No fim de contas, temos de olhar para o início desta crise e perceber aquilo que quem a lançou efetivamente ganhou.
domingo, maio 11, 2025
Um jogo de habilidades
Zelensky tinha sido hábil ao colar-se a um cessar-fogo que, nos moldes em que foi avançado, ele sabia que Putin nunca poderia aceitar. Com efeito, dar o seu acordo a uma suspensão de hostilidades sem ter garantida a cessação do fornecimento de armamento ocidental à Ucrânia seria um gesto suicida por parte de Moscovo. No final desse período, a Ucrânia estaria muito melhor equipada e a Rússia teria perdido toda a dinâmica ofensiva dos últimos meses, levada a cabo com fortes custos. Além disso, os aliados europeus da Ucrânia poderiam sentir-se tentados a levar à prática, ainda durante esse período, a sua intenção de colocar tropas no terreno ucraniano. Se isso acontecesse, e com as mãos atadas pelo cessar-fogo, a Rússia não teria condições para reagir a esse rápido desequilíbrio do poder militar ucraniano.
Mas Putin tem uma imensa preocupação: a absoluta necessidade de não dar um qualquer passo que possa alienar a boa vontade de Trump. O presidente americano, que acabou por perceber que afinal pôr termo à guerra não é uma coisa tão simples como pensava, por sua vez, tem também um crescente problema: não pode ser visto a arrastar os pés por muito mais tempo, sob pena de isso afetar a sua imagem de decisor-mor do mundo. Trump precisa de resultados e já dava sinais de começar a achar que Putin podia estar a tentar enganá-lo, prolongando as coisas para ter mais ganhos no terreno. À sua volta, parece haver gente a tentar convencê-lo disso.
Em face de tudo isto, a proposta de Putin de iniciar negociações a 15 de maio, na Turquia, parece ser uma escapatória bastante hábil. Com ela, pode dizer a Trump: não aceitamos o cessar-fogo nos termos propostos mas estamos de acordo para nos sentarmos já à mesa com a Ucrânia.
A bola passou assim para o lado de Zelensky? Não é totalmente evidente, porque isso só seria assim se o presidente ucraniano deixasse cair a proposta de cessar-fogo. Zelensky pode vir a dizer que uma coisa não é incompatível com a outra, pelo contrário, até pode ser complementar: parar as hostilidades e começar negociar. Soa bem, não soa? Soa, mas, repito, a Rússia não pode aceitar esse cessar-fogo. Só se Putin fosse louco e já provou que não é.
Agora volta ao jogo Trump. Como olhará para a proposta russa? Deixará cair o cessar-fogo? As próximas horas dar-nos-ão a resposta.
sábado, maio 10, 2025
Maré (Guincho)
Come-se muito bem no "Maré". Já lá tinha ido antes e ontem confirmei essa ideia. Em regra, come-se bastante bem nas casas assinadas com o nome do José Avillez. É seguramente um dos raros cozinheiros "estrelados" pelo Michelin que sempre cuidou um criar espaços de restauração de natureza (e preços) diferente. Todos de boa ou mesmo muito boa qualidade.
Nesta onda de "dicas" em que ando, aqui fica mais uma: vá ao "Maré". É um restaurante barato? Não é, ao que recordo da vez anterior em que lá estive. Ontem, o jantar foi oferecido por um amigo aniversariante que, há dias, deixou de poder cantar o "When I'm sixty-four". Não podia haver melhor relação qualidade - preço...
sexta-feira, maio 09, 2025
Outra dica
Presenças
Moscovo
Putin investiu muito, diplomaticamente, na parada do dia da vitória deste ano. Sob o ponto de vista de encenação, foi um belíssimo espetáculo. Talvez demasiado grandioso para o gosto de Trump, que não deve apreciar muito de ser emulado no terreno destas teatralidades políticas.
Conversa medíocre
Mas que diabo me interessa a mim, que diabo interessa a alguém, que o ministro Paulo Rangel esteja ou não esteja a viver numa união de facto? Só bisbilhoteiros se entretêm com este tipo de mexericos de conversa medíocre. Há um país que nunca mais chega à idade adulta.
