quarta-feira, maio 06, 2026

Não necessariamente...


Um dia, no final dos anos 60, depois de atravessar de ferry o estreito de Öresund, da dinamarquesa Helsingør — a cidade de Hamlet — para Helsingborg, na Suécia, lancei-me à boleia para norte.

A tarde já não podia cair mais: era 21 de junho e, nessa data e por aquelas latitudes, o sol apenas finge que se põe. Por um capricho que não vem ao caso, eu tinha a ideia fisgada de passar essa midsummer night em Falkenberg, já a caminho da Noruega.

Não era fácil a boleia na Escandinávia, com o meu cabelame latino. Meia hora depois, já sob alguma angústia, um carro parou. Ao saber-me português, o condutor sorriu:

“Ah, português! Vem à procura das suecas, não é?”

E ali me vi eu, herdeiro involuntário dos Zézés Camarinhas das Albufeiras desse tempo, promovido a potencial dragueur naquele mar de loiras, quando eu pensava que as minhas origens nacionais haviam ficado consagradas na História universal por aventuras de outro calibre, em mares bem mais épicos. Afinal, Öresund substituía Ormuz.

Nem sei o que respondi ao meu amável transportador, no meu inglês hesitante de então. Deve ter sido um “not necessarily”, já ensaiando a ambiguidade criativa que viria a revelar-se útil à minha profissão futura.

Lembrei-me disto esta noite, também por aqui.

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