Esta é uma data de que gostavas muito, Carlos. Como tu dizias, era um dia que "chateava os fachos" — e picar essa gente era uma coisa que adoravas fazer. Tenho pena, temos muitos, de que já não estejas por cá, para um jantar com o Tone, na "Delícia" ou no "Raposo", as duas únicas mesas de Lisboa de que nunca te ouvi dizer mal — a ti, um cozinheiro e um crítico gastronómico implacável, tantas vezes injusto. (Mas até o "Raposo" fechou, imagina!)
Tenho saudades de ti, primo, de ouvir ao telefone o teu "Alô" pronunciado à francesa, um sotaque que talvez te tenha ficado da frequência do pequename gaulês que aportava por Viana, nos Verões da nossa juventude. Ainda te estou a ouvir a discutir, na cozinha da praia de Tróia, nesses memoráveis mano-a-mano com o Chico, sobre se o arroz de povo leva ou não coentros. Era um espetáculo de saudável mau feitio que, fosse como fosse, acabava sempre numa refeição de truz, com a Lena e connosco já abancados, usufrutuários do vosso labor culinário, nuns repastos que invariavelmente fechávamos com um álcoois irlandeses.
Estou agora a olhar uma jarra com cravos vermelhos que ficaram do último 25 de Abril e a lembrar-me ainda mais de ti, Carlos. E apetece-me dizer alto um sonoro palavrão de muita saudade.