O papa
Vou revelar uma coisa: não tenho ainda a menor opinião sobre o novo papa. Talvez porque não assisti ainda às imagens da sua aparição na varanda, não escutei a sua voz, nem ouvi nenhum dos comentários, oficiosos ou não, que sobre ele terão sido produzidos. Estive a fazer outras coisas, como ler um livro interessante e ver o Manchester United - Atlético de Bilbao e pedaços do Tottenham - Bodø. Amanhã, com calma, as imagens e sons sobre o novo papa cá me chegarão. Mas, devo dizer, quando me transmitiram a notícia de que o papa era americano, tive aquela sensação com que os miúdos ficam quando abrem um presente de Natal e constatam que é um pacote de meias. Vamos esperar. Afinal de contas, da América não podem chegar só más notícias.
quinta-feira, maio 08, 2025
Ah! Leão!
Tal como achei bem que o anterior papa tivesse tido o bom gosto de se chamar Francisco, acho lindamente que este se chame Leão.
Devemos homenageá-lo no sábado, no Marquês.
Boa!
A igreja católica bate aos pontos qualquer outra religião na operação de renovação da sua liderança.
Procópio
Fascismo. Ponto
Deve acabar de vez a conversa "científica" e redutora sobre o fascismo: há muito que o conceito deixou de ser aplicável apenas ao regime de Mussolini, para passar a ser uma designação comum às ditaduras de direita. O salazarismo é um fascismo.
Espírito Santo
A bem dizer, e pensando no conclave vaticânico, eu também ainda sou do tempo em que, por cá, as eleições eram bastante influenciadas pelo Espírito Santo.
Mau mestre!
Ontem, para ir ao Porto, por causa da greve dos comboios, tive de conduzir por bem mais de seis horas. Cheguei arrasado e furibundo, confesso!
Hoje, ao ouvir Luís Montenegro dizer que "um dia, temos de pôr cobro a isto!", gostava de lembrar que esse "dia" já existiu: chamava-se fascismo.
Santo espírito
De acordo com a doutrina divina, a escolha do papa, sendo, mas apenas na prática, um ato de dimensão terrena, obedece, na essência, a uma sábia escolha do "espírito santo". Nestas condições, como é que os meus amigos católicos explicam estas andanças de fumo branco / fumo preto?
O Procópio perto da cúria
"Importa-se que ligue a telefonia a ver se houve fumo branco no Vaticano? " Detesto o lisboeta "telefonia", mas disse ao homem do Bolt que não me importava. "Era o máximo se saísse o Tolentino, não era?" Tinha graça, de facto, ter um papa que já encontrei pelas mesas do Procópio.
quarta-feira, maio 07, 2025
Luís Soares de Oliveira
Soube agora que morreu o meu colega de profissão Luís Soares de Oliveira. Tinha 98 anos. Conheciamo-nos mal, falámos poucas vezes e a nossa mais longa conversa não correu muito bem. Mas já lá vamos.
... e agora, futebol!
terça-feira, maio 06, 2025
Piroseira
A bola
Que grande jogo foi o Inter - Barcelona! Vale a pena ver futebol assim. Como não estava a "puxar" por qualquer das equipas, sempre que uma dela marcava um golo, eu passava a desejar que a outra marcasse, para animar o jogo. E assim passei duas belas horas.
Rubens Ricupero
Ricupero é uma grande figura da diplomacia, com passagem de relevo na política brasileira. Exerceu cargos de embaixador e de ministro, além de ter sido diretor-geral da UNCTAD. Tem vasta e importante obra publicada.
Um dos seus livros é o magnífico "A diplomacia na construção do Brasil, 1750-2016", editado em 2017. Por essa altura, fui convidado por um amigo comum, o meu colega brasileiro Paulo Roberto de Almeida, para apresentar o livro em Portugal. Por motivos pessoais, Ricupero não pôde deslocar-se a Lisboa e a ocasião frustrou-se.
Em dezembro de 2023, voltámos a cruzar-nos: fui ao Rio de Janeiro participar num debate, numa conhecida instituição de relações internacionais, em que ele fazia contraponto comigo.
