Zelensky tinha sido hábil ao colar-se a um cessar-fogo que, nos moldes em que foi avançado, ele sabia que Putin nunca poderia aceitar. Com efeito, dar o seu acordo a uma suspensão de hostilidades sem ter garantida a cessação do fornecimento de armamento ocidental à Ucrânia seria um gesto suicida por parte de Moscovo. No final desse período, a Ucrânia estaria muito melhor equipada e a Rússia teria perdido toda a dinâmica ofensiva dos últimos meses, levada a cabo com fortes custos. Além disso, os aliados europeus da Ucrânia poderiam sentir-se tentados a levar à prática, ainda durante esse período, a sua intenção de colocar tropas no terreno ucraniano. Se isso acontecesse, e com as mãos atadas pelo cessar-fogo, a Rússia não teria condições para reagir a esse rápido desequilíbrio do poder militar ucraniano.
Mas Putin tem uma imensa preocupação: a absoluta necessidade de não dar um qualquer passo que possa alienar a boa vontade de Trump. O presidente americano, que acabou por perceber que afinal pôr termo à guerra não é uma coisa tão simples como pensava, por sua vez, tem também um crescente problema: não pode ser visto a arrastar os pés por muito mais tempo, sob pena de isso afetar a sua imagem de decisor-mor do mundo. Trump precisa de resultados e já dava sinais de começar a achar que Putin podia estar a tentar enganá-lo, prolongando as coisas para ter mais ganhos no terreno. À sua volta, parece haver gente a tentar convencê-lo disso.
Em face de tudo isto, a proposta de Putin de iniciar negociações a 15 de maio, na Turquia, parece ser uma escapatória bastante hábil. Com ela, pode dizer a Trump: não aceitamos o cessar-fogo nos termos propostos mas estamos de acordo para nos sentarmos já à mesa com a Ucrânia.
A bola passou assim para o lado de Zelensky? Não é totalmente evidente, porque isso só seria assim se o presidente ucraniano deixasse cair a proposta de cessar-fogo. Zelensky pode vir a dizer que uma coisa não é incompatível com a outra, pelo contrário, até pode ser complementar: parar as hostilidades e começar negociar. Soa bem, não soa? Soa, mas, repito, a Rússia não pode aceitar esse cessar-fogo. Só se Putin fosse louco e já provou que não é.
Agora volta ao jogo Trump. Como olhará para a proposta russa? Deixará cair o cessar-fogo? As próximas horas dar-nos-ão a resposta.