Há muito que era um observador interessado na trama política britânica, mas passar a ter a responsabilidade de informar diariamente Lisboa obrigou-me a uma rápida imersão naquele mundo, servido por uma comunicação social de grande qualidade, que muito ajudava a melhor entender aquela realidade.
Viviam-se tempos de claro desgaste de Margaret Thatcher, que não dava mostras de admitir abandonar o lugar. No seio dos conservadores, tinha emergido a figura de Michael Heseltine, que viria a desafiar formalmente a sua liderança. Contudo, muitos dos que já tinham por inevitável que Thatcher saísse opunham-se a que Heseltine ascendesse a primeiro-ministro — temendo em especial o seu europeísmo, num tempo em que Bruxelas e a Comissão eram os culpados de serviço de muitos dos males do reino.
Thatcher, que ainda beneficiava de forte prestígio internacional — alimentado por uma relação estreita com os EUA e por uma leitura atenta da transformação em curso no bloco soviético — passeava então pelos fóruns mundiais uma força política cada vez mais aparente. (Às vezes, lembro-me da Thatcher desse tempo quando observo a agitação atual de um Macron hiper-impopular no seu país).
A resistência de Thatcher começou a ruir na tarde de 1 de novembro de 1990, quando o seu antigo “número dois”, Geoffrey Howe — figura respeitada até pela sua falta de ambição — fez nos Comuns um discurso devastador para a primeira-ministra. Anos antes, Denis Healey dissera que ser atacado por Howe era “like being savaged by a dead sheep”. A “dead sheep” acabou, porém, por abalar decisivamente a liderança da "dama de ferro".
Seguiu-se um rápido distanciamento de vários ministros. Perante o resultado inconclusivo da primeira votação para a liderança, a 20 de novembro, Thatcher acabaria por reconhecer, com relutância, que não tinha condições para continuar, demitindo-se dois dias depois.
Tive o privilégio de assistir, na Câmara dos Comuns, àquele que foi o último discurso de Thatcher. Foi uma ocasião memorável, com ela, por uma última vez, bem-humorada e solta.
A maioria dos deputados conservadores afastou então a hipótese Heseltine (à época, eram apenas eles quem decidia o nome do novo líder, sem a menor intervenção das "constituencies" locais) e escolheu um apagado John Major, claramente o denominador comum possível. Thatcher ainda acalentou a ideia de manter alguma influência ("I will be a backseat driver", terá dito), mas rapidamente se tornou claro que o seu tempo político terminara.
Aquando da sucessiva rotação de líderes que os conservadores conheceram nos últimos anos (Cameron, May, Johnson, Truss, Sunak), lembrei-me muitas vezes dessa coreografia em torno do declínio dos líderes. A lógica subjacente à crueldade política é muito simples — e talvez compreensível: os deputados deixam de estar convencidos de que, com aquele líder, conseguirão ser reeleitos. Quando um primeiro-ministro adquire o rótulo de “loser”, o seu destino torna-se, em regra, inevitável.
Olhando para aquilo que, nas últimas horas, parece desenhar-se em torno de Keir Starmer, fica a ideia de que alguns desses sinais começam a emergir.