Quando lhe foi dada a palavra, e ainda antes de entrar no tema que ali nos levava a ambos, Rubens Ricupero quis ter um gesto de uma extrema elegância. Disse então algo como isto: "Caro embaixador. Queria começar por aproveitar esta oportunidade para, por seu intermédio, como cidadão brasileiro, pedir desculpa ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa, pelo comportamento rude e desrespeitoso que o nosso presidente teve para com ele, durante as cerimónias da nossa data nacional, o 7 de Setembro. O modo como o mais alto representante da nação portuguesa foi por nós recebido naquela ocasião não esteve à altura das nossas tradições e da nossa amizade".
Como ele prosseguiu de imediato para a abordagem do tema do debate, só me referi a esta posição dele mais tarde. E receio ter sido parco no meu agradecimento pela excecional gentileza de Ricupero. De facto, eu recordava-me que, na tribuna do desfile do 7 de Setembro, o rigor do cerimonial, nesse tempo convulso da declinante presidência Bolsonaro, não tinha estado à altura da ocasião. E que, em particular, ao convidado de honra que era o chefe de Estado português não havia sido prestada a atenção na forma devida.
Ontem, ao entrar na excelente livraria Travessa, em Lisboa, constatei que Rubens Ricupero, hoje com 88 anos, publicou as suas "Memórias". Um exemplar já anda em leitura cá por casa.
Há 53 anos
Se eu me atrevesse agora a efabular por aqui que, nesse final de tarde, tinha sido levado por uns amigos à inauguração do lugar, aposto que ninguém ousaria contrariar essa minha versão fantasiada dos factos. E, na "net", ficaria, para sempre, um belo número "social" do escriba deste blogue.
Só que tudo isso seria rotundamente falso. E eu não "pinto" as histórias que conto por aqui. Não, não estive na inauguração do Procópio. Nessa tarde, devo ter saído do meu emprego de funcionário bancário, no Calhariz, e, com grande probabilidade, devo ter passado pelo bar da livraria Opinião, perto da Trindade, onde então ia beber a minha Cuba Libre, coisa muito na moda. Depois, fui quase pela certa jantar a casa, nos Olivais. Antes da noite fechar, terei ido beber um café ao Montecarlo, perto do Saldanha. E devo ter regressado a penates no autocarro 21, antes da meia noite, porque a Cinderela aplicava então o rigor dos seus horários aos funcionários públicos cumpridores. E eu era um deles, desde o ano anterior.
Posso confessar uma coisa? Nem sequer sei bem quando fui pela primeira vez ao Procópio. De uma coisa estou seguro: só fui seu frequentador habitual muitos anos mais tarde.
Ontem, para rememorar, e porque à segunda-feira aquilo está mais sereno (e mais amável), voltei ao Procópio, à Mesa Dois, lugar geométrico onde, na vida, passei uma imensidão de horas, a débito do meu fígado e a crédito das minhas amizades. Ali estive com a Sofia, filha da Alice e do Luís. Não estava a irmã, a Maria João. Mas já não pude ter ali, naquela festa discreta, a minha querida amiga Alice, mãe de ambas. Este ano, ao contrário do ano passado e de ocasiões anteriores, a Alice já não vai estar connosco, no nosso jantar da noite de Santo António.
Esta foi uma comemoração diferente das que fizémos em outros anos. Mas, cerca da meia noite, tivemos o gosto de ter na Mesa Dois a Ana Viegas, essa sim, testemunha presencial da noite de abertura do bar, em 1972. Agora, já sem a figura sorridente e sempre simpática Júlio Moreira ao seu lado.
O Procópio de hoje é diferente? O Procópio não muda. Nós é que já não somos os mesmos. E, além disso, somos cada vez menos.
segunda-feira, maio 05, 2025
O anti-militante
Ontem, não tive pachorra para ver o debate nem coragem para assistir na televisão (sou um sócio que nunca vai ao estádio) ao jogo do Sporting. O problema é responder aos amigos que telefonam a perguntar a minha opinião e depois me criticam por défice de militância afetiva.
Simpatia
Ucrânia
Criou-se um visível nervosismo em Moscovo, depois de Trump ter conseguido o acordo dos minerais com a Ucrânia. A ideia de um encontro Trump-Putin, agora surgida do lado da Rússia, prova que esta sente as coisas a deslizar em seu desfavor e quer recuperar a boa vontade americana.
domingo, maio 04, 2025
Memória?
