O Álvaro – "Alvarito" era como a minha mãe lhe chamava, conhecendo-o de infância – era um vila-realense "exilado" em Lisboa, de onde escrevia umas crónicas para "A Voz de Trás-os-Montes" que, a certa altura, tinham o óbvio ante-título "De Lisboa, com saudades..."
O Álvaro morava algures na Linha, creio que em Paço de Arcos. Um dia, jantámos num pequeno jardim traseiro dessa sua moradia. Ali plantado em lugar de destaque, estava um candeeiro de rua, que me dizia alguma coisa. O Álvaro esclareceu: "Sabes de onde era este candeeiro? Da Avenida Carvalho Araújo" – a artéria mais conhecida de cidade.
"Onde diabo arranjaste isso?", perguntei. Explicou-me que lhe fora oferecida por alguém da vereação da Câmara, por ocasião de uma renovação do material de iluminação urbana. "Que te foi oferecido, não tinha a mais pequena dúvida! Tu nunca comprarias o lampião!", disse eu, numa implícita referência à forretice histórica do Álvaro.
Porque é que agora falo do candeeiro do Álvaro?
Foi ao olhar a jovem árvore de que deixo a imagem, que tenho num vaso na minha casa em Lisboa, que me veio à ideia esse marco de saudade do Álvaro. É que esta árvore também tem por detrás uma história de memória afetiva.
Nas noites quentes da primavera e do verão, na Vila Real da minha juventude, o cheiro das tílias, em especial no Jardim da Carreira, tinham esse bom odor em fundo.
Há meses, pedi à empresa que me trata do jardim que me arranjasse uma tília para ter aqui em casa, em Lisboa. Queria recuperar aquele cheiro antigo. O processo foi demorado, protestei várias vezes e, finalmente, lá chegou a ansiada tília. Esteve nua durante o inverno, ganhou agora umas folhas, mas, para meu desespero, permanece inodora. E, claro, no aspeto, não lembra nada as tílias da minha juventude.
O candeeiro do Álvaro tinha luz e recordava a esquina da Gomes. Cheira-me que esta minha pobre tília não vai convocar nunca quaisquer saudades de Vila Real. "Tens um bom remédio para matar saudades: vem cá acima!", já estou a ouvir alguns amigos dizerem.
