domingo, maio 10, 2026

O barítono plenipotenciário


Entrou no Kämp com ar afogueado. Pareceu surpreendido quando o porteiro pediu para que deixasse a parka no vestiário, antes de aceder ao bar do hotel. "Regras de segurança", foi-lhe dito. Conversa! Em Helsínquia, onde o frio é uma segunda pele e ninguém abdica do seu casaco, a verdadeira razão é outra: evitar que o requinte do Kämp se dissolva num amontoado de anoraques e sobretudos, que transformaria num instante a elegância do mais refinado hotel da Finlândia num bengaleiro democrático e sem graça.

Olhou em volta, à minha procura. Sentado numa mesa, à distância, eu apreciava a coreografia algo desajeitada daquele finlandês, colega de profissão, antigo diplomata em Lisboa, reformado há bem mais tempo do que eu, com quem combinara encontrar-me nesta minha rara passagem pela capital finlandesa.

Viu-me, a cara abriu-se-lhe, atravessou o bar, deu-me um abraço e ficámos cerca de uma hora à conversa. Pedi mais uma vodka, ele optou por uma simples "verveine", inóqua para um fígado já castigado com muito álcool.

Falámos da Lisboa que ele conhecia bem, em outros tempos. Perguntou-me por gente que já não anda pela vida. "Lá por Portugal, nos últimos tempos, tem morrido gente que nunca tinha morrido", disse-lhe, sorridente, a testar a sua perceção da ironia. "Ah! Sim?", reagiu, não percebendo a minha graça pateta. O seu treino da língua portuguesa era insuficiente para captar o absurdo da frase.

Inevitavelmente, cedo veio à conversa o nome de Trump. Coincidimos na maioria dos adjetivos, com uma facilidade quase constrangedora. Gracejei com o facto de o seu país ter decidido entrar para a NATO no momento em que a organização está no estado em que está. Ele não sorriu. "Ouviu o discurso do Putin, hoje?", inquiriu, num tom que denunciava preocupação. Disse-lhe que estava de férias, desligado do mundo e das notícias, mesmo as de Moscovo. Ele não estava. E compreendi que não podia estar. Se Portugal tivesse uma fronteira com a Rússia como a do seu país, talvez eu também carregasse aquela inquietação nos ombros.

O bar do Kämp ia-se entretanto enchendo de muitas mulheres bonitas, que não pareciam captar a atenção do meu convidado, que nunca se mostrara sensível a essa vertente da beleza, como bem sabiam alguns dos seus velhos conhecidos da noite lisboeta.

"E ainda canta, meu caro?", perguntei, curioso do estado dos seus dotes líricos, os quais, um dia, no Ramalhete, levaram o João a qualificá-lo de "barítono plenipotenciário". Sem mais pormenores ou um mínimo de mágoa visível, disse-me que perdera a voz.

A conversa entretanto esgotara-se, como muitas vezes ocorre neste tipo de encontros sem agenda, com poucos laços a sustentá-los. Levantámo-nos e despedimo-nos. Senti-o um pouco trémulo. Os anos marcam, caramba!

Deixou lembranças para eu transmitir aos seus escassos amigos lisboetas ainda vivos. E logo saiu pela Esplanade, de bengala na mão, à procura do elétrico, de regresso a casa, que me havia dito ser um andar simples, nas margens do Báltico. Voltarei a ver Steinbroken?

(A fotografia é da escadaria do Kämp, há minutos)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Um livro e uma mesa (23)

O livro de hoje é "Le Sherpa - Mémoire d'un diplomate aux avant-postes de l'Histoire", de Philippe Étienne, ed. Tallandier...