Um pouco de memória? Após a vitória tangencial da AD nas últimas eleições, o chumbo do OGE era o argumento para forçar uma crise, levar a novo sufrágio e procurar o efeito vitimização que Cavaco usou em 1987. O PS frustou o golpe e viabilizou o OGE. A nova crise é o novo golpe.
Que falta de vergonha!
Ao anunciar a expulsão maciça de estrangeiros, a duas semanas das eleições, este governo demonstra que a direita se deixou colonizar, sem pudor, pela ideologia securitária da extrema-direita, cavalgando as perceções de insegurança que os números desmentem. Que falta de vergonha!
A ver se percebo...
É um tema interessante o que se está a passar na Alemanha: o partido que, pelos votos, lidera a oposição ao novo governo é objeto de vigilância dos serviços secretos, por virtude da sua ideologia. A pergunta parece óbvia: se o partido é assim tão perigoso, não devia ser proibido?
Voto
Se a lei oferece um "dia de reflexão", sem campanha, a quantos vão votar no dia 18 de maio, por que diabo não dá o mesmo direito a quantos, como eu, votam por antecipação, no dia 11? Por que diabo, no dia 10 de maio, vou ser obrigado a aturar campanha eleitoral?
sábado, maio 03, 2025
Tarrafal
sexta-feira, maio 02, 2025
Nojo
Poucas coisas me enojam mais, nos dias desta União Europeia que parece ter já perdido um mínimo de decência, do que ver a sanha virulenta contra quantos defendem os palestinos e o cobarde silêncio perante o genocídio a céu aberto que Israel vai cometendo em Gaza, hora após hora.
quinta-feira, maio 01, 2025
quarta-feira, abril 30, 2025
Trump na "Visão"
A excelente revista "Visão", que atravessa um momento económico difícil, que tem posto à prova o profissionalismo e espírito de sacrifício dos seus trabalhadores, convidou-me para contribuir, para o seu número "comemorativo" dos 100 dias da segunda presidência Trump, com um artigo em que recordo a ação externa da América sob a sua liderança.
terça-feira, abril 29, 2025
segunda-feira, abril 28, 2025
Culpados
O mundo mudou muito. Antes, ouvia-se "a culpa é do Passos". Agora, como hoje aconteceu, ouve-se "a culpa é do Putin".
Eles aí estão!
Os maluquinhos das teorias da conspiração tiveram hoje o seu dia de glória.
São todos iguais?
Quando alguém surgir a comparar o extremismo de direita ao da esquerda (e, claro, esse alguém, por uma regra infalível, será sempre uma pessoa de direita), convirá mostrar-lhes as imagens dos arruaceiros "nacionalistas" do último 25 de Abril.
domingo, abril 27, 2025
sábado, abril 26, 2025
Arquite(c)tura
Sobre o papa
Nada me liga às crenças religiosas, salvo um batismo por que não fui responsável (e de onde, aliás, rezam as crónicas familiares, saí com uma pneumonia de que me salvei à justa). Mas, naturalmente, sou tributário de um "template" moral marcado pelos princípios católicos, como a esmagadora maioria dos portugueses. Grande parte das pessoas que me são próximas definem-se (mais ou menos) como católicas, respeito as suas convicções e reconheço, porque é uma evidência, o importante papel institucional da igreja católica na sociedade portuguesa. Aliás, muitas das melhores pessoas que conheço são católicas. No entanto, isso não me impede de continuar a olhar, com escandalizada estupefação, para a circunstância da igreja católica acolher alegremente, sem os estigmatizar e denunciar, como me pareceria natural, quantos dos seus ditos "fiéis" que, no seu dia-a-dia, se comportam à persistente revelia dos seus princípios. E há imensos! A igreja pode, com isso, continuar a assegurar paletes de prosélitos, mas desqualifica-se como referente ético. Mas, na realidade, nada tenho a ver com isso, não são eu quem gere essas regras, sou e serei sempre "de outra freguesia"!
