Há pouco, no Spotify do carro, surgiu-me a "Nathalie", de Gilbert Bécaud. Uma canção que sempre ligo às minhas "noites da rádio", em Vila Real, na primeira metade dos anos 60.
Era o tempo em que, por vezes, decorávamos canções pela sua sonoridade, sem perceber bem o que dizíamos. Por muito tempo, trauteei melodias em "italiano", com palavras que não fazia a menor ideia do que significavam. Em inglês, só anos depois vim a aprender a dizer corretamente expressões que então ecoavam de outra maneira.
Lembro-me de que rapidamente decorei a letra da "Nathalie". Ou assim julgava eu. À época, tinha a ideia de que falava já um bom francês... Aquela mistura de romantismo com Guerra Fria, falando de uma Moscovo que por cá era diabolizada (seis décadas depois, nesse particular, está tudo igual), num ritmo que lembrava sonoridades russas, teve um grande êxito.
Anos mais tarde, numa passagem por Paris, na FNAC da rue de Rennes, descobri um album com canções de Bécaud, que vinha acompanhado das respetivas letras. Dei então comigo a ler, pela primeira vez, a letra da "Nathalie".
De repente, quase me saltou uma gargalhada. Desde sempre que eu achara estranha, na canção, a expressão "plaines de graines" (planícies de sementes), como se Bécaud tivesse enfiado à força uma imagem agrícola no meio de todo aquele romantismo soviético. De facto, era "estranho". É que Bécaud diz: "Moscou, les plaines d'Ukraine / Et les Champs-Élysées / On a tout melangé / Et l'on a chanté". Ora eu ouvia "plaines de graines" em lugar de "plaines d'Ukraine"... Em especial nos dias de hoje, isso faz toda a diferença!
Mas o meu equívoco de juventude, com efeito político, não se ficava por ali. Bécaud também canta: "Qu'après le tombeau de Lénine / On irait au café Pouchkine / Boire un chocolat". Ora eu, no som que me chegava nessas "noites da rádio", confundira o "tombeau de Lénine" por "temps beau de Lénine" (belo tempo de Lénine)... Caramba! Então aqui a diferença é de tomo!
Ouçam o "Nathalie" de novo, aqui. Ah! Mas não vale a pena ouvir o "La fille de Nathalie", que Bécaud lançou quase 20 anos depois e que ficou muito longe de ter o mesmo êxito.