Oportunismo
A listagem feita por Montenegro, no debate com Ventura, dos pontos da agenda do Chega que o PSD tinha acomodado neste seu ano e picos de governo, somada à desculpa esfarrapada para conseguir falhar - logo este ano, com eleições à porta - a festa do 25 de Abril, até chegar ao comunicado miserável, onde a extrema-direita nunca é referida, sobre os incidentes no Rossio, tudo isto rima lindamente com a imagem de um primeiro-ministro que quis ser visto sem cravo na cerimónia em S. Bento (qual Nuno Melo). Isto é tudo tão óbvio, não é?
Hoje é 26 de abril
Por muitos anos que viva, não tendo pessoalmente sido vítima da repressão fascista, nem tendo desenvolvido atividade política com grande risco, nunca deixarei de agradecer a sacrifício de quantos desafiaram a ditadura para hoje podermos ter a sociedade livre em que vivemos.
Clique aqui e, se estiver de boa fé, reflita.
sexta-feira, abril 25, 2025
A direita e a democracia
Orgulho-me de fazer parte de uma geração política que acha perfeitamente natural que, nesta data, e ao contrário de mim, muitas pessoas não andem de cravo ao peito. Há uma grande parte da direita portuguesa que ainda não conseguiu perceber que o 25 de Abril também se fez para ela existir em democracia.
Não estava sol. Hoje está
Saque
Um dos possíveis resultados do conflito na Ucrânia pode vir a ter impacto no significado de um conceito económico muito comum: todos passaremos a olhar de modo diferente para a expressão "direitos especiais de saque"...
Ucrânia
O "fumo branco" pode estar prestes a surgir na Ucrânia. Trump poderia "oferecer" o reconhecimento da soberania russa da Crimeia e Moscovo "aceitaria" o congelamento da linha da frente atual. Qual será a reação da Ucrânia? E dos europeus? E os contratos económicos?
Zakaria
Fareed Zakaria, que semanalmente faz o excelente GPS na CNN, está a mudar o tom, em especial no seu "take" inicial. Trump começa a ser demais para a sua paciência. Não é fácil fazer jornalismo na América de hoje.
Brasil
No Brasil, Collor de Melo foi preso. Não é surpresa. O antigo presidente irá cumprir sentença transitada em julgado. Este ato como que prepara o ambiente para a provável detenção de Bolsonaro. O momento é tenso: ter ex-presidentes na cadeia é "barra pesada" para qualquer país.
Chega?
Como tinha prometido a mim mesmo, vi o debate Montenegro - Ventura. Montenegro deve um imenso agradecimento ao PS. Foram aos socialistas, ao obrigá-lo a colar-se ao "não-é-não", que permitiram que ele hoje consiga sustentar um forte discurso anti-Chega. Chega para ganhar?
quinta-feira, abril 24, 2025
Tropa
A olhar a alguns exemplos europeus que já se conhecem, a liberalidade orçamental que os Estados vão ter para excederem o défice para despesas militares vai ser um forrobodó para alimentar as "shopping lists" dos ramos. Uma prova de impacto na eficiência devia ser a regra.
Viva o 25 de Abril!
O governo não se mostra interessado em festejar o 25 de Abril? É o que menos me importa. O 25 de Abril é a festa do povo. Por muito polémica que a ideia possa ser, eu até dispensava a sessão de palradores na Assembleia da República, um mero ringue de polémica sobre a conjuntura.
"A Arte da Guerra"
Desta vez, inevitavelmente, falamos da morte e substituição do papa, das eleições legislativas no Canadá e da agenda internacional de Trump, com o Irão sob especial atenção.
Durante as próximas três semanas, pela conjugação de limitações pessoais conjunturais dos intervenientes no programa, não haverá "A Arte da Guerra".
Regressaremos no dia 22 de maio, esperando vir então a encontrar o mundo num ambiente de "paz e amor"...
Até lá, pode ver o podcast aqui.
Justiças
Convém que fique muito claro que não são os portugueses que devem ser obrigados a repetir, num mantra politicamente correto, que acreditam cegamente na justiça da Justiça que o Estado lhe serve. Pelo contrário, é a Justiça, "teúda e manteúda" pelo erário público, que tem de provar que é digna dessa confiança. É que, ao contrário do papa, que é infalível em matéria de fé, os operadores judiciais já provaram à saciedade terem a infalibilidade dos árbitros de futebol.
Papa
Nos últimos dias, fui simpaticamente convidado por três canais televisivos para ir lá falar sobre a morte do papa. Feliz ou infelizmente, ando numa roda-viva que me tem deixado tempo para muito pouco. Mas também é verdade que essa limitação acabou por dar um belo pretexto ao ateu que sou para não ir debitar umas inevitáveis platitudes àcerca do estimável senhor que agora faleceu. Pessoa por quem, diga-se em abono da verdade, eu alimentava uma sincera admiração. E como também não alinho no "totopapa", considero que a minha opinião sobre todo o assunto acaba por ser totalmente dispensável. Mas não deixo de ficar muito grato pela gentileza e insistência dos convites. Como diria o Eça, fazem o favor de me estimar.
quarta-feira, abril 23, 2025
A história proibida
Em 1912, a família mudou-se para Viana do Castelo, imagino que para melhorar a situação profissional do meu avô. A viagem, de Ponte de Lima até Viana, foi feita de barco. Com ele e com a mulher iam os seis filhos do casal, duas raparigas e quatro rapazes, um dos quais o meu pai, o benjamim da família, então com apenas dois anos. Para trás, em Ponte de Lima, o casal deixava enterrados dois filhos: um rapaz que morrera com quatro anos e uma rapariga, que só viveu 16 anos, e que era, ao que reza a nossa memória familiar, o "ai-jesus" do meu avô.
O meu avô era de uma família modesta, da Correlhã, uma aldeia às portas de Ponte de Lima. Foi ajudado nos estudos por uma pessoa local de posses, que apreciava as suas qualidades. Em Viana, chegou a Escrivão de Direito e montou escritório como Solicitador Encartado. Com a minha avô e os seis filhos, viveu numa bela casa brasonada, que veio a adquirir, em frente à doca de Viana, onde hoje está instalada a Fundação Maestro José Pedro.
A história quase poderia terminar aqui, com alguma brevidade narrativa. Bastaria dizer que, depois de 13 anos de vida em Viana, com a família, António Emílio morreu, súbita e prematuramente, no mês de abril de 1925.
Podia mesmo acrescentar que o seu desaparecimento criou um imenso problema económico à família, de quem era o único sustento. A minha avó Filomena ficou numa situação complicada, sem grandes meios de vida, embora tivesse herdado a grande casa onde todos viviam. À morte do chefe da família, só o filho mais velho trabalhava. Os restantes, com uma exceção, ainda estudavam. Perante o súbito infortúnio, a família uniu-se em torno da minha avô, de uma forma exemplar, numa atitude que se prolongaria, pelas suas quatro décadas de vida seguintes. Os filhos mais velhos foram-se empregando e ajudavam a minha avó no custeio da educação dos mais novos. As condições nunca permitiram, contudo, que qualquer deles tivesse chegado à universidade. Mas todos souberam dar a volta à vida e construir um futuro estável.
Chegado a este ponto, o leitor perguntará: mas, então, esta era a história proibida? Não, caro leitor, não era. Ela já aí vem.
Antes disso, deixem-me dizer que o meu avô António Emílio era um republicano dos quatro costados, membro da Maçonaria e ligado ao grupo político de Álvaro de Castro, um destacado dirigente anti-sidonista, que chegou à chefia do governo. Em Viana do Castelo, o meu avô António Emílio representava essa linha política e tinha forte atividade no distrito. Aquando da sublevação anti-republicana conhecida como "monarquia do Norte", António Emílio andou de armas na mão a combater, com êxito, os "talassas" que sonhavam com o regresso do antigo regime. Ao que se dizia lá por casa, não sendo politicamente um radical, alimentava uma atitude anti-clerical e distante da religião, a qual, muito provavelmente, terá tido uma influência duradoura nas ideias dos filhos, onde também nunca vi frutificar nenhuma réstea de reacionarismo. Em geral, os netos herdaram esses cromossomas políticos...
António Emílio seria, a acreditar na imagem que dele ficou na memória da família, uma figura de atitude bastante austera. O meu pai, que tinha já 15 anos aquando da sua morte, dizia que, ao contrário da eterna suavidade da minha avó, ele impunha um ambiente de disciplina familiar muito severo: "Não me recordo de nos ter dado alguma vez um beijo. Quando entrava em casa, criava-se à sua volta um ambiente de extremo respeito e até de algum temor. A tua avó recordava que ele tinha graça e era divertido. Mas não foi essa a imagem que deixou nos filhos".
Seria António Emílio assim mesmo, fora de casa? É que aqui começa outra história, uma história de vida diferente. Nesses 12 anos de existência em Viana, antes da sua morte - e já iremos ao modo como ele morreu -, o meu avô tinha criado uma existência paralela: a uma outra senhora, de quem, nesse período, veio a ter cinco filhos (uma das versões fala mesmo de sete), o meu avô montou uma casa em frente à Igreja Matriz de Viana. A distância entre as residências das duas famílias era de umas escassas centenas de metros, passível de ser percorrida em menos de dez minutos.
A memória divertida da nossa família regista um episódio em que a minha avó, a quem um dia teria chegado a informação dessa persistente aventura desviante do marido, o terá confrontado e pedido satisfações, em face da evidência da traição. Para o nosso património de tiradas "históricas" caseiras ficou a resposta dada por António Emílio, que não terá negado a evidência, à sua mulher Filomena: "Meninha, o teu lugar ninguém to tira!". Com esta frase "sossegante", o assunto terá ficado resolvido? Nunca saberemos.
Deixo para o fim o derradeiro episódio, o da morte do meu avô. Desde muito cedo que o meu pai me falava daquele momento traumático, que havia privado a família da pessoa que era seu sustentáculo fundamental: "O teu avô morreu com um súbito ataque cardíaco, no escritório onde estava a trabalhar, no piso térreo da casa. Era, provavelmente, algo congénito e quem sabe se nós não herdámos dele essa deficiência cardíaca". Como sou um incorrigível hipocondríaco, andei por muito tempo preocupado com essa possível doença familiar. Até um dia.
Um dia, falando com o meu primo direito, Carlos Eurico da Costa, uns bons anos mais velho do que eu, sobre a morte do nosso avô, referi-lhe o modo como o meu pai falava do assunto. O Carlos deu uma imensa gargalhada! E explicou-me que o meu pai, sendo o filho mais novo à hora da morte do pai, foi sempre deliberadamente poupado de parte da verdade, quanto às condições da morte do pai. Toda a família, incluindo todos os sobrinhos do meu pai, sabiam, há muito, que as coisas não se tinham passado "bem assim". E eu, por tabela, tinha sido mantido fora dessa parte da verdade. "Não vás agora contar ao teu pai, que, desde 1925, alimenta a versão diferente do facto que os irmãos lhe "venderam", mas o nosso avô morreu no decurso de um ato sexual com uma senhora com quem se encontrava no escritório. Foi do coração? Talvez! Ele tinha um largo coração, como os factos vieram a provar..." O meu pai, até ao final dos seus 97 anos de vida, acabou por nunca saber das condições que envolveram a morte do meu avô.
Foi há cem anos, por estes dias, em Viana, que perdi o avô que nunca cheguei a conhecer e cuja vida, como se vê, foi bem agitada e, quero imaginar, bem divertida.
terça-feira, abril 22, 2025
Hondt
A demagogia que por aí anda, sobre os votos que estarão a ser "perdidos" nas eleições legislativas, fruto do método de Hondt, tem por objetivo fomentar a "balcanização" partidária, tornando mais difícil a obtenção de maiorias. É importante alertar para esta irresponsabilidade.
A república dos pijamas
O prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, recordou há dias uma definição ouvida a José Silva Lopes, que lhe explicou, nos anos 70, a dramática dependência de Portugal da indústria têxtil: "Nós não somos uma república das bananas, somos uma república dos pijamas".
Tolentino
Tenho o maior respeito pelo cardeal Tolentino. Contudo, não tendo qualificações de "vaticanólogo", interrogo-me sobre se a insistência da nossa comunicação social no nome do cardeal português como "papabile" tem algum fundamento sólido, para além de "wishful thinking" patriótico.
José Carlos de Vasconcelos
Foi uma bela festa, Zé Carlos! Tantas histórias, tantos poemas (mesmo de outros, porque o Zé Carlos é muito generoso) e palavras boas da Ros...






